Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

fazer [bonecas com tiras de amor]

 

Sinto saudades de uma época que que já não tenho. De vez em quando, lembro-me. Sem saber se são memórias que trepam pelo tempo. Ou ofertas de episódios que se perderam na efemeridade dos dias. Se são primaveris momentos de saudade. Ou meras circunstâncias que descem em meu auxílio. Não sei. Mas juro que os tive. Que os comi com o mesmo deleite com que me enrolo em mim. Garanto que foram meus. Não me poderia lembrar do que não tive, penso num franco e generoso sorriso que chega até lá.

Naquele tempo, sobravam meias rotas, passajadas e gastas. Outras, escorriam malhas. Danos irreparáveis. Era com as meias que sobravam que a minha mãe me enchia de alegres brincadeiras. Das suas mãos, saíam, normalmente ao serão, bonecas maravilhosas. Depois vestia-as. Penteava-as e eu brincava com elas num orgulho desmedido. As bonecas da minha infância foram feitas de trapos. Tiras de amor e linhas de ternura.

Um dia, não me lembro exatamente qual, surgiu lá em casa uma boneca nova. Orgulhosa. Com um olhar distinto. Lembro-me do exagero da sua boca escarlate. Recordo a inquietação com que recebi o presente. Corri para a rua, gritei, saltei. Tenho uma vaga ideia dessas hipérboles infantis. Passado o instante, isolei-me com o meu recente brinquedo, uma boneca que não era de trapos.

Debaixo da figueira, aquela que generosamente dava figos moscatéis, defini o território. Uma casa desenhada na terra. O quarto e a cama. A boneca adormeceu. E eu olhava-o com um profundo instinto maternal. Embalava-a e cantava para ela cantigas de adormecer. Não tenho a noção do tempo que estive assim. Nem sequer sei se lhe doei um nome. Tenho pena de não a poder tratar pelo nome… Havia a boca! Tão vermelha! Era a boca que dificultava a nossa relação. Dava-lhe um ar de boneca crescida que não me agradava.

Subitamente, começou a chover. Uma chuva que tombava numa verticalidade severa e assustadora. Peguei nela ao colo e corri para casa. Foi um trajeto de ziguezagues que fiz em pouco mais de cinco minutos. Chovia intensamente. Pancadas torrenciais que provocavam medos na minha cabeça e na dela. E eu corria. Entrei em casa escorrendo gotas de desalento. Gotas de brincadeiras atrapalhadas. E lamentei a sorte.

A boneca estava desfeita. As suas feições tinham-se alterado sem que eu percebesse. Recordo um buraco enorme na face. E chorei a desgraça. Ela estava doente, moribunda, acabada, semimorta.

Não tiveste cuidado. As bonecas de papelão não podem apanhar chuva. Fiquei agastada, humilhada com a informação. E eu sabia lá que o raio da boneca era de papelão? Papel ou qualquer material do mesmo género? E o banho? Eu já lhe tinha dito que tomaria banho comigo e ela concordara…

É por tudo isto que, ainda hoje, prefiro as bonecas de trapos que a minha mãe fazia para mim. Conhecia-as bem. Nunca me passou pela cabeça dar-lhes banho, afianço. É por causa delas que tenho saudades das mãos da minha mãe. Mais resistentes às tempestades. E do jeito que ela tinha para lhes compor o olhar...


 


Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

correr

 

d

à janela - devaneios à chuva

 

 

Corri desenfreada para a rua. O meu corpo franzino não comportava tanta alegria. Uma boneca de papelão! Até então, eu só tivera uma de trapos. A rua era, apesar de tudo, o meu brinquedo favorito. Dava-me tudo o que a minha fantasia prescrevia.

 

Na mão levava um pedaço de giz, furtado na escola no preciso instante em que a professora enfiava uma colher de óleo de fígado de bacalhau pelas goelas da Rita. Na escola primária havia a terrível hora do fígado do peixe, liquido e sem aromas. Uma tortura que não entendia. Nas pernas a determinação de percorrer os sossegos instalados por ali. Não tinha ninguém por perto. Só no lado de lá da elevação de terreno que estremava as terras de semeadura. Uma espécie de fronteira natural que se intrometia entre mim e os outros. E isso afigurava-se muito distante. Tão longe que acreditava que ali não habitava mais ninguém. A minha rua estava aquém de qualquer intromissão humana. A minha liberdade gritava-se na totalidade. Na rua, eu edificava castelos com coberturas de serapilheira e paredes de tremocilha, com flores amarelas. Transformava velhos cacos em pratos de porcelana. Todavia, a minha boneca era de papelão.

