Sábado, 13 de Junho de 2015

Memória

Melita.JPG

Penso em ti. Sem me inquietar como o meu corpo. É ele que se afasta de mim. Ficaram as nódoas de uma dor dividida. Até ao momento em que o Sol não dure até ao final do dia. E os pássaros tenham esquecido a letra da canção. A mesma que nos entendia de cor e trauteávamos junto ao rio… Como se abril fosse um porto de abrigo. No concreto de um abraço. Na agitação do beijo. Agora, eu anoiteço na suavidade das minhas memórias. Entre as estrelas e o céu. As papoilas e o vento, há raízes que se agarram ao chão.

 

 

Fotografia

 

 


Sábado, 25 de Abril de 2009

pronunciar [abril]

reprimo as minhas palavras... sem permitir que ninguém as cale... sempre que me silenciam escondo as palavras no avesso das minhas reticências...

 

 

 
E neste sábado que é Abril… celebro as palavras. As que sei, na minoria de um léxico admirável que a língua tem. As que sonho, na grandiosidade de as ter sentido. As que sonhei, mas que não tive, no assíduo mistério de não entender a causa…
 
Hoje, que é Abril… exalto as palavras livres. Palavras com a barriga atulhada de espontaneidade e muita verdade. Palavras coloridas com verde na esperança e azul no mar… Palavras que rebolam na areia sem medo das poças de água estagnada e do lixo acumulado…
 
Em Abril, grito as palavras do açaimado poeta…
 
- Posso falar?
- Não!
 
… para que nunca mais a resposta se faça numa frase imperativa, tão negativa… e para que me seja permitido pronunciar Abril…

 

 

 

[fotografia de António Manuel Pinto da Silva]

 


Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

re-nascer

quando nasci não percebi o rio do meu nascer 

 

 

Em Abril __________ rasguei o ventre da minha mãe ___________ surgi nua de despudores ___________ para me saber no depois __________ aconchegada em lençóis de espuma que o rio bordou para mim __________ emergi de ternas tormentas __________________ amparou-me em mãos doces _________________ em Abril __________  ainda faltavam duas horas para o dia ser outro ___________ em Aprilis ilimitado no ressurgimento __________________ abri a boca a safras de admirações _____________ chorei alaridos de vida ____________ chegados ao outro lado da cidade ____________ nasci em Abril _________ quase ao pé do rio _________ não aconteceu nada no mundo quando eu nasci _________ tão-somente o sorriso dela desviou a Lua por estar a brilhar ______________ nasci em Abril __________ num luzente mês de carinhosas brisas espalhadas ____________________ sorria pelo Sul _____________ pelas papoilas escarlate _____________ com as azedas amarelas a baloiçar______________ hoje, não celebro o dia __________ antes a origem ____________ que naufragou antes do Inverno chegar_______________ porque navego por aqui _______ redemoinhando à tona da grandiosidade que me gerou __________ no seu rio ___________ em Abril.

 

 

[fotografia de Diego Sousa]

 

 

 


Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

o mar do meu país

p sombras de Portugal

 

Do meu país entrevê-se o mar. Mas o mar já perdeu a paciência. Esqueceu as descobertas. Cancelou as invenções. O mar do meu país está triste. Deixou de sorrir. Desaprendeu a letra da canção. O meu país já não sabe aparelhar os barcos. E ignora quem está além-mar, porque estranha o que acontece aqui. O mar está confuso. O azul-marinho é já azul-turvo. Da cor da decepção.

 

Foi uma terra de gemidos sofridos. Contidos e controlados. Cristalizados ao longo dos anos. Um dia, acordou bem cedinho e fez-se à água. Pegou em armas que não disparou. Com uma flor edificou um jardim que o sol iluminou. O Sol brilhou no céu. As raízes absorveram a água. As folhas absorveram o dióxido de carbono e a luz do Sol. As folhas transformaram a luz solar em açúcares e as flores cresceram.  Briosas. Benfeitoras na alforria de oxigénio para o ar. Admiráveis. A Lua foi para a cama. Fechou os quartos. Apagou a luz, adormeceu e acordou cheia de vontade. Só que o Sol ergueu-se primeiro.

 

O meu país imitou a estrela. Espelhou-se nela. E pediu ao planeta que fizesse as marés. E ele fez. Para cá e para lá. Para cima e para baixo. Movimentos ciclicamente repetidos. A notícia galgou o mundo. Uma preia-mar de comoções e canções. A flor desabrochava. O meu país deu risadas de Abril.

 

Depois vieram rumores vindos daí. O país cumpriu-os. Aliou-se à força dos outros, persuadido que a pujança era contagiosa. Só pelo contacto. E também pelas vozes que proferiam discursos arranjados e encomendados. Erro tamanho! E o meu país dobrou a melancolia. A maré arrastou-o para a praia. O barco já não navegava. Ficou por ali a ver os outros partir e florir.

 

Ele chegou e tudo se transfigurou. O meu país tornou a sorrir. E pintou-se de verde e vermelho. Com pedacinhos de amarelo. E reaprendeu a canção. Esqueceu que uma vez a praia foi de lágrimas. Dúvidas. Medos. Alguns segredos. E partiu seguro da vitória. Não se recordando da História.

