Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

vozear

 Ao sábado ando por aí. Sem arames farpados disfarçados de tempo. Sem caminhos aforquilhados por entes indesejados. Ao sábado só faço o que quero. Por vezes, não faço nada. Decretei que este é o dia de mim. Porque o nada é tudo, quando me coíbem vontades e me algemam a decisões. Ando e oiço vozes que amo. Chilreios e gargalhadas de rir. Francas e leais.

 
Ao sábado como arroz-doce na Dona Perpétua. São gostos e prescrições rejeitadas. Amanhã, cumprirei o cerimonial. Farei tudo com mais exuberância e vozearei por aí que é sábado. E que urge ir a correr! Para lá. Onde todos seremos poucos.
 
Neste sábado, eu vou lá estar. Para bramir contra a miopia de quem já não discerne a realidade. Porque estão cada vez mais disformes, deselegantes e ferozes. Há portentos assim!
 
Neste sábado, vou lá estar. A vozear desagrados e muitos desabrimentos. E só me calarei, quando a voz me começar a doer. Mesmo que em silêncio. Mesmo que ninguém me coiço. Sábado vou vozear!
 
 

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

exteriorizar

 de Jorge Soares

 

A flor exterioriza a perfeição. E procura o Sol. Sem modéstias estéreis, sem alardes insignificantes. Ela sabe que a excelência mora ali. Desnuda-se de cores que não aprova, decide-se pelas que quer. Assume o seu garbo e não esconde o enfado quando não percebem que a sua elevação é natural.

 
Preocupa-a a fragilidade, mas agrada-lhe a seriedade. E sempre que o vento chega, diz-lhe que sim. E amam-se até ele a deixar. Ela conhece-lhe as astúcias. Ele voltará. Volta sempre… Para lhe gabar a excelência. Às vezes fica. E, ao seu lado, acorda apaixonado por tão admirável beleza. Inebriado com o perfume do seu corpo. Ela sorri. Torna-lhe que sim. Que germinou assim.
 
Aflige-se com a espontaneidade, no entanto gaba a verdade. E sempre que o vento acontece, murmura-lhe que sim. Que agrilhoado não o quer. E pede-lhe que, à noite, chame o luar. Ele faz-lhe a vontade e começa a cantar. Jura que vai plantar um jardim para ela brilhar. Ela murmura que sim. Que rebentou assim.
 
Sempre que a flor acorda de manhã, revela a certeza. Que reside no facto incontornável de ela ser assim. E conta que surgiu de uma minúscula semente que o vento derramou. Que o processo foi genial, tudo muito inato e que apenas precisa de água para sustentar a raiz.
 
Sempre que o vento desperta, mostra o movimento. De flores apressadas, muito enraizadas a cumprir a missão. Empenhadas na bajulação, nem percebem a sua desconsolada condição. O vento não resguarda flores de plástico, que não é dado a coacções desusadas. Nem a sofisticações forjadas e muito laboratoriais. E a flor segreda-lhe que sim. E narra arrelias ampliadas que se exteriorizam no jardim.
 
A flor contenta-se na exteriorização da sua lealdade. Naturalmente assombrosa. E eu não percebo por que razão as pessoas preferem as flores artificiais. Tanto, que acodem como elas. Na vassalagem ao Sol. Na exteriorização de vontades que não são suas. Nem sabem que as flores artificiais dispensam a luz, a água e a pátria. Movem-se por imitação.
 
E o vento começou a soprar...
 
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se ficares exposto por muito tempo, e aprendes que não importa o quanto tu te importas, algumas pessoas simplesmente não se importam...
 

Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás, portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma em vez de esperares que alguém te traga flores, e aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não podias mais.
 

 William Shakespeare

E a flor pôs-se a pensar...