 

Hoje, não. A boneca nova afastava-me de qualquer outra brincadeira. Excepto com as minhas admiráveis árvores. Afago-as. Converso com elas. Empoleiro-me nos seus troncos. Mimo-as com carinhos e elas retribuem-me com frutos, com sombra, com beleza. Lembro-me da cerejeira que, antes de me oferecer a carne dos seus frutos, me brindou com o esplendor das suas flores. Apesar de efémeras, tenho tempo para ouvi-las a cantar. Deito-me no chão, bem encostadinha ao tronco, fecho os olhos e espero um pouquinho. As melodias sucedem-se numa fantástica rapsódia de música tradicional japonesa. E eu canto e bailo com elas, vestida e perfumada pelas pétalas de flor de cerejeira. Ao fundo, a uns escassos metros do local onde estou, uma ginjeira exercita expressões de escárnio e de maldizer. Dirige-se-me uma tentativa de agressão verbal. Uma sátira indirecta, uma enxurrada de duplos sentidos. Não lhe oiço o meu nome, mas não duvido que esteja a olhar para mim. Os ciúmes toldam-lhe a razão. Não entende que as cerejas são mais doces.

 

Levantei-me, despedi-me da cerejeira e prometi-lhe que voltava. Que lhe queria muito. Que a sua beleza era alucinante.

 

A minha debutante boneca... A promessa de partilhar com ela as minhas árvores, começava a cumprir-se. Temia que a minha mãe fechasse a porta do jardim. Ou que ele próprio as fechasse. Era assim, quando as horas de comer apareciam transformadas em deveres sentados à mesa, ela afiançava que a rua ia fechar. E eu acreditava. Um jogo só nosso. Eu assumia que sim, ela confirmava o embuste. As mães sabem brincadeiras espirituosas. Sempre que eu violava a implícita regra, coisa que raramente acontecia, o meu ausente pai era transformado em prenúncio de severa admoestação. Por princípio, acautelava zangas escusadas. Não valia a pena! Às queixas, ele aconselhava-a a nada temer, que eu era uma criança, que devia brincar, que por ali apenas existiam árvores. Pois, aí é que está! Refilava ela. E se a rapariga cai, interpelava antecipando danos partidos. A terra é fofa, concluía. Portanto, de nada me favorecia criar embaraços domésticos. O meu pai sempre me compreendeu, apesar de optar por frequentes silêncios e lhe bastar um encolher de ombros. A minha mãe ficava arreliada com ele. Tu estraga-la com mimos, é sempre o mesmo. Eu ia para a cama dormir à espera que o amanhã chegasse. A minha mãe deve ter-se esquecido do lanche…

 

Resolvi mostrar a figueira de figos pretos à minha boneca de papelão. Uma árvore redonda, frondosa, média na altura, generosa nos frutos. Feminina. Única na sua espécie de figos pretos. Melosos. Especiais. Carnudos. Gulosos. O encanto da figueira reside mesmo no fruto. Árvore estranha. Feia quando despedia. Egoísta. Não aceito que encubra as flores. Que não as partilhe. Dissimula-as nos frutos. Só pode ser por amor. Ou por vergonha. Não quer que as cerejeiras a vejam. Despida é feia. Acorda desgrenhada no caule tortuoso. A casca cinzenta e lisa é pele de cetáceo. Os ramos frágeis são pernadas de miséria. Sobram os figos que não são pretos, antes roxos. A boneca não entendia a conversa. Eu, propositadamente, não lhe permiti nome. Boneca servia. É que não havia outra. Prometi-lhe que um dia a levaria junto dos figos moscatéis.

No chão de erva pintada de verde-macio esperávamos que os figos amadurecessem. A minha mãe não me chamou e eu adormeci. Cheirava a terra fresca, a azedas, a papoilas, a tronco de figueiras, a figos verdes combinados com os maduros. A Boneca não sei se dormiu, nem nunca saberei. Despertei atarantada. Por momentos esqueci o lugar e os eventos daquela tarde. Ao meu corpo chegavam pingos de água matizados de verde. Reflexos das folhas da figueira. Cada gota passava por mim e desfazia-se no chão. Os pingos engrossados... intensos. Onomatopeias vermelhas. Sentia-me perto do fim e com um aperto no coração. A Boneca era de papelão. Depois da chuva veio o vento. Corri com ela nos braços. Aos poucos senti que o seu corpo se ia convertendo em nada. O vestidinho com florinhas cor-de-rosa era, cada vez mais, um farrapo encharcado. A Boneca ensopada. Boneca desfeita.

Entrei em casa, chamei pela minha mãe. Dei-lhe um beijinho e ela barafustou comigo. Que eu já deveria estar em casa, que a chuva não tardava - e há tanto que chovia -, que ia contar tudo ao meu pai.

 

- Mãe, a Boneca amoleceu e desfez-se... Morreu!

 

 

 

 

 

 

- As bonecas não morrem...Tens fome, não tens? Que tal uma sopinha quente?

 

 

 

 

Eu fingi que sim. Ela fingiu também. Amanhã, não vou aos figos. – Garanti. Depois, fui para a cama. Amanhã terei mais um dia para percorrer ociosamente.

 

 

 

- De bonecas não gosto muito, mas à chuva insisto em querer. Hoje, se eu fosse criança hoje? Não sei se queria...

 

 

 


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Estou: admirada

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

à janela - devaneios de bonecas

d O medronhal acordou repentinamente. Sobressaltado. Os medronheiros espreguiçavam-se em movimentos cadenciados. As folhas, uma ou outra, deslizavam lentamente. Acabavam no chão a trautear trovas ao vento. Um soalho negro. Fresco e macio. Um tapete matizado de castanhos, de verdes e alguns amarelados. Aqui e ali, o vermelho-agonizante dos medronhos que não susteve o vento. Repito esta palavra por não conhecer letras para escrever outra. Pronunciei-a vento e soube-me a vento. Não sei outra.

