Domingo, 15 de Março de 2009

contrariar

não sou capaz

 
 
O rapaz chegou cedo… mas atrasou-se na entrada. Entrou com os olhos apoquentados e o corpo denunciava o peso da lei. Preceitos que ele não entendia muito bem, por contrariarem a sua vontade. Passos demorados, passos serenos, cabeça para baixo de quem tem a determinação efectiva. E matutava sobre a proficuidade de uma prova de recuperação. Não entendia como ela o poderia recuperar, se ele nem se sentia doente. É um bonito moço. Alto, com aspecto saudável e pele sã. E muito menos entendia a obrigatoriedade do recobro e o intuito de andar tanta gente interessada no assunto. Bastava-lhe ir e vir, com um saquinho às costas. Coisa pouca, só para conter os haveres muito pessoais. Nada de livros, cadernos… não era capaz.
 
Na obediência da ordem, lá abriu um livro que não tinha. Há sempre gente boa. Mas não leu. E nunca disse que não sabia ou que se recusava. Apenas reafirmava que não era capaz. Não explicitou as razões. Porque não foi capaz. Não respondeu a qualquer pergunta, porque não foi capaz. Não fez a prova, porque não foi capaz
 
E eu estou para aqui a pensar que a vontade não se decreta… que tenho de ser capaz de forjar relatos muitos … Eu que discordo de leis imperiais! Ora, se o determinismo é uma teoria confirmada, o rapaz agiu em condição. Nem merece punição. E o jovem lá permaneceu na maior desvontade de fazer tudo, incapaz de entender os condicionalismos da liberdade de escolher.
 
[imagem da internet]
 

 


Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

localizar

imagem da Internet

 

Há dias danados. Tão estúpidos! É em dias assim que o aforismo  irrompe na boca da gente muito arrebatado. O melhor teria sido ficar em casa!!! De preferência, subordinada ao edredão. Na falta da areia e porque uma pessoa não é propriamente uma avestruz desconjuntada a correr que nem uma maluca.

 
Pois há! Só que fazem intervalo.
 
Hoje começou assim. Tão frio que o calor rareou até ao fim da tarde. Tão tarde que a luz se alumiava no interruptor. No meio de despedidas apressadas, ele olhou para mim e segredou-me uma confissão pouco meritória.
 
- Nunca tinha tido uma positiva… é o meu melhor presente de Natal…
 
Há dias admiráveis. Num pequeno gesto, numa palavra, num olhar… E se é verdade que o Natal é quando um homem quiser, não é menos verdade que o dito depende mesmo da mulher… em qualquer local. Hoje foi ali!
 

 


Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

pensar

de Paola (Guincho, Cascais)

 

O que é pensar. Como fazê-lo? E procurei razões que suportassem o acto. Avaliei os custos, já que, nos tempos que correm, é questão determinante. Pagam-me para pensar? Eu sei a resposta, mas enfim… Interroguei-me sobre a indispensabilidade do gesto. É mesmo preciso atormentar o cérebro com reflexões sofisticadas? Tentei perceber os tempos e os espaços. Quando? Devo pensar todos os dias? Há dias consagrados à razão? Não creio ser essencial pensar em todo o lado. Nem correcto. Só traria aborrecimentos. As pessoas a conversar disto e daquilo e eu a pensar. Não resultaria. Posteriormente, encetei outro tipo de raciocínio. E a dúvida instalou-se. Pensar sozinha não me levará a lado nenhum. É muito aborrecido. Mas pensar não é, como nascer e morrer, um acto individual? Não, não estou a pensar bem. Até são dois momentos da vida muito partilhados. Um para rir outro para chorar. No colectivo. Pensar acompanhada envolve alguma promiscuidade. Usurpa intimidade. Nem tudo o que passa pela cabeça é dizível. Antes uno e intransmissível. Penso eu! E como actuar? Em voz alta? No mais clandestino silêncio? Digo ou não digo o que estou a pensar? E o que estou a pensar será mesmo pensar? E acredito que o que estou a pensar  não interesse a ninguém.

 

Pensar humano é. É? Então, pensamos todos. Sim! E ele, como é que pensa? Olha para o poema. E depois? Finge-se escritor ou contenta-se em ser autor? Talvez não e apenas seja um pensador… que pensou em voz alta. Ou o outro. Fernando Pessoa cogitou. Tanto que se multiplicou. Facto que em nada me ajudou. Continuo sem saber o que é pensar. Vou experimentar pensar por conta própria. Talvez resulte. Não dá! Preciso de alguém. De alguma coisa. Dos pensamentos dos outros. E não é honesto. É? Só que não tenho alternativa.

 

Pensar é conhecer. Julgar e raciocinar. E também comparar, compreender e saber. E não é evoluir, engendrar, sentir, criar, construir e destruir? Se assim for, exige esforço. Tanto trabalho é excessivo. Nem sei se sou capaz. Às vezes não sou. Mas não desisto de pensar que um aluno, que tenha as soluções preparadas e definitivas, não será capaz de resolver problemas do dia-a-dia. Nem tomar decisões importantes. Tão pouco pensar. Sozinho ou acompanhado. Mas pensar cansa, por isso não gosta. Não está treinado para pular e saltar. Sem parar. Não está disposto a dar uma oportunidade à solução.