 


Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

borboletear

 de Jorge Soares

 

A borboleta borboleteia-se em movimentos singulares. Subtilezas de bailarina. Quando sobe nas pontas das suas asas encontra uma leveza sublime e uma delicadeza ímpar. Invejo-lhe a doçura das cores compostas nas escamas profusamente emolduradas em complexas colorações. A graciosidade do andar. E quando descansa, a borboleta dobra as suas asas para cima. E faz preces de polinização. Vagabunda do Sol. Aventureira da vida, esvoaça no limite da beleza. No casulo, acontecera magia enfeitiçada e, num momento de singular benignidade, explodiu uma insólita excelência. De flor em flor, graciosamente. Sem compreender que o belo é efémero. Que a flor vai definhar e sucumbir. E ela é uma presença fugaz. Ao sabor do Sol que no Inverno não tem calor. Apenas ilumina dias minguados e grisalhos. O amarelo está desbotado. E a borboleta não sabe que, no Sul e no Norte, o Inverno não acontece ao mesmo tempo. O Sol também se borboleteia. Acorda todas as manhãs. Ciclicamente. A borboleta borboleteia como se fosse o último dia. Pisa o palco uma só vez, sem direito a bisar. A borboleta desconhece a força da sua fragilidade. Quer voar, voar perdidamente aqui e ali e mais além. Como uma alma que se liberta à procura do infinito, porque se sabe mestra na transformação.

 
E eu, que olho a borboleta com olhos estúpidos de deslumbramento, não concebo a destreza. Nem a leviandade de quem vive a saltitar. Invejo-lhe o casulo que foi seu e que desbaratou. Na metamorfósica ânsia de querer volutear. E já com as asas feridas pelo vento, irrompe na mais admirável voluptuosidade, modificando-se com a vida. Sempre a borboletear. Sente o equívoco do ar nas asas e corre para investigar a função das mudanças. Para compreender processo da metamorfose organizacional. Que a sua foi natural.
 
A solidez do meu casulo ostenta brechas e fendas. Hiatos tamanhos. A claridade trespassa e estonteia-me. O vidro do casulo estilhaçou-se bruscamente… Há destroços. Asas que sucumbem. Já não vejo sonhos a desenhar passos de dança delicados. Apenas sorrisos esboçados. Movimentos tracejados. Vacilantes e perplexos.
 
E eu só quero esticar as minhas asas contundidas e desaparecer no ar… Precipitada ambição. A avestruz é uma ave que nem sabe voar!
 

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

engadanhar

 da Internet

 

Há muito tempo, gadanhava-se a valer. A vida trabalhava-se na agricultura. Na dos outros que tinham terras imensas. Quintas e quintais. Herdades e montes. Lavras de arroz e searas de trigo. A vida era pintada de amarelo-esverdeado. Escuro, quase preto. E quando a fotossíntese se cumpria era uma alegria clandestina. Iniciava-se a cadeia alimentar. E a fome grassava por ali. Sem esse admirável fenómeno seriam incapazes de sobreviver. Por carência de verde. Já Aristóteles dizia que as plantas necessitavam do Sol para se esverdearam à vontade. Só que o Sol não sabia que a gadanha era uma criatura nefasta. Dois cabos menores seguiam sempre a par. Por isso, a lâmina feroz. Cortante e muito torturante. Exigia arte e engenho, manuseio de quem entendia do assunto. Tudo era feito com muito cuidado. Às vezes, apenas para desorientar os incautos, mudavam-lhe o nome. Tratavam-na por tu, o que dizia da intimidade. Ou não. E a gadanha tanto respondia por gadanho como por alfange. Mas acudia. E cortava. O trigo, as canas, o junco, a erva. A daninha e a outra. Não entendia as diferenças. Apenas o verde. Então, gadanhava tudo o que serpenteasse verdura. Alguns lavradores munidos da alfaia agrícola, e por tanto a usar, até se persuadiram que morreriam a gadanhar. Sempre a gadanhar, acabaram por entender que aquilo era só um adorno em mãos erradas. Sujas e enjoadas. Inquinadas por bebedeiras de comando. Convencidas que a cultura não era popular. E mascarados de cavaleiros apocalípticos, trouxeram a peste, guerra, fome e morte. Esqueceram-se que não podiam causar danos à erva. Nem às árvores. E o verde sobreviveu nas bocas moribundas dos corpos. A terra floreou.

 

Nos tempos actuais, as ceifeiras mecânicas substituíram a tradição. A gadanha esgadanhou-se na prateleira do museu. Na adega, talvez no barracão. É sobras de dias gastos a chorar as canas esquartejadas à beira do rio. A gadanha é termo afectivo. Património das minhas memórias visuais. De longe, apenas de muito longe. Acabou-se a possibilidade de gadanhar. Porque se foi, a gadanha.

