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ponto de admiração

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22
Jul08

peneirar

Paola

traições amigáveis

 

 as 3 peneiras

 

Ao passar pelo Revisitar a Educação  deparei-me com este texto de António Botto. O boato e a mentira não são invenções modernas, todos sabemos. Deve ter nascido no momento em que o Homem começou a ouvir. Depois a falar. Há muito que andam por aí, têm a mesma idade que nós. São males danados na vida da gente. Propagados por quem não tem nada para fazer. Também por quem os edifica na má fé. Na ingorância ou na vontade descontrolada e narcísica de afirmação. São bocas escancaradas convencidas que morder é próprio do cão. Existem mentirosos de todas as cores. Temos boateiros de todos os sabores. Que os há, há.

 

Etimologicamente, o grego allegoría significa “dizer o outro”, “dizer alguma coisa diferente do sentido literal”. Talvez não seja o caso. Não há sentidos ocultos. Interpretações hermenêuticas. Se uma alegoria é aquilo que representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma inferência moral, então este texto é uma alegoria. Ou quase.

 

Vale como exemplo.


O pequeno Raúl saiu da escola a correr, chegou a casa muito excitado e, depois de beijar a mãe, exclamou:
- Já sabes o que dizem do António?
- Espera um pouco, tem paciência. Antes de principiares, lembra-te das três peneiras…
- Mas quais peneiras, minha mãe?
- Sim; vais ouvir e saberás. A primeira chama-se verdade. Tens a certeza de que é certo o que me queres dizer?
- Não; se é certo, não sei.
- Vês?... E a segunda chama-se benevolência. Será benevolente, será boa, essa notícia?
- Não, minha mãe, não é boa.
- E a terceira chama-se necessidade. Será necessário repetires tudo isso que te contaram desse teu camarada e amigo?
- Não, minha mãe.
- Pois se não é necessário, nem benevolente, e talvez nem seja verdade, entendo que é preferível, meu filho, calares a tua boca.


In Os contos de António Botto (1942).

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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