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ponto de admiração

ponto de admiração

14
Jun22

A propósito de... (A Raridade das Coisas Banais, Pedro chagas Freitas)

Paola

Começa-se a ler um livro e pronto. A gente fica agarrada ao dito. Que dependência! Nem sei a razão. Porque sim. Ou nada. Ou porque o autor anuncia bem a coisa. Pode ter sido uma palavra. Uma frase. Talvez o título. A capa. Não sei ou já me esqueci. Nem preciso saber, certo?

Colei-me às páginas. Devorei frases, capítulos. E as personagens foram envelhecendo à minha frente. Tantos tropeços e tantos rios nos olhos. Gargalhadas e lágrimas de chorar. Outras de rir. Mas vivem comigo, como se fossem gente. Se calhar até são. Eu é que não as conhecia antes. Vou andando com elas assim. Para as conhecer melhor. Tenho cá um palpite que isso nunca irá acontecer. Levo-as ao colo. Em abraços pesados. Até aos ossos é que sabem bem. Mesmo que se embargue a voz. Mesmo que não consiga fechar o livro ou que os olhos passem a ser água em abundância. Gostei tanto de as ter conhecido! O narrador é um chato. Deixo o aviso. Finge uma distância que não tem. Uma imparcialidade que não consegue. Deve ser por isso que está sempre a disfarçar ser outro. Enche-me de perguntas. O problema coloca-se, porque nem sempre tenho a resposta para lhe dar. Depois fico a pensar no assunto. Às vezes, no dia seguinte, ainda ando a cogitar no mesmo. E nem sempre gosto de festejar certas coisas. O autor nem se atreve a aparecer. Depois de expulsar o livro do útero, não o desejou mais. Diz que já não lhe pertence, que é do leitor. Que criancice, linda. Como se eles se pudessem separar. Eu acredito que os autores têm uma relação quase narcísica com os narradores. Espelham-se. Amam-se e odeiam-se. Querem-se tanto que, quando se desligam, choram. E grita o autor com o leitor, desenrasque-se que eu já fiz o que tinha a fazer. E continua a fazer, senhor autor.

E leio página a página com a mesma ganância com que roubava os caramelos que a minha avó trouxe de lá. Foi numa excursão, contava. E ria-se tanto que acabava sempre a chorar. O pior, ou melhor, não sei, é que eu acabava também a chorar. E ela afiançava que todos tinham comprado caramelos para adoçar os dias. E esperançávamos juntas. A minha avó está longe. Há muitos anos que não estou com ela, mas conversamos. Apesar da distância. O céu fica tão longe!

À minha frente, as personagens estatelam-se no chão ou no amor que, por vezes, é quase o mesmo. E a gente chora sem motivo ou por milhões deles. Confundimo-nos nas suas vidas. Percorremos os seus lugares. Agarramos as suas lágrimas como se fossem nossas. Na verdade, o que eu quero mesmo é entender que desgraça é aquela. Como vai tudo acabar. Resisto. Asseguro que, desta vez, não fui à última página. Não fui, mas custou-me um pouco. E se a narrativa for aberta? Vou ficar assim, sem saber nada? Não, não pode. E chego a pensar que me vou arreliar a sério com o narrador. Ou será com o autor? Eles mentem tão bem. Não a quero fechada. Que indefinição, a minha. Que teimosia a deles. Fecham a vida das personagens como se fecha um livro. Há casamentos e tudo. Para pior, bastam os funerais. Não gosto nada, declaro. Isso força-me a pensar no meu. Depois de morrer, quero lá eu saber. Vou para o céu e pronto. Não volto mais. Ignoro se as personagens morrem de morte desgraçada ou porque se acaba o prazo. Isto de estar fora do prazo de validade é mesmo uma maçada. Leva-nos às lágrimas vezes sem conta. A vida tem termo certo, não tem? Ou será que a inspiração do autor também morreu? Como a minha avó que gostava de ir comprar caramelos. Talvez não tenha mais páginas em branco para escrever. É tão bom ter uma folha de papel em branco! Ou uma parede que é bem maior. Mas não dá jeito nenhum. Mas consegue-se sempre. Não sei se vou experimentar. O que é mesmo obrigatório é um lápis. Há lá coisa melhor para escrever! Será que o autor escreve com um lápis? Ou é daqueles muito modernos que registam tudo através do teclado? Não sabe o que perde. Nada como um lápis de carvão. E um rascunho, claro. Assim risca-se livremente. À medida da nossa vontade. Só que fica lá o que se escreveu. Às vezes, risco tudo.