 

Hoje sinto-me esgadanhada pela indolência de uns. Ignorância de outros. Inoperância de muitos. Inépcia de quase todos para labutar com a gadanha. Acintosas vontades. E por mim que estou desassossegada com tanta falta de jeito.

 

E é por ver tanta gente a gadanhar que não percebo a razão de estar assim. Muito engadanhada. Faço riscos na areia, ao acaso. E lá ao fundo, vejo linhas inúteis. E percebo que gadanhar é profissão sem futuro. Certamente, por falta de jeito.  É que as mãos também se enganam.

 


Sábado, 18 de Outubro de 2008

combalir

  da Internet

 

No mundo há seres humanos. Um mundo colorido com as cores todas que o mundo tem. Com cantos e recantos. Tantos que nem sei quais. Eu tenho o meu cantinho. Às vezes, perco-me nele. Calcorreio caminhos. Trilhos e avenidas. Veredas e rotinas. No entanto, o que mais gosto é de subir ao monte. Fico mais próxima do céu. Conto as estrelas e afago a lua. Ao sol não faço nada. Ele tolda-me a visão. Ao rei presto vassalagem. O meu olhar vira-se para baixo e vislumbro o mar. Tão largo que banha o mundo inteiro. No monte eu posso reaprender a ouvir o canto dos pássaros. E redescobrir flores a desabrochar. Aceitar a dávida e lamentar a efemeridade da beleza. Da vida. Também, quem sabe, adivinhar o sorriso doce da criança que cresce como a flor. Sentir a força da amizade e o prazer da cumplicidade. Sentir o vento e gargalhar, antes que me congele o coração. Ou me emudeça a voz. É um sopro que desce da colina. Corre pela encosta e arrebata o ar em movimento. Desafia o frio e alguns calafrios. No monte, gozo de abrigo e digo que outros ventos virão. Que ao amanhecer, brisas suaves chegarão com contentamentos na mão. Ou não!

 

Na minha cidade o vento tem temores e faz o meu cabelo dançar. Agitação fria que não deixa ouvir os gemidos. São corpos enfermos que gritam dores silenciosas. Erros ortográficos que o vento gerou. Males vindos de longe ou daqui. Fragilidades copiadas dali. Promiscuidades terrenas. Cópias arrebatadoras. Progresso tirânico que não ouve o vento! E vulgariza as dores ao ignorar humanidades.

 

Na minha rua as pessoas têm rosto. Aqui o vento não desce pela colina. Trepa-a e fala crueldades. Geladas. São os ventos de hoje que semeiam fraquezas humanas. Combale e deprime. Porque o Mundo não goza de boa saúde. Está debilitado. E muito angustiado.

 

Na minha rua os riscos amarelos são amarelo-desbotado. E todos os dias há mais um… Eu detesto que risquem a minha rua deste modo. Fico muito combalida. E tenho para mim que a culpa não é do vento. Ele só assiste ao temporal. E Deus? Ele sabe que as crianças não desenham assim. São os adultos, Senhor!

 

Ao sábado não riscam a minha rua. Por isso, vou comer arroz-doce. Antes que a tracejem para mim.

 

 


Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

esgaravatar

de Paola, galinheiro

 

Esgravatar é um verbo necessário. Se não o fosse, nem existiria. Essa coisa de se pensar que não fica bem e tal, não se justifica. Que esgaravatar é próprio das galinhas, não me convence. Os pobres galináceos têm objectivos individuais a perseguir. Por isso, a passam o dia a esgravatar e a comer tudo o que encontram. Quer se trate de minhocas, sementes e frutos e migalhas. Não me parece nada bem é que se contentem com migalhas. Paciência, isso é com elas. Até o galo esgravata. E é um senhor! Canta é muito melhor, logo pela manhã.

 

Esgaravatei para nascer, e que trabalhão dei à minha rica mãezinha, continuei pela vida fora, que já vai longa, e continuo a fazê-lo. Mas não sou galinha. Apesar de cacarejar de vez em quando.

 

Esgravato para remexer a terra. E que perfume ela tem! Para atiçar o lume. Com tenaz, que não me quero queimar. Às vezes queimo. Esgaravato nas gavetas. Só quando não me lembro onde enfiei as meias pretas. As outras sei, porque nem as comprei.

