Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

haver

 Havia uma avenida que não era uma avenida. Faltava-lhe largura de gentes a voltear. Reflexos de néon e muito devaneio. Mas a avenida era uma avenida com laranjeiras na calçada. Laranjas acicatadas pelas intempéries. Moribundas ao Sol. De açúcares mortiços e caducos. O vento empurrava-as para o chão e os transeuntes pontapeavam-nas muito irritados. Sofriam as laranjas arrumadas na calçada da avenida. A avenida apenas o era pela toponímia ferrada na parede da sapataria da esquina. De quem desce, do lado direito. A avenida era avenida. Tinha, ao longo dos tempos, assumido importâncias na vila. Tudo acontecia ali. Ou nada, porque não acontecia nada na avenida. Somente passos para baixo e para cima. Andares estafados de corpos exaustos. Os olhos não viam nada. Sempre que desciam a avenida, faziam-no com pressa. Quando a subiam, galgavam passadas para casa.

 
Ele caminhava sempre à frente. Pelo gosto da dianteira. Pela agilidade. Talvez pela oculta ambição de subir a avenida sabendo-se imitado. Talvez predador ao contrário. E galgava as pedras da calçada numa movimentação demasiado veloz para indivíduos da sua espécie. Em silêncio. Sem olhares escusados. Só em frente. De vez em quando para trás. Certificava a perseguição. Era a vida que se propalava pela avenida.
 
Ela simulava-lhe os episódios desenhados na calçada da avenida. Com silêncios desobedientes. Os seus olhos opunham-se à condição de humilhação. Não tinha corpo, nem alma, de fiéis caninos ensaiados. Perseguia as passadas dele a ganir espumas desobedientes. Mas não falava, para que ele não a ouvisse. Havia dias assim. De nada porque atulhados e cansados de correrias sem fim. De silêncios amordaçados a gritar que não. Raivas e impossibilidades que a percorriam dos pés à cabeça. Por isso, subia a avenida submissa e acabrunhada. Como as laranjas que se espojavam no chão e que haviam perdido o sabor do laranjal que ainda ignoram.
 
Há dias assim. De tudo porque maltratados por um tempo que passa a correr pela avenida. Um tempo que escarnece do corpo a embranquecer. Zomba de agilidades desperdiçadas a subir a avenida com laranjeiras na calçada. E diz que é assim.
 
Há dias assim. Os pés sobem e descem a calçada, agrilhoados pela vontade de quem se declara luz. Ela sabia a mentira em que ele se enrolara. Ele é que não. Por isso, ele subia a avenida que era quase uma avenida. Ela descia.
 
Há dias assim. Dias em que tudo é normal. Dias em que não acontece nada de especial.
 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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