Domingo, 3 de Maio de 2009

saudar [beijo na alma]

o meu olhar embaciado engole o meu choro de saudade

 

 

 

No mercado da vida, compram-se e vendem-se afectos por preços descompassados. Os meus não estão à venda... e o meu pregão é o grito com que nasci. O mesmo que jorrou na manhã em que te perdi...

 

Beijo na alma, mãe querida.

 

 

      

Maternidade (Di Cavalcanti)

 

 


Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

bruxulear

 

 

menino sem Natal

 

(imagem da Internet)

 
 
Deitou-se, pouco depois do jantar, sem que o sono tivesse chegado. Nem a menor advertência. As pálpebras não tiritavam ao ritmo de reflexos sonolentos e as suas grandíssimas pestanas negras calavam enleios enamorados. Arrumou-se na horizontal no cumprimento de disposições paternas.
 
A noite aconteceu muito cedo. É sempre assim no Inverno. Sobre a mesa-de-cabeceira, o candeeiro a petróleo atrevia-se a ser luz. A torcida subia e descia disposta a cooperar. A chaminé enfarruscada queixava-se de não ter sido limpa com o jornal, mesmo assim cumpria a sua condição. Devagarinho, emanava um bruxuleio amarelo-turvado. O quarto era pequeno porque a casa era pequena. A cama era mais pequena ainda. O frio de Dezembro corria friíssimo de parede a parede. Do chão ao tecto. E ele, por tanto tremer, refugiou-se no calor de dois cobertores às riscas. Largas, castanhas, amarelas, verdes e vermelhas. Em lã churra de ovelha. Pesadas e quentes como o Sol que, na sua cíclica obediência, se deitava mais cedo. Mas era aquela a luz que lhe permitia penetrar na pele das coisas. Por isso, descia o pavio e extinguia a chama.
 
E via a noite de estrelas cintilantes. Meninas e franzinas abraçadas à escuridão. Adivinhava-lhe intenções. Pedia-lhes mais esplendor. Exigia-lhes que denegrissem o cristal. Que não plagiassem o candeeiro que bruxuleava sempre antes de morrer. De entre todas, uma tinha mais esplendor. Subiu até ela e foi ver o Natal. Que não cabia numa casa tão pequena. E empoleirado na Cygni aproximou-se do Sol. Viajaram os dois, com o céu na ponta dos dedos. Ali! Acolá! Não, mais para aqui… Vamos! E foram… Descobriu brilhos ilusórios. Delírios refulgentes de luzinhas que tremeluziam na cidade. Correrias desvairadas alindadas com laços de metal. Encontrou gestos repetidos em juramentos de fé cumpridos no dia. Maltratados antes. Crucificados depois. Destapou hipocrisias que bruxuleavam rumores resolvidos a cumprir a tradição. Estranhou o brilho excessivo de luzeiros a iluminar. E boquiaberto pensava que tinha aterrado num céu a brincar. Mas depressa percebeu que se tinha enganado. Que no céu não há publicidade, nem centros comerciais.
 
E por tanto ver, acabou por adormecer. E sonhou que as estrelas do céu é que são autênticas. Bruxulear reside na circunstância de libertarem energia na tranquilidade do seu ser. Mas lamentou a cobiça do Sol que, por inveja, lhes perturba o brilho. Durante o dia, porque a noite há outro brilhar.
 
Enquanto dormia, segredava à estrelinha, que espreitava à janela, que era um menino afortunado. Tinha um candeeiro a petróleo humilde no seu cintilar. O pai e a mãe dormiam tranquilamente no quarto muito pequenino. De manhã, tomariam o pequeno-almoço juntos. Depois, brincaria com o papagaio de papel que o pai lhe fizera com um fio do tamanho dali até às estrelas. 
 
 
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Sábado, 21 de Junho de 2008

pelos mimos e abraços / parte II

Diz o Jorge Soares, preocupado com o que é o jantar, que eu  mereço este prémio... Bom, até pode ser verdade. Eu até gosto de mimos...

 

 

b

 

Obrigada!

Estou: admirada!

Domingo, 18 de Maio de 2008

pelo sábado - conversas na esplanada

vg Esplanda, Vicent van Gogh

 

O arroz-doce da dona Perpétua, o café, as compras. Pelo meio, conversas convertidas em confidências partilhadas. Há que falar mesmo que não nos queiram ouvir. Até quando nos querem calar. Inventam-se espaços alternativos. Qualquer espaço é bom para ensaiar, desculpa amiga, eu queria escrever para conversar.

Comi arroz-doce com canela. É que lhe concede um aroma intenso, um sabor quente, uma cor que eu amo e música de especiaria afrodisíaca. Produto admirável! Eficaz nas enfermidades digestivas; fantástica na derrota dos males de Inverno, linda na arte de decorar pires e travessas. No próximo sábado vou tornar a comer arroz-doce, só que com mais canela!

Depois disse raivas, angústias, desenganos, incompreensões. Conversas à mesa com o almoço. Encenações de vida, desempemhos de nós. Iludi o tempo que me sobrava para um encontro marcado. No theatron, lugar de onde se olha e eu estive lá, na plateia e vi.

No meu acto de ver, o teatro finge-se no texto. Alinda-se nas didascálias feitas cenários e gostos. Adorna-se no guarda-roupa e na cooperação. Completa-se na movimentação cénica e na partilha. Diz-se no discurso inventado no palco. Embeleza-se no corpo e na voz dos actores. Cumpre-se no instante em que se dá ao público.

O encenador morre logo que o pano abre. Quando tudo é palco. No fim ressuscita. Recebe flores. Partilha aplausos com a ilusão de ter representado também. E representou! A cumplicidade não se encena, diz-se em segredo. O palco é um espelho que nos devolve o que vê, o que ouve... emoções partilhadas numa esplanada.

O teatro mostra. No teatro estamos e somos. Entre a a realidade e a utopia. Entre a comédia e a tragédia. O teatro retrata-nos enquanto actores distraídos ou empenhados ou comprometidos, mas actores. Tão bons que não nos apercebemos como a vida é uma representação. Por vezes só com um acto, todavia com muitas cenas... assim como numa esplanada de um qualquer café onde se dramatizam conversas da tetra, diálogos de miséria, falas trocados, textos programados. E aí caiu a máscara do ladrão de quadros da existência humana. Um gatuno de identidades e de património universal, um larápio de uma língua que almeja restaurar a Torre de Babel.

No teatro, vi meninos e meninas a actuar livres de preconceitos. Vi sorrisos a testemunhar o prazer que experimentaram. Vi olhares cruzados na cumplicidade. Vi mãos a corar de entusiasmo. Não vi pernas a tremer, mas estavam lá, em palco. Não vi vontade de abandonar o proscénio. O palco é vida e actuar é viver um papel. Por isso, acredito que  ninguém queira sair de cena... nem eu!

O teatro é um terapia com gosto a canela. Por conseguinte, vou continuar a ir ao teatro, a comer arroz-doce ao sábado, a viver e a ter conversas na esplanada. Tudo com muita canela.

 

(inagem de  Memento)


Aparte - Para os meninos-actores, para a encenadora e para a dramaturga repito o carinho e pago o prazer que tive. Foram grandes!

Estou: admirada!

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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