 

Esgaravato o fundo do tacho. Sabe tão bem! E esgaravato perguntas e respostas para mim. Também para eles. E gosto tanto! E esgaravatar confunde-se com saber e aprender. Pesquisar e perguntar. Solucionar e responder. Pensar e relacionar. Ai, que prazer! Esgaravatar nos livros. Bicar as palavras. Debicar as frases e transportá-las no bico para mais tarde saborear. E esgaravatar soluções. Esgaravato porque não sei. Porque vivo e canto incertezas.

 

Esgravatar soa a arcaísmo. A estrangeirismo. Ai, o que é isso, professora. Que palavra tão ruim. Deixe lá! Já ninguém fala assim. Eu continuei a esgravatar naquelas cabecitas nuas de vocabulário. Despidas de empenho linguístico. Se as galinhas é que esgaravatam, a metáfora e a conotação são de nula importância. E concluem que a denotação é que sim. O dicionário faz a decifração. Sem bem entender que o problema não está no verbo, porém na acção.

 

É minha convicção que, cada vez mais, se esgaravata menos. Ou já se compra feito e empacotado, de preferência numa lata com abertura fácil, ou não resulta. É que esgaravatar dá mesmo trabalho. Outro verbo que eles não gostam de praticar. Nem, como as galinhas, esgaravatam para comer. Apenas porque não têm fome de saber. 

No que me diz respeito, vou continuar a esgaravatar ou esgravatar que dá no mesmo. Sobretudo por mim. Só porque gosto de lhes dizer que decorar não é sinónimo de esgaravatar. E que se deve esgravatar todos os dias.

 


Domingo, 5 de Outubro de 2008

encaracolar

de Emanuel Couto, caracol trepador

 

Porque hoje é domingo, só me apetece parar. Pular, saltar e conjugar o verbo espreguiçar. Eu, tu, ele, ela, nós. De vós não quero saber. E deles nem pensar. Fazem muito barulho e não quero acordar. Ou não! Vou imitar o caracol. Ponho os corninhos ao Sol serenamente. Durmo velozmente. Como lentamente. Mexo-me calmamente. Não faço nada apressadamente. E aguardo paulatinamente que acorde amanhã. Tudo excessivamente devagar. Tudo vou adiar. Tranquilamente. E se me lembar, não dou corda ao relógio. Para que ele não se atreva a falar. Depois, subirei cada degrau, da minha escada, vagarosamente. Não os fizeram para eu descansar? Não? Então, vou subir muito devagar!

 

E a notícia é de última hora. O caracol, que tentou subir apressadamente a parede de sua casa, sofreu um acidente cardiovascular. Foi assistido no local e transportado de urgência para o hospital mais próximo. Chegou já sem vida, vítima de paragem cardíaca ocorrida durante o transporte, informaram pausadamente. O funeral do irrequieto gastrópode sairá daqui para a sua terra natal. Espera-se a presença de conhecidas figuras públicas.

 

Mais não explicaram. Nem é preciso.

        


Sábado, 27 de Setembro de 2008

apetecer

de Paola, as galinhas

Hoje é sábado, mas não me é consentido falar… Por isso, vou apenas murmurar. E se alguém perceber? Não, é melhor suspirar … Ai que me estão a ouvir! Assim não dá. Irra! Tanto que me apetece gritar. Talvez, rumorejar. Ai, ai que me estão a escutar. Tenho mesmo é que me calar.

 

Shiu! Apetece-me arroz-doce. Com muita canela. Admirável. Só mais um segredo pequenino e muito baixinho, sim? Tanto que me apetece praguejar! Mas só poder cacarejar é muito pouco. E muito devagarinho, apetece concluir que não percebo nada disto... Se eu disser que anda meio mundo a fingir é apenas porque me apatece. Ou então sou eu, que não me apetece pensar. Ou não me apetece escrever. Pode apetecer! Ou não? Mas apetece-me ser barco. Procurar o mar e vaguear. Pular as ondas. As tempestades e os temporais. E não voltar ao cais. Apetece-me!