Uma terra fertilizada pela sombra das grandes árvores. Uma terra que eu tinha nas minhas mãos porque a remexia na ânsia de encontrar isco para as ratoeiras. Formigas com asas, agudes para uns agúdias para outros, e uns bichinhos amarelos que se enroscavam numa vã tentativa de escapar, cujo nome já não me lembro. A memória é selectiva. Prefiro recordar os pássaros e os tais bichinhos sem nenhuma ligação entre si. Foi um vício horrendo que perdi no dia em que capturei um pisco vivo. Tratei dele numa gaiola que não tinha o cheiro húmido daquela terra. Não resistiu e eu derramei lágrimas de arrependimento. Nas ratoeiras nunca mais lhes mexi. A partir daí, apenas me tenho cruzado com aquelas que a vida arruma no meu caminho.  

Uma terra, dizia eu, leve e solta. Cheirava a cogumelos silvestres. De todos os tamanhos. Com chapéu e lâminas cor violeta. Sem chapéu. Sem dúvida que preferia os Boletus aereus. Pela combinação de cores, pelo chapéu castanho-escuro, pelo pé castanho. Será por isso que os cogumelos dos livros usam quase sempre chapéu? Bem cedo aprendi a destrinçar os bons dos maus. Por sobrevivência. Por hábito. Todavia aqueles cogumelos eram carrascos de ninguém! Protegiam-se, só isso.

O grito que nos despertou ainda planava no ar. Uma contínua propagação sonora. Os piscos romperam a perenidade das folhas e abalaram. Os pardais insistiram na permanência, unicamente mudaram de medronheiro. As poupas, não as voltei a ver. Os medronhos teimaram em não continuar a amadurecer. Esperaram por mim. Eles sabiam que eu voltaria. Eu voltava sempre. A perturbação de silêncios assentou e doeu. As páginas escritas com caligrafias enternecidas, nas tardes que ali passava, acabavam de ser lidas por alguém que nunca as compreenderia. Por uma questão de linguagem. A minha, a dos pássaros e a dos medronheiros. Dos medronhos também. E dos piscos que trauteavam sublimes melodias.

 

 

- Já vou! Gritei de modo a ser escutada no lado de lá. Não queria intromissões.

 

 

 

A minha mãe persistiu no chamamento. Afinal, eram horas de lanchar. Convenhamos que a merenda vinha mesmo a calhar. Mas permaneci zangada durante algum tempo. Não era justo, resmungava eu, suspender sossegos. Cumplicidades e silêncios. Lanchei no mais profundo mutismo. De tal maneira, que a mãe resolveu compensar-me pelos danos provocados. Tinha uma surpresa para mim. Explicou que tinha dúvidas quanto ao momento da oferta, que não sabia se o deveria fazer. Eu persisti taciturna. Pensei que ela me estava a enganar, a corromper, com falsas promessas. Às vezes as mães têm destas coisas. Fantásticas, as nossas mães. Admiráveis, mesmo quando nos intrujam.

 

Levantou-se da cadeira em que se sentara. Olhou para mim, como quem olha para uma das maravilhas do mundo, e pronunciou qualquer coisa que não entendi. Eu continuava furiosa por ter sido compelida a deixar o medronhal. No exacto momento em que tinha apanhado uma formiga com asas. Uma dávida que tinha sobrado para mim.

Regressou com uma caixa de papelão. Grande. Muito grande, mesmo. Colocou-a calmamente no chão, devagarinho, numa dança mesclada de prazer, desejo e encantamento. Nos seus olhos destapei uma luz mais radiosa do que o usual.

 

 

- Vem ver. É para ti…

 

 

 

Eu fui, apesar de estupidamente despeitada. E vi o que sempre julguei impossível ver. O que acreditava impossível existir ao cimo da terra. O que não sabia que vivia. Assim tão bela. Ali estava, só para mim, uma boneca. Do meu tamanho. Uma perspectiva hiperbólica a mostrar quanto a boneca era, de facto, grande. Uma mulher! A minha mãe já a tinha trajado com um vestido cor-de-rosa, com folhos na saia e com uma fita que se transformava num enorme laço na cintura. Um vestidinho às florzinhas, como ela fazia para mim.

 

A boneca que antes tivera era de trapos. Dos retalhos que sobravam da costura da minha mãe. Paulatinamente, olhei para ela e tomei conta da realidade. Era de papelão, só a cabeça rodava, pés e braços esticados, olhos pintados de azul, boca vermelha, duas pintas fingindo as narinas, cabelo castanho-escuro. Apesar da minha incredibilidade, sorri para ela.

 

 

Hoje, tenho a sensação de ter aberto uma gaveta, dentro de mim, e ter reinventado o seu conteúdo. E dos silos dos meus sossegos reapareceu a saudade.

 

 

 


(imagem de www.stigmas.blogger.com.br/boneca.jpg)

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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