Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

à janela - por causa dos robalos / parte I

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          Salvem-me! 

 

O sol anunciara a chegada do alvorecer. Com ele vieram os pardais. Sem pedido formal, caligrafado em folha azul de vinte e cinco linhas, entrou pela janela. Acariciou, primeiro. Beijou muito de mansinho. Amou ao amanhecer. Os seus raios luminosos afagaram rostos. Aqueceram os corpos. Aureolaram vidas.

 

Os braços espreguiçaram-se. As bocas murmuram sabores a café. Admirável! Da cafeteira azul-esmalte que aguardava ao lado dos tições ateados bem cedinho. Devagarinho, não fossem eles acordar. Uns após o outro, todos cessaram o sono. Nas camas, os lençóis, brancos alindados por rendas urdidas ao longo dos anos, declararam-se ao sol. Contavam-lhe os sonhos que a noite engrandeceu. Traidores! Nas camas de ferro. Brancas. Só uma era azul com maçanetas douradas. Todas as semanas eram limpas. O brilho fazia-se com jornais.

 

À mesa, na cozinha aquecida pelo lume que crepitava na chaminé, antecipava-se o almoço. Os planos estendiam-se em cima da toalha às flores, de acordo com o apetite de cada um. Era sempre assim, em Agosto. O resto ocorria ao intervalo do que não fora delineado. E tanto que acontecia nos instantes que remanesciam dos propósitos matinais. Ditosa terra. Venturoso rio. Ambos subiam ao cimo das vontades libertadas por nós. A qualquer momento, generosamente.

 

- Vou aos robalos.

- Vou contigo.

- Só vais empatar.

- Não vou!

- Teimosa!  

- Pois sou!  

 

E fui. Comigo ele cedia sempre. Descemos a duna com um balde na mão. Progredíamos em silêncio e sentimos o peso dos robalos. Na outra mão umas galochas de borracha. Altas, quase até às virilhas, por causa da água. No balde também seguiam umas sapatilhas estranhas. Um apoio em madeira de trinta ou quarenta centímetros, com uma alça de corda ou plástico, não me lembro com precisão. Uma coisa esquisita. Um artifício pesqueiro. Como uma chinela de verão. Uma base e uma só tira. Mas muito grande, a base. Uma invenção que coibia os pés de se atascarem no lodo. Garanto que não foi fácil. Andar com aquilo calçado correspondia a não saber andar. O que para mim constituía um retrocesso intolerável. Pés desorientados. Passos perdidos. Corpo desamparado. Ele tinha razão. Eu só empatava. Todavia nunca lho disse. Não fosse matutar que tinha razão. Mas fui!

 

Entrámos no bote. Pequenino. Naquele dia o seu percurso fora alterado. Ele era a ponte entre a praia e a traineira. Uma embarcação de pesca, principalmente de arrasto. As trainas, grandes redes para aprisionar sardinhas, deram-lhe o sobrenome. A traineira era presunçosa e corpulenta. Vestia-se de azul. Não descia ao areal. Por uma questão de hierarquia. Isso era trabalho de bote. Ela baloiçava-se beijada pelo vento. Acariciada pelas ondas. Entre o rio e o céu. Azuis como ela. E ele não se importava.

 

- Posso remar?

- Não sabes.

- Sei!

 

E remei. Ele esquecera-se que me havia ensinado. Tantas coisas que ele me ensinou! Algumas já não sei e tenho pena.

 

 

Page copy protected against web site content infringement by CopyscapeFotografias de Jorge Soares

Estou: admirada

à janela - por causa dos robalos / parte II

 r   O bote galgava metros de tranquila baixa-mar. O vento falava em voz baixa. Acariciava-nos os corpos. Não nos importávamos com a sua direcção, nem com a intenção, Aquele era bem intencionado. Somente uma brisa que voava por ali. Baixinho. No meio de tudo. No meio do nada. No silêncio do marulhar das ondas. Pequeninas. No meio do mundo pintado de azul. Com a maré baixa podiam-se ver os cabeços de areia e adivinhar os olhos de água. E ele explicava. Mostrava que conhecia o rio. Que o sabia de cor. Não lhe guardava rancor pelas traições experimentadas ao longo da vida. Ao sabor das marés.

 

- É acolá.

- Onde?

- Naquele banco de areia.

- Banco?

- Não sabes nada!

- Sei!

 

O rio estava adormecido. As águas tinham ido para o outro lado, talvez à procura de quem soubesse remar. O rio mostrava-se do avesso. Orgulhosamente despido de preconceitos. Pavimentos de areia. Chãos de lama. Poças de água. Lá dentro os peixes que, desatentos, não compreenderam o fluxo da maré. Permaneciam ali na expectativa que ela voltasse. Sabiam que voltaria. Ciclicamente. Um ciclo que dependia da Lua, do Sol e da Terra. Marés vivas e marés mortas. Eles sabiam. Preferiam as vivas. Tinham mais água para nadar.

 

- Despacha-te!

- Porquê?

- A maré vai encher…

- Eu sei!

 

Não sabia andar naquelas coisas. As sapatilhas tolhiam-me os movimentos. Usurpavam a minha autonomia de aprendiz de mareante. Ancoravam-me os pés. Ele corria de poça em poça. As suas mãos ágeis apanhavam peixes tramados pelo sobe e desce das águas. Um. E depois mais outro. As suas mãos sorriam de contentamento. As suas mãos arrastavam saber. E o prazer que ele tinha! Dei por mim a pensar que tinha sido intenção deliberada do rio. Deixar-se pescar por dentro. Por ele. Por isso, vazou.

 

- Mais um!

- Um quê?

- Um robalo!

- Eu sei!

 

As minhas pernas não o acompanhavam. Ele saltava de peixe em peixe. Transpunha todos os obstáculos gizados nas carapaças vazias dos berbigões e dos canivetes. Há quem lhe chame longueirão, mas ele não gostava. É, presumivelmente, o marisco que mais gosto a mar tem. Vive enterrado na vertical. Um aprumo de vidas sepultadas na areia. Costumávamos apanhá-los com sal, à mão. Depois, abriam-se, sobre uma chapa de metal, ao lume da rua. Comiam-se regados com sumo de limão. Dos limoeiros do quintal.E a cozinha cheirava e sabia a rio. E ele continuava a regozijar-se.

  

- Mais um!

- Um quê?

- Um xarroco!

- Eu sei!

  

E lá vinha a história do costume. Que o xarroco era um peixe feio. Predador medonho. Que apesar da "cara de poucos amigos" era fantástico. De todas as maneiras. Frito com arroz de tomate. De caldeirada também. Bicho danado, que se escondia na areia à espera que as presas passassem ao seu alcance. Comia-as num ápice. Também, com uma bocarra daquelas!

  

- Mais um!

- Um quê?

- Um choco!

- Eu sei!

 

Mais não! Antecipei-me. Pedi-lhe que explicasse tudo no dia seguinte. Já estava cansada de tanta cultura piscícola. E ele avançava como peixe na água…

 

 

 

 

Page copy protected against web site content infringement by CopyscapeFotografia de  Momentos e Olhares (Jorge Soares)

 

Estou: admirada

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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