 

Talvez seja por tudo isto, ou exactamente por nada disto, que o Simão estendeu os olhos pela sala. Depois olhou para mim.

 

- Professora, desista… Não é melhor dar já a resposta?

 

Já estava cansado. E eu também. Porque pensar dá trabalho. Então, eu dei!

 

 


Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

chorar

 

tudo tem um fim

 

lágrimas com raízes

 

 

 

 

Nestes últimos tempos tenho-me sentido uma árvore que chora. Um tronco afogado em desencantos. Folhas que escorrem lágrimas ensanguentadas. Ramos contorcidos pela dor. Raízes que vivenciam angústias e tristezas. Uma árvore que agita descontentamento e desconforto. Às vezes disfarça. As ramificações abafam prantos e lágrimas que caiem quando o vento sopra mais forte. É ela a descarregar a mal-estar das emoções e dos reflexos interiores.

 

Queixumes contidos para que não constem como indecências públicas. Particularmente, para não ultrajar os sorrisos. As gargalhadas. Para evitar meneios estúpidos e rebolados. Compressões convulsivas com lágrimas e mucosidades dispensáveis. E são pacotes e pacotes de lenços de papel desbastados. Assoadelas grotescas e soantes. Gritos de raiva. De impossibilidades indignadas.

 

A vida é mesmo macabra, confirmo. Imaginar mundos cruéis lá fora para quê, se os tenho aqui? Se os avisto ali? Quero lá saber se o mundo está coberto de formigas e se o Mar Morto está vivo, mas não têm vida e o sal é um excesso! Os motivos do meu choro são meus. E quando choro não penso no mar. Quando choro as lágrimas brotam de dentro. Do fundo de mim. E é por isso que levo as mãos à cabeça na vã tentativa de esconder o rosto que chora também. Sempre que lhe apetecer.

 

Hoje chorei. Gargalhei e alegrei-me. Há muito que não lacrimejava com tanto gosto. Foram lágrimas sem dor. Mas de amor, de cumplicidade. Do enorme prazer que advém quando se admiram olhos brilhantes de regozijo e orgulho. Acabou o ciclo. Cumpriu-se a missão. E recordam-se momentos.

 

Hoje partilhei sucessos. Juro que tenho a barriga cheia de êxitos. Meus. Pessoais porque deles também. Sobretudo deles que foram fantásticos. E nos afectos que trocámos. Fizemos tudo a que tínhamos direito. E tudo é tudo, ponto final. Excelente e Muito Bom! Apenas Bom. Outras vezes suficiente. Algumas Não Satisfaz? Seguramente, mas não acredito.

 

E que importância tem se, hoje, pudemos exibir as nossas lágrimas de vaidade? Hoje, chorei sorrindo. São estas lágrimas que alimentam as minhas raízes...por isso, ainda não secaram.

 

 

Nota - Vou ter saudades de uns quantos. Porém, é dela que mais me vou lembrar. Porque sim! Da minha admirável A.R.G. esmurrada brutalmente pela vida…E do sorriso dela e dos poemas que ela escrevia. Depois lia e chorávamos as duas. E os outros choravam também…

 

 fotografia de Paola


Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

palavra de aluno

 

p  Hoje apetece-me subir ao monte e explicar ao céu que a terra não é redonda. Que os rios não correm para o mar. Que o Sado navega ao contrário. E não disse nada a ninguém. Que amanhã é já hoje. Que ontem é passado. Que as raivas se abraçam todos os dias. E finge-se a paz. Que o meu nome não é o meu nome. Porque odeio possessivos. Que o vento é apenas o vento. Não sabe o que faz, o tonto. Que os poetas são enganosos. Eles roubam-me as palavras. Aquelas que eu quero, e sei, para narrar emoções. Ocultam-nas para que eu não as arruíne com admiração e amor. E entoam sentimentos mascarados de engano. Disfarçam-se e querem que eu finja também. Inventam situações para camuflar as palavras, os poetas. Jogam um jogo que não sei jogar. E as palavras escondem-se e mostram-se e calam-se e comunicam e dizem-nos. Os poetas sabem o léxico todo. Sinónimos e contrários. E querem mais. Inventam palavras que emudecem as minhas. O mago da palavra burila-a. Como se fosse de cristal. Tira-lhe a luz. Extrai-lhe as impurezas. Cura-lhe os males. Copia-lhe a beleza. O poeta lança as sortes. Invoca os deuses e as forças da natureza.

 

No monte, oiço a musa do poeta. Que escreve poemas. Ao som da lira...

 

O meu gáudio advém do facto de eles se traírem. Baralham o esconder com o mostrar. Só para que eu perca o jogo. E me desnorteie na discórdia de sentidos. E brincam comigo para me deslumbrar. No desacordo de opiniões. Na subjectividade dos olhares. O poeta baralha o que quer mostrar escondendo. O poeta trabalha o mostrar e o baralhar para não ter que dizer o que quer esconder.

 

Mas não posso! Não sei trepar.

 

 

Nota - Hoje, os meus alunos viram assim os poetas. Este texto é quase só deles…

 

 

(imagem de www.aleac.ac.gov.br/.../stories/poesia_25.jpg )

Estou: admirada

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
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