Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

cantarolar

o azeite é  um hábito saudável

 

o cantar do galo

 

 

É uma banalidade apregoar o renascimento das tradições. Porque pilares culturais que urge manter de pé. O tempo escasseia e o melhor é nada pensar. É comum dizer-se que o presente é espaço de confluência de pretéritos perfeitos e imperfeitos. De condicionais também. É uma vulgaridade recorrer a tempos conjuntivos para que certifiquem admirações e desejos. Sentimentos emocionados. A dúvida, a espera, o desejo, a esperança que queremos presente e futura.  Anda-se com a cabeça no amanhã. Só que o corpo carrega as marcas de ontem. Caminham  de mão dada.  Ente ambos o hoje.

É uma tolice reclamar apreço pelo ontem quando os olhos estão no futuro. E os ouvidos nunca ouviram falar nele. São jovens e os adultos já se esqueceram. E quem tem culpa que Egas Moniz defendesse o valor da palavra com uma corda ao pescoço? Anacronias desajustadas. Os jovens não têm pressa e a memória mede-se em megas e gigas. Lá fora, há a rua. Só que  sem passado não se edifica um futuro sólido.

É despropositado repisar que a obesidade é um mal. As pizzas são deliciosas e os hambúrgueres também. As batatas fritas têm queijo. Presunto e mau colesterol. O tempo esconde-se. Escasseia. E as latas com abertura fácil respondem à pergunta o que há para o jantar. Simplicidades com efeitos perversos.

É, portanto, inútil reafirmar a importância de tradições alimentares. De nada serve a chamada dieta mediterrânea. Essa história da Ilha de Creta ter habitantes saudáveis e bem-dispostos é uma lenda. E as lendas não dão de comer a ninguém. Ainda por cima, parece que os tipos comiam muita fruta fresca e legumes. E peixe. Nada de fast-food. Tudo aromatizado com ervas e temperado com azeite. Arcaísmos gastronómicos sem sentido.  Não são. Antes paladares e aromas a actualizar.

 

Não faz sentido, mas eu insisto. Há tradições que merecem ser recuperadas. Com sabedoria. Há passados a ser presentificados. Pela nossa saúde!

 

O meu passado tem incursões no olival. E correrias com cabriolices de saltar e correr. E trepar. E brincadeiras com as oliveiras. E a apanha das azeitonas. Sacudiam-se os ramos com varas e as azeitonas, no chão, deixavam-se apanhar. Depois, cirandava-se para que o vento levasse as folhas. E as mulheres cantavam. Tradições! Esta é para esquecer. Dava muito trabalho e danificava as oliveiras. Hoje é tudo mais moderno. E havia o rabisco da azeitona. E naturalmente, o azeite. Que ainda há.

 

E é por causa do azeite, produto tipicamente mediterrânico e milenar, que a publicidade me agradou. Gosto da receita, dos ingredientes e do meu país. E da voz.  Com reduzida acidez. Porventura de proveniência  seleccionada. Decantação e assentamento  feito ao natural e com pouca luz. Amarela-esverdeada, com pepitas douradas, cheiro e aroma de frutos. Produzida em Portugal. Um país com tempo. Com tradições, hábitos e costumes. E quando o galo canta pela manhã é apenas para anunciar que é tempo de acordar.

 

Nota - Se música da playlist  incomadar, deligue no botão do rádio ...

 


Sábado, 26 de Julho de 2008

poder

 não coma mais colesterol

 

 

 

Um sábado gostoso. Passado como quem saboreia os acepipes que, na mesa, alimentam a fome que se senta à espera de mais. Um menu de colesterol para quem come. E comemos todos. Esta história das refeições terem preços acessíveis e depois colocarem à frente dos nossos olhos ou da boca, o que é bem pior, aquelas coisas fantásticas não dá. Desde as azeitonas e manteiga ao queijo, do presunto à linguiça assada, morcela e outros que tais, torresmos ou gambas à la qualquer coisa, de preferência em francês que é para dar um tom distinto ao repasto, alheira de caça, presunto com melão e tudo o mais que nos passar pela cabeça, vale tudo neste jogo de sedução alimentar. E mais o vinho daqui e dali e também do estrangeiro. E depois? Encomenda-se o quê, quando já se comeu o que havia em cima da mesa? Nem valia a pena perguntar. Mas lá vem o empregado muito solícito, simpático e, na maioria das vezes, barrigudo e com bigode enrodilhado nas pontas. A encomenda faz-se no meio de estou cheio, já não posso mais e coisas assim. Todavia pode-se. E come-se e bebe-se e come-se. Muito bem. Tão bem que se volta na primeira oportunidade que surja. E recomenda-se. E eles também vão e comem. E recomendam. E voltam.

 

Portugal é um país onde se come bem. Sem dúvida. Portugal é um país onde a obesidade é um dos principais agentes de risco para o aumento de outras doenças que lesam a saúde. Hipertensão, diabetes, colesterol alto e acidentes vasculares cerebrais sucedem-se. A estatísca confirma a enfermidade. Portugal é culpado de estar doente. E continua a servir admiráveis iguarias à mesa da gente. É verdade que estes hábitos vêm de outros tempos. Logo com o nosso primeiro. D. Afonso Henriques era muito forte e alto, caso pouco comum na época. Obviamente devido a uma excelente alimentação. Só pode. Não é por acaso que as desavenças com a mãe deram no que deram. E o Capuchinho Vermelho? E a boca enorme do lobo que queria comer a menina? E os pitéus que a mãe colocara na cesta para a avó? Enfim, não há mesmo cura para esta gula colectiva. Este gostinho transmite-se por direito de sucessão. Nunca mais nos livramos do maldito do colesterol.

 

Por causa do colesterol, e porque gosto, prescindi das entradas. Comi muita salada, fruta e peixe. E bebi água, claro. Não vá o diabo tecê-las. Não me consta que o dito tenha morrido de ataque cardíaco.

 

E antes e depois e durante, passeámos palavras ao sabor do vento e do sol. E da fome. E deambulámos à beira-rio. Sentimos a brisa. O fresco. Espreitámos o horizonte. Entre nós e o Sol e as nuvens existia o ar! E rimos até as gargalhadas  atrapalharem as lágrimas. É que pela manhã não renunciámos à tigelinha de arroz-doce. Com canela. É só ao sábado…

 

 

(fotografia de Olhares, Fotografia Online)


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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