Terça-feira, 16 de Junho de 2015

Água do rio

Fred Fichet.jpg

Hoje, vou revelar-te um segredo. Não pretendo que cantes. Que rias ou que me digas que sabes onde fica o desejo. Porque não sabes! Tu nunca ouviste o rio a cantar. Nem te atreveste a socorrer a gaivota deitada na areia. No rio havia um bote. E no bote, umas mãos que me abrigavam dos ventos e das marés. Sobravam as gargalhadas que trepavam pela duna. Um sorriso que me vestia quando pulava para terra. Não sabias. Agora, não quero que o vulgarizes. Ninguém compreenderá que o rio corre ao contrário e que se derruba na foz como a mesma voracidade com que o tempo me rouba os momentos. Porque desconheces que eu sou água e ignoras o que é partir e ficar. A olhar o rio…

 

Escultura de Fred Fichet


Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012

Ponto de exclamação [prefiro a admiração]

[Foto de Pour les océans]

 

 

Confesso a relevância do ponto final e o gosto de ter um sempre pronto para usar. Há contextos que o exigem. Mas desgosto-lhe a prepotência. Os caprichos déspotas e eu não queria o fim de agosto. Fica-me a beleza rendilhada da admiração.

 

Admirável ponto de exclamação. Cumpre-se no fim das frases. Na dissemelhança dos outros. Distancia-se das letras para se albergar no coração. E, com as mãos, enrola afetos. Em cada esquina do corpo, acha o sublime sentido da surpresa, admiração ou exclamação. Despe a sorte das emoções. Multiplica os sentidos sem que se exponha nas palavras. Todas não chegam, tantas são demais. Galanteia as lágrimas. Descerra sorrisos. Segura os silêncios. Para perpetuar o olhar. É um sinal. E fica na minha memória a beleza rendilhada que o azul burilou a ponto de sol.

 

Oh, quão doces são as lembranças da minha meninice!




Domingo, 6 de Julho de 2008

marés de saudade

o mar está cheio de saudades

 

Porque o mar é azul. Imenso. Luminoso. É guerra e paz. Partida e chegada. Eu tenho a cabeça cheia de mar. E muito azul. Viagens que fiz mais as que inventei. O mar tem barcos. E barquinhos de papel. De jornal com notícias de naufrágios. De lustro com muitas cores brilhantes. Aprendi na escola. Nunca enjoei. Não tem apartamentos rurísticos. O meu mar diz-se em marés de saudade. De memórias que se cumpriram num espectáculo sempre igual e sempre renovado: o Mar. De amar! De mar ao luar. Com Léo Ferré...


Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

à janela - por causa dos robalos / parte IV

b  Contava e ria-se.  Uma história gasta no tempo e recontada quase sempre ao serão. Tinha sido o único que ousara entrar em territórios que não eram os seus. Perigosos. Um corpo de  serpente, negro, acinzentado. A boca de lábios grossos escondia fileiras de dentes esfomeados e insaciáveis. Um safio quase congro escondia-se na fenda rochosa que ele descobria. O medo cedia à adrenalina gerada pelo desafio. Os outros fugiram. E ria-se. Os seus olhos azuis sorriam, emanavam um brilho com gosto a vitória.  Enfiou o braço no buraco. Assim, às escuras. Apostava na coragem, na determinação. Na insensatez, também. Quando se é jovem o sangue corre com celeridade. O bicho estava lá e mordeu-lhe. Defendeu-se. Danado! Mas apanhei-o. Um congro! Enorme. Feroz. Garantia que não sabia como ainda tinha os dedos todos ou mesmo a mão. Quem sabe o braço. Mas tinha! A descrição hiperbolizava-se num tom quase épico. Nunca lhe percebi a dimensão. Nem me interessa. Um safio com vontade de ser congro ou um congro que um dia foi safio... Nem me interessa.

 

E remava. Num rio azul. Num céu azul. Com uns olhos azuis. Sorriu de novo quando avistou a praia. O bote entrou pela areia. Ele saltou para a água. Colocou o balde em terra. Uma terra segura que substituíra o mar. Depois deu-me a mão.

 

- Salta.

 

E eu saltei.

 

- Lava as feridas...

 

E eu lavei. Mergulhei na água azul de um rio azul. Com sabor a mar. Como se fosse uma grandiosa pia baptismal. De novo me baptizei. E renasci do alto, pela água purificadora do meu rio. Que não é Jordão, já que não havia arrependimento em mim. O sal roçava as feridas e roubava-lhes o sangue. Cicatrizava-as. O meu pai empurrou o bote para a água. Fixou-o com a fateixa e deixou-o ali. Ancorado! Agarrado a uma âncora. Para que não se desorientasse. Para que não fosse sozinho à pesca. E o bote permaneceu ali ao sabor das vontades do rio.

 

- Deve haver lume.

- Para quê?

- Para os robalos.

- Pois é!

 

E foi! Assados em lume ateado pela minha avó...

 

Hoje, na minha cabeça, há alguns brinquedos vencidos. Bonecas, poucas. Uma máquina de costura e um bote que ninguém salvou. Só porque não podiam, presumo. Nem sempre as âncoras são panaceia para males incuráveis.

 

Hoje, na minha cabeça, tenho um bote que cessou de navegar. Que naufragou. E um pai que foi com ele. Ambos sabiam a rio. Um rio que se enleou com o mar. E o cerúleo céu pintou-se com ébano. Um desenho sonoro embaciado. Uma fotografia com sabor a naufrágio.

 

E no céu azul repetiu-se um brado carregado de profunda mágoa.

 

- Salvem-me!

- Não posso...

 

E ninguém os salvou... não sabiam.

 

 

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape Fotografia de Jorge Soares


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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