No outro dia, vi um pato. Estava sozinho numa espécie de piscina, próximo do rio. O que é uma coisa rara, pois o pato costuma encontrar-se com a sua mulher ao lado. Amam-se tanto, os patos. Olhei-o e percebi que bastava uma única personagem para que a narrativa se contasse. E chegava aquele espaço. Para que a ação se aconchegasse. E penso se o narrador seria capaz se fingir. Ou se o autor se atreveria a esconder-se. Eles contam histórias um ao outro, eu sei. E choram muito, depois de se rirem tanto. Eu é que tenho alguma dificuldade em distingui-los. Mesmo que os seus corpos falem com letras e palavras e frases e parágrafos e emoções. Tantas perguntas. Exclamações e reticências. E depois querem que eu os separe. Há vezes que não consigo. Mais uma razão para ter gostado tanto de ter lido o livro. As outras, não digo. Perdi-me. Chorei. Aplaudi. E desatei a rir. Até sorri. Fui até ao fim com o narrador e o autor a meu lado. Os dois. Ou os dois são um. Não sei. Só conheço o narrador, conheço? Juro que é verdade. Estive com os dois. Ou não foi nada disto? Mas não se podem destruir os factos. As opiniões, vá que não vá.

Só se for por malvadez. Não se destroem os sonhos desta maneira. Eu não quero chorar mais. Às vezes choro. Outras, não. Tenho esse direito, certo? Existem banalidades boas. Acredito. E fazem tão bem. Amor, ao livro, ao leitor, também é isso. Estar no outro lado. Como se estivesse aqui. Pronto, eu agradeço ao autor. Mas deixem-me sossegada com o narrador. Com as mulheres dele. Com o amigo dele. Está bem? Porque “há coisas muito tristes mas perder a infância é certamente uma das piores, não acham?

03
Abr16

Desacerto [desabafo de uma galinha]

Paola

gal.jpg[Imagem da Internet]

 

  Quando vim ao mundo (ovo prodigioso) já ele cantarolava. Fui adolescendo e esse crescer quotidiano alicerçou-se numa distribuição de tudo. No espertar da manhã, no entusiasmo tão inquietante como arrebatado. Superior a relação que se estabeleceu entre nós.

Distinto galo! Jovial na forma, galeria de cores, galante no falar, gaiato nas notas de acordar. Todas as manhãs. Naturalmente. Poeta, também. Daqueles que veneram as palavras e as letras. Que verbalizam as sílabas delirantes de contentamento. Alheado de mundividências. Presente na emoção e na paixão que são a razão de eu permanecer aqui. No modo de dizer erva e estrelas-do-mar e terra e formiga e eu e tu e nós… tamanha sensibilidade! Enorme comoção. Com coisas simples. Com o desadormecer do Sol que se erguia para além dos montes. E chegava com flores. Papoilas. Rubras papoilas.

Triste galo. Enredado na teia do galinheiro. Destino a cumprir, calvário resignado, fado cantado pela manhã. Asas penadas que se derramam pelo galinheiro.

Amor amado, o nosso. Inveja da galinhada, claro. Tratados, crónicas, jornais, romances… Nada! Não houve notícia de amor assim. Na linguagem, na erudição.

Compreendem agora como fiquei? A que peso me entortei? Ao Amor. Traí propósitos e quebrei promessas. Apenas ambicionava ser uma galinha afortunada que rumorejava:

- Bom dia, Amor.

- Talvez um dia…

Embora um dia seja excessivamente tarde… e o muro muito alto. A capoeira é grande. O chão é plano. Sem ímpeto para saltar.

27
Mar16

Oportunidade

Paola

DSCN2900.JPG

passam as horas

esgotadas no relógio

passam os filmes

amarelados no ecrã

passam os pés

impacientes na calçada

passam as vozes

indolentes pelo rio

passam os dias

esfarrapados pelo tempo

passam as tempestades

insubmissas pelo céu

 

e eu fico

sentada na expetativa de mim

ou de ti

 

que passaste.

