Segunda-feira, 1 de Junho de 2015

Pinheiro [no baloiço da memória]

pinheiro.jpg

Hoje é junho. E eu lembrei-me de agosto. Cálido e morno. Adormecido. Da cor da terra. Da areia que se bambeava debaixo dos pés. Da água morna e doce que corria no rio. No azul que se segurava na minha pele e que me recuso a despir. Exatamente porque não sou criança. Apenas elas conseguem libertar-se da roupa que vestem. E escolher novos modelos, novas cores. Sem arrependimentos, nem culpas.
Porque ser junho é que recordei de todos os meses do ano. Dezembro também estava lá. Carregado de frios e agasalhos. Com sabores adocicados e salpicados com canela que a minha avó trazia nos dedos. Nas mãos guardava a coragem do vento e os sabores de menina.
Porque é junho, fui buscar o pinheiro. Bravo. Alto, esguio e verde. Foi aí, num ramo robusto, que pendurei o balancé. Depois, balancei-me para cá e para lá. E, ainda hoje, adivinho o vento a acarinhar o meu corpo. O mesmo estonteamento. O mesmo tremor. Só que mais violento. Porque o pinheiro já não vive ali. Nem eu. Que já não sou a mesma que se balouçava à tardinha.

 

(Fotografia da Internet)


Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

enrodilhar

de António  Correia Silva

 

Os pés da minha avó peregrinavam afoitos pela areia. E sempre que desagradados, recusavam os chinelos. Todos os dias, pela manhã, se cumpria o ritual. A bilha, muito direitinha em cima da cabeça, imaginava-se divindade num andor de procissão. Na cabeça da minha avó poisava uma rodilha de trapos. Farrapos de restos. Panos de cores desmaiadas. Tecidos urdidos por mãos enroladas. Uma rodilha abençoada. Auréola protectora. E a bilha anichava-se nela. Às vezes, trazia um raminho de camarinha com perfume de mel. Ou de alecrim.

 

De lá para cá, o corpo dela não se enrodilhava na saia, por isso não tropeçava na areia. Leve, apesar de cansada. Ágil apesar dos barros cheios de água. Raramente o pote. Apenas na vida que a incitava a dançar. E ela pensava que a rodilha lhe amarrava a alma. E a fixava no areal. Para lhe sufocar desabafos e a impedir de chegar ao horizonte. No outro lado do Monte. Enrodilhou-se na ternura e numa rodilha de calor. Sem raiva, nem zanga. Sem se sentir ofendida. A vida é assim, acrescentava. Conformada. Sem parecer enrodilhar-se num equívoco. A rodilha era tão-somente um amparo.

 

A rodilha enrolou-se. Torceu-se cansada. Enroscou-se no tempo e partiu. Não quis ser pano vadio, embaraçado e torcido. Há uns tempos que se confundia com os mexericos que ouvia. E para não acabar os seus dias na condição de esfregão ou pano de limpeza, enrodilhou-se. Venceu com argumentação e partiu.

 

Dizia que certos trapos só a queriam enganar. Planeavam ser rodilha de decoração. Ou argola de guardanapos. E acrescentava que já não tinha idade para tantos enxovalhos. Que ninguém honrava a tradição. Nem havia respeito pela separação das águas. Que não estava aguentando. Achava-se bastante assarapantada. É que a minha avó era alentejana.

 

E eu, não sendo uma rodilha, não entendo que me queiram transformar em sogra para transportar cacos de barro encharcados em desarrumação .

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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