Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

galopar

 sem tempo

 

 

Perguntei ao terceiro para onde estava a olhar. Não me respondeu, o sabido. Disse-me para o segundo questionar. Foi isso que fiz. Diz-me, que vês tu? Retorquiu em silêncio que nada tinha a declarar. Que o primeiro deveria interpelar. Por uma questão de hierarquia. Mais nada diria. Já agastada com a história, lá tornei a pedir. Descreve com detalhe o que estás a observar. E num suave relincho, o equídeo foi explicando que o tempo se estava a esfumar. Todavia, estás a olhar! Insisti. Sim. Mas olho e coisa nenhuma consigo agarrar. E tanto para galopar até chegar ao mar! Descobre tu o que estamos a contemplar. Desafiou o esplêndido quadrúpede. E os três continuaram a olhar.

 

 

Fotografia de João Palmela


Domingo, 17 de Agosto de 2008

galopar

 

nascimento do poldro serrano

 

Os cavalos a correr, as meninas a aprender,qual será a mais bonita

que se irá esconder?

 

 

E lá vamos todas a correr, feitas cavalos de corrida. Crinas ao alto. Olhos esbugalhados. Escondemo-nos. No buraco que chegou primeiro. Silêncios sustidos. E a brincadeira gargalha o achamento dos esconderijos sonolentos. Gritos de esconde-esconde chegam ao céu. Aparece, já te vi! A decepção de ter sido descoberta. Um, dois, Três! Vi-te Rosa. És tu a ficar! E ela esperava que as outras abalassem. Sem saber para onde. Segurava a boca e os olhos que não podiam ver os percursos escolhidos. Regras do jogo.

 

Vi-te na encosta verde da serra. Aproximei-me mansamente para não te amedrontar. Não queria que fugisses outra vez. O momento é desconcertante, a beleza também. E eu enrolo-me no mais absoluto silêncio. Apenas a música das árvores invade o esconderijo. A vida que brota de ti nasce num instante serpenteado de coragem. Contemplação pura. Ele aparece. Não ouço relinchos doridos. A natureza cumpre-se nos rituais da espécie. O tempo de expectativa não foi assinalado no relógio. Quinze minutos, vinte, trinta… E já ele ensaia os primeiros passos. Dificuldades e hesitações. Sucessos. Olha em seu redor e descobre a fome. E bebeu. E tu admiras-te, envaidecida, pelo milagre de o teres em ti.

 

Aparece! Já te procurei aqui e ali. Porém não vi. Não estás em casa. Nem na rua das laranjeiras agrestes. Aquela que acede ao adro da igreja. Não te vi na esplanada empoleirada no passeio. O jogo chegou ao fim. Mostra-te. Prometo que não emito pareceres. Não te descobri no quarto escuro. Não sou capaz. A noite desmontou ali e as estrelas não quiseram entrar. A lua agasalhou o luar. Um amuo brilhante. Vem! Revela-te sem teimosia e agastamentos. Leal e verdadeira. Dá-me a tua mão. Mas aparece! Sem a desconfiança do pânico. Apanhei-te! Isto é só um jogo e eu fecho os olhos. E o verde dança com o azul no sopé da serra. Ao som da música que sobe do rio. Movimentos delicados e deslumbrantes. Aparece! A passo ou trote. Mas divulga-te a galope. 

 

 

fotografia de João Palmela 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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