Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

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imagem da Internet

 

Há dias danados. Tão estúpidos! É em dias assim que o aforismo  irrompe na boca da gente muito arrebatado. O melhor teria sido ficar em casa!!! De preferência, subordinada ao edredão. Na falta da areia e porque uma pessoa não é propriamente uma avestruz desconjuntada a correr que nem uma maluca.

 
Pois há! Só que fazem intervalo.
 
Hoje começou assim. Tão frio que o calor rareou até ao fim da tarde. Tão tarde que a luz se alumiava no interruptor. No meio de despedidas apressadas, ele olhou para mim e segredou-me uma confissão pouco meritória.
 
- Nunca tinha tido uma positiva… é o meu melhor presente de Natal…
 
Há dias admiráveis. Num pequeno gesto, numa palavra, num olhar… E se é verdade que o Natal é quando um homem quiser, não é menos verdade que o dito depende mesmo da mulher… em qualquer local. Hoje foi ali!
 

 


Sábado, 13 de Dezembro de 2008

discursar

 

 saudades do Brasil em Portugal

 

 

Entrou na sala de aula com os pés desorientados pelo discurso a dizer. O rapaz carregava um sorriso refém do jeito de falar. Anunciava ausências e faltas. Sentia-se pobre de palavras. E o sotaque, professora? Magoavam-no chacotas e humilhações. A vida-madrasta continuava a açoitá-lo todos os dias de manhã. E pela calada da noite roubava-lhe o sono e empurrava-o para a rua. Às vezes, surgia-lhe, ao longe, uma imensidão azul que ele confundia com o céu. Um mar enorme e profundo. E nele via pedaços de esperança a boiar. Destroços de felicidade naufragados. Expectativas desertas e muitas mágoas à tona da água.

 
Sentou-se no lugar que é seu desde Setembro. Vi-lhe os olhos embaciados a escorrer medos pelo rosto apavorado. Adivinhei-lhe o corpo estilhaçado com fragmentos de pânico. E o sotaque, professora? O sotaque? Bom… O sotaque é seu. Confesso que gosto daquele barulhinho ritmado na personalidade da diferença. E, naquele instante, a minha opção bebeu o respeito pela voz do outro.  E começou o discurso…
 
Escolhi este poema porque sim. Foi escrito por Vinicius de Moraes, um poeta brasileiro que eu não conheci. No entanto, acredito que ele me conheça. Os poetas têm destas coisas. Desventram-nos a alma e roubam-nas as emoções. E o rapaz discursava com a certeza que o poeta sabia que ele existia. Contou as saudades e queixou-se do mar que roubava as ondas no lado de lá para as trazer para cá. Que fazia tudo em surdina, por isso não sabia quando ia regressar. Garantia que lhe faltava o cheiro quente da terra. O Sol bronzeado ao entardecer. E as coisas. Aqui apenas tinha o nome.
 
Os outros sorviam-lhe as palavras com sabor a coco fresco. Outras a ostras temperadas com sal e limão. O rapaz discorria sobre distâncias e disjunções. Lamentos e mínguas. Dores e ausências. Pobrezas e emigrações. Tudo num sotaque, quente e emocionado, com acordes de sanfona nordestina. E foi Vinicius de Moraes o poeta que escreveu poema que eu escolhi. A assistência não se conteve. E escaparam sorrisos e aplausos.
 
E eles sairam da sala convencidos que Vinicius de Moraes conhecia o colega. Que escreveu o poema para ele. Que o fez de propósito. Obrigada, professora, por querer o meu sotaque… E eu, que estive lá e ouvi, gratifiquei-me ali.

 


Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

ensacar

azeitoninhas

 

                          Paola

 

 

O léxico mostra-se nas palavras. Todas as que a nossa língua tem. E tem tantas que não caberiam num saco. E dessas, muitas são as minhas e as tuas também. Vocabulário rico ou pobre. Diversificado ou repetitivo. Parco, brada a Andreia. Gostou da palavra, que não constava do seu magro vocabulário, mas que descobriu num texto lido na aula.

 

Um saco enorme, dizia eu. Mas roto, afiançava o Miguel. O rapaz lá explicava que a bolsa do léxico necessitava de ter a boca aberta e as asas arredadas uma da outra. A surpresa instalou-se nos olhos de quem defendia a tese do saco fechado. Assim como os sacos para lixo em rolo, em alta e baixa densidade, resistentes e estanques. Práticos e fáceis de abrir. Impenetrável! Garantiam. O Miguel escutou. E afirmou ter a certeza que o saco lexical tem portas e janelas. Umas vezes fechadas outras entreabertas. Às vezes, mas raramente, fechadas. E o pobre do rapaz ia perdendo o fôlego com tanta oposição. Teimoso na sua certeza, enfrentou a multidão e perguntou se entrava alguma coisa para um saco atado. Não! Responderam de imediato. Aí está, concluía o pequeno, então o saco tem que estar aberto para que novas palavras possam entrar. Ah!!! Pois é. Entram os neologismos, os estrangeirismos… Ai, professora, tantos ismos. Atenção que os arcaísmos não saem. Ficam por lá… abandonados. E há quem troce deles, o que é coisa ruim.

Professora, conduto é um arcaísmo? Não! É aquilo que se come habitualmente com o pão... Eu sei, profesora! Mas é um arcaísmo ou não? É que a minha avó está sempre a falar no conduto, professora. Apenas para algumas pessoas... para outras não. Vamos falar de regionalismos, vamos? Mais um ismo!!!! Lá por mor disso falemos de popular!

 

E falámos. Só que não lhes contei das saudades que tenho de comer pão alentejano, do verdadeiro comprado na venda, sem conduto. Facto que punha a minha avó materna em alvoroço. Então, a rapariga não quer toicinho com o pão? Nem água-mel?
Ainda, hoje, me recordo como um naco de pão alentejano me fazia entoar lindas canções, garanto que Deus não me deu voz para cantar, e como o conduto não tinha importância nenhuma. Nem a minha avó se ralava com regionalismos ou popularismos linguísticos. O que ela queria era que eu fosse feliz. Que comesse muito. E que engordasse também.

 

Mas o que eu gosto mesmo é de pão com azeitonas. Que era o conduto preferido da minha avó materna. Tudo em alentejano. E lamento que os meninos de agora já não saibam o que é conduto. Falam em mortadela, fiambre, creme de chocolate, compotas, sem saber que  pão com manteiga não é uma opção saudável. 

 

Professora, então o saco das palavras tem que estar sempre aberto, não é?

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...