 

Às vezes, o meu país suspende o canto. As lágrimas desejam o mar. Às vezes, o meu país não sabe onde está o mar. Ignora que Adamastor chorou. O pobre amou e ninguém notou. A gente do meu país derrama lágrimas salgadas com o sal do mar que é seu. E quer rir. O meu país assumiu as gargalhadas de Junho.

 

Ninguém reparou que o mar se cumpria. Que D. Sebastião não voltou. Porque o nevoeiro não o mostrou. Porque é um mito do tamanho de um país e, apesar de prodígio, não driblou o inimigo. Foi uma desgraça. O sofrimento e a esperança sustentaram a aflição do meu país que cantou em uníssono árias de vitória. Uma terra que esqueceu os oponentes. E nem reparou que os adjuvantes eram de papel. E o meu país está triste. Chora a veleidade de ter dissipado a espessa névoa. Tão triste e tão choroso! O meu país silenciou-se na derrota. As cores já debotam à janela. E ele foi-se embora. E acordam sorrisos amarelos.

 

E agora que os heróis não se cumpriram. Que as vitórias foram balelas. Que a euforia mirrou. O meu país vai contemplar o mar?

 

O meu país permanece a chorar. Com fundamento. E já tenho saudade do mar de pátrias lágrimas sem razão…

 

Por que motivo a Europa foge a sete pés sempre que nos aproximamos dela? Eu cá não arranjo resposta. Não sei não!

 

E veio-me à memória a Península Ibérica a vogar pelo mar n' A Jangada de Pedra.  Saramago deve ter-se enganado. A Espanha é que não. O melhor é mantermo-nos quietinhos. Acomodados à nossa quixotesca e afadigada periferia e de mão aberta para os fundos. O mar e o sol ficarão por nossa conta. 

 

 

 

 

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Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

sobre Maio - outro amigo também

de Jorge Soares

 

 

 

A 25 de Abril de 1974, eu não sabia que se comemorava Maio. Politicamente ignorante, aderi de imediato à causa. Depressa percebi que um país “orgulhosamente só” não chegaria a lado nenhum. A cooperação, a partilha, a discussão, a cedência, a vitória, o exemplo, a motivação, a auto-estima, o envolvimento, a satisfação, a autonomia são valores dos quais não abro mão. Nunca receei que a minha individualidade se subjugasse ao colectivo. Antes pelo contrário. É no confronto com o outro que me afirmo. Portugal deveria ter feito o mesmo. Para além disso, havia uma guerra estúpida a reivindicar terras que não eram suas, porém a mutilar povos que choravam lágrimas de sangue e de esperança. A minha família tem exarados no corpo vestígios desse erro tamanho. Erro sintáctico. Anástrofe desnorteada.

 

No 1.º de Maio de 1974 eu estive lá. Um mar de gente que dizia palavras de ordem, entoava cânticos e carregava nas mãos calos e dores de esperança, alegrias sem medida.  Uma fé que Abril acabara de abrir. Uma confiança projectada no futuro e pintada de vermelho. Estive lá, devo ter cantarolado, mas o meu peito esteve sempre a salvo de autocolantes – pragas ambulantes. Ainda hoje, sou avessa a insígnias. Tenho para mim que as convicções políticas, religiosas e até clubistas constituem o meu património afectivo, também efectivo. Não as dou, nem as apregoo sem mais nem menos. Dando crédito ao que se houve por aí, a publicidade paga-se caro. Então, por que razão hei-de fazer a dita? Publicidade à borla? Não senhor, obrigado. Nada como uma blusinha lisa. Nada de ornatos.

 

Historicamente, Maio remonta ao séc. XIX, 1886. Nesses tempos, Chicago reclamou direitos, a polícia espancou, matou e feriu. Paris criou o dia mundial do trabalho, em 1889. Em 1974 fazia sentido que Portugal despertasse para essa realidade. Apesar de ignorados, não devíamos permanecer ignorantes. Ainda por cima num país pobre, penhorado, sofrido, vexado. Num país que acabara de renascer e começara a cantar.

 

 

Passados 38 anos, comemora-se Maio, outra vez. Preocupa-me a necessidade do acto. Comemorar o Dia do Trabalhador, traduz-se por “os portugueses não trabalham?”? Então, o Governo tem razão… A "celebração do trabalho" ? Então, a razão salta para o lado de quem lá vai cumprindo as oito, dez, doze... horitas. É tudo uma questão de perspectiva. Do ângulo de visão. E ainda há quem apenas veja os planos, grandes, muito grandes.

 

 

Celebrar efemérides é sempre suspeito. Umas são acontecimentos foleiros, outras movem-se pelo "vil metal", outras ainda por uma lamechice doentia, mais aquelas que patenteiam um provincianismo irritante. Escassas as coerentes e livres. Não há paciência .

 

 

O que me preocupa mesmo é a indispensabilidade de comemorarmos Maio. Por tudo o que se passa aqui… 34 anos depois de Abril, Maio continua a estar magoado. Eu também!

 


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...