22
Ago15

Sardinheiras

Paola

O roxo alastra-se pela alegria do vinho num copo descansado no alabastro do dia. O jornal cai pelo chão amarrotado pelo deserto das notícias repisadas e os teus olhos perdem-se na contemplação do tempo que escorrega pela ladeira ornada de sardinheiras vermelhas. São flores sentadas nos postigos das velhas que se benzem e cantam rezas muito restritas e pendentes nos retratos alinhados em cima das cómodas. São memórias de sombras vagas que lhes definem confortos do luto dos vinhos.
E tu seguras as paredes nuas do quarto. Sentes a ausência das lágrimas. Pensas que a pele é insuficiente para absorver o líquido que escorre do copo. E sais. Lá fora estugas o passo. Enquanto eu arrumo os copos já esquecidos do momento. Apenas as sardinheiras exultam o esmero da cor.

 

(Fotografia da Internet)

21
Jul15

Gola de laço

Paola

 

289502283_739227073941256_2244048689452178918_n.jp

- Tens joanetes?
- Hum?
- Inflamação óssea do dedo grande do pé… calos… dores…
- Tenho! Tu sabes que tenho… No corpo todo. Na alma. Se calhar usei vestidos apertados. Desadequados. Ou saias. Talvez calças… As blusas às bolinhas. Lembras-te? Aquela que tinha uma gola que terminava num enorme laço. Tu gostavas. Ensinavas-me a dar os nós. A desfazê-los. Outras vezes a destruí-los. Fazíamos isso juntos. Tantas vezes. Depois prendíamos as nossas mãos em gestos lassos. Para terminar num beijo demolido. Agora não sei de ti. Desconhecemo-nos. Estranhamos os nossos olhos. Deixei de usar camisas com golas de laço. Nem uso sapatos aguçados. Porque me dói a alma. O corpo. A tarde que proibimos que entardecesse. Tenho! Tenho joanetes.

 

16
Jun15

Água do rio

Paola

Fred Fichet.jpg

Hoje, vou revelar-te um segredo. Não pretendo que cantes. Que rias ou que me digas que sabes onde fica o desejo. Porque não sabes! Tu nunca ouviste o rio a cantar. Nem te atreveste a socorrer a gaivota deitada na areia. No rio havia um bote. E no bote, umas mãos que me abrigavam dos ventos e das marés. Sobravam as gargalhadas que trepavam pela duna. Um sorriso que me vestia quando pulava para terra. Não sabias. Agora, não quero que o vulgarizes. Ninguém compreenderá que o rio corre ao contrário e que se derruba na foz como a mesma voracidade com que o tempo me rouba os momentos. Porque desconheces que eu sou água e ignoras o que é partir e ficar. A olhar o rio…

 

Escultura de Fred Fichet

13
Jun15

Memória

Paola

Melita.JPG

Penso em ti. Sem me inquietar como o meu corpo. É ele que se afasta de mim. Ficaram as nódoas de uma dor dividida. Até ao momento em que o Sol não dure até ao final do dia. E os pássaros tenham esquecido a letra da canção. A mesma que nos entendia de cor e trauteávamos junto ao rio… Como se abril fosse um porto de abrigo. No concreto de um abraço. Na agitação do beijo. Agora, eu anoiteço na suavidade das minhas memórias. Entre as estrelas e o céu. As papoilas e o vento, há raízes que se agarram ao chão.

 

 

Fotografia

 

 

09
Jun15

Vou em ti [do Tejo até ao Sado]

Paola

rio.jpgHoje, parto. Amanhã não. Eu vou em ti. Fiquemos assim. Que a hora seja de neblina densa e quente. E que eu me resuma ao que sei. Não existe o que está para além do meu saber. Por isso, larga as amarras e vamos. Que no ancoradouro pernoite quem desconhece o salgado e doce sabor do trajeto. E da natureza dos nossos corpos. Onde quer que seja.

 

(Foto de Rio-a-Dentro-Natureza)

07
Jun15

Quando termina a música

Paola

Modern_Dancers_3.jpg

 

- Até já…

Partiu no aprumo da decisão. Sempre a andar. Pensou em olhar para trás, mas continuou num ritmo tolhido pela música que ouviram na final da tarde. Quase noite. Quase nada. Depois de uma ilimitada dança a dois. Vestiram-se para expor disposições. Despiram-se. Na pele, ficaram tatuadas lentas coreografias. E todos os tipos de dança. Tombou uma lágrima. Calaram-se os aplausos.

- Adeus…

 

(Fotografia de david r tribble, Modern Dancers)

05
Jun15

Adeus

Paola

guarda chuva.jpg

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
[...]
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”
Fotografia de Páginas Em Poesia

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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