 

 


Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

ter

  de Jorge Soares, libelinha

 

Porque ter e não ter é mesmo a questão. Ou ter até ver. Ou não ter e até ter. E que tenho eu? Não tenho voz para falar. Nem mesmo murmurar. Nem vontade para esbracejar. Apenas uma lágrima se lançou da janela. Sem saber onde fica  o mar. Sem ter jeito para tocar viola. Porque não tem intenção de cantar. Só de chorar. E quando ter se conjuga sempre no presente e repentinamente já só tem condicional? Sem futuro. E com um pretérito muito imperfeito? Ter e perder, ai tanto que dói. E é neste instante que as letras se volatilizam e deixam as palavras nuas. E as frases despedaçam-se em interjeições que são frases excessivamente impressionáveis. E muitas admirações. E acentos. Graves. Também agudos. E tem pontos finais.

 

- Quem lá ia muitas vezes era o seu paizinho que Deus tem…

 

Não sei se tem! Se Deus tem o meu pai é porque já o levou. Se o pai é meu não o deveria ter eu? Não tenho notícia que o possessivo não especifique a posse. A sintaxe tem regras. O sujeito sou eu. Nem concordo que Ele mo tenha surripiado. Nem Lhe fica bem tamanha ousadia. Os pais são dos filhos, acabou-se a discussão. E os filhos dos pais. Mas não entendo a razão por que se roubam amores. Nem o regozijo a mim. Ter, não tenho. E ele tem? Tem!

 

 


Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

pensar

de Paola (Guincho, Cascais)

 

O que é pensar. Como fazê-lo? E procurei razões que suportassem o acto. Avaliei os custos, já que, nos tempos que correm, é questão determinante. Pagam-me para pensar? Eu sei a resposta, mas enfim… Interroguei-me sobre a indispensabilidade do gesto. É mesmo preciso atormentar o cérebro com reflexões sofisticadas? Tentei perceber os tempos e os espaços. Quando? Devo pensar todos os dias? Há dias consagrados à razão? Não creio ser essencial pensar em todo o lado. Nem correcto. Só traria aborrecimentos. As pessoas a conversar disto e daquilo e eu a pensar. Não resultaria. Posteriormente, encetei outro tipo de raciocínio. E a dúvida instalou-se. Pensar sozinha não me levará a lado nenhum. É muito aborrecido. Mas pensar não é, como nascer e morrer, um acto individual? Não, não estou a pensar bem. Até são dois momentos da vida muito partilhados. Um para rir outro para chorar. No colectivo. Pensar acompanhada envolve alguma promiscuidade. Usurpa intimidade. Nem tudo o que passa pela cabeça é dizível. Antes uno e intransmissível. Penso eu! E como actuar? Em voz alta? No mais clandestino silêncio? Digo ou não digo o que estou a pensar? E o que estou a pensar será mesmo pensar? E acredito que o que estou a pensar  não interesse a ninguém.

 

Pensar humano é. É? Então, pensamos todos. Sim! E ele, como é que pensa? Olha para o poema. E depois? Finge-se escritor ou contenta-se em ser autor? Talvez não e apenas seja um pensador… que pensou em voz alta. Ou o outro. Fernando Pessoa cogitou. Tanto que se multiplicou. Facto que em nada me ajudou. Continuo sem saber o que é pensar. Vou experimentar pensar por conta própria. Talvez resulte. Não dá! Preciso de alguém. De alguma coisa. Dos pensamentos dos outros. E não é honesto. É? Só que não tenho alternativa.

 

Pensar é conhecer. Julgar e raciocinar. E também comparar, compreender e saber. E não é evoluir, engendrar, sentir, criar, construir e destruir? Se assim for, exige esforço. Tanto trabalho é excessivo. Nem sei se sou capaz. Às vezes não sou. Mas não desisto de pensar que um aluno, que tenha as soluções preparadas e definitivas, não será capaz de resolver problemas do dia-a-dia. Nem tomar decisões importantes. Tão pouco pensar. Sozinho ou acompanhado. Mas pensar cansa, por isso não gosta. Não está treinado para pular e saltar. Sem parar. Não está disposto a dar uma oportunidade à solução.

 

Talvez seja por tudo isto, ou exactamente por nada disto, que o Simão estendeu os olhos pela sala. Depois olhou para mim.

 

- Professora, desista… Não é melhor dar já a resposta?

 

Já estava cansado. E eu também. Porque pensar dá trabalho. Então, eu dei!

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...