Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

mais nada [é a chuva que me devolve o tempo]

 

   Hoje, vou oferecer-te o meu suor gota a gota, para te lamber a pele. E ver o Sol. A Lua e as refulgentes estrelas num abraço profundo. Então, tudo fará sentido. Amarramos o tempo ao chão e inauguramos uma tempestade passageira. E bailamos os dois ao ritmo da fortuna enfileirada numa  doce melopeia.

   Agora, não me digas mais nada. Estou ocupada a ouvir a chuva a sorrir.



(Fotografia de Hugo Coares Pinto)


Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

estranhar [na passagem das nuvens augadas]

da internet
 
 
 

Ele estava ali. Na verdade, estranhei. Calado e amargurado. Bravio na agressividade que amansava com os dedos irritados pela insatisfação. De vez em quando, espreitava por cima dos exasperados pardais enxovalhados nos beirais dos telhados.

 

Ali, estava ele. Estupidamente sombrio. As nuvens. Uma a uma, ele as contava. E descontava-lhes as figuras depravadas que mostravam. Descobria-lhes assíncronas vontades. Nos olhos, destapei-lhe as arritmias lascivas que teimavam em ripostar.

 

Naquela tarde, eu tinha que o deixar descarregar nas nuvens. Permitir que as atingisse na loucura que ousavam. Nas indecências que escreviam. Assim, num bilhete ardente de cinzentos imprudentes. Comprazer-se na indecência de as esmurrar. Pela leviandade dos baixos vícios. Pela grosseria das fagulhas que troavam gemidos espavoridos. Tinha! Mesmo que, na extemporânea trovoada da perversão, as nuvens ficassem.

 

Naquela tarde, não deixei! As nuvens não tinham culpa de carregar projécteis impacientes por outros ventos. De não saber cair inteiras. E ele sangrou. Para não se magoar. E chegou lá com os pés no chão. Então, reparou nos pedacinhos de azul que esperavam um poema favorável. E sorriu. Com gentileza.

 

 


Terça-feira, 26 de Maio de 2009

arder [entre a verdade, a mentira e o impedimento]

 
 

Acordei destapada pelo Sol que entrara afoitamente pela janela. Que descuido, o meu! Assim, como se eu fora raios que ele desbaratara em criança… Não era! Nem sou!

 

O meu corpo desejou chuva. Ao menos, ela chorava a meu lado. Molhávamos as mágoas. Emergíamos das dores. Do alto. No aprumo de ser.

 

Subitamente, lembrei-me que não posso apressá-la. Ela cai quando quer cair. E tombar. Na genialidade de acontecer. Escorregar. Alcoolizado desejo de molhar. Tantos rostos! Muitos! Copiosamente…

 

E eu cheguei a acreditar que ela apenas molhava o meu… Só que nunca aconteceu. Cheguei a pensar que estava apaixonada, mas descobri que era apenas desejo. É que eu sinto pela chuva a mesma coisa que sinto pelo Sol...

 

[fotografia de Ricardo Silva]

 

 

 


Domingo, 10 de Maio de 2009

Assomar [Ai, quem me dera estar lá. E ficar!]

 

 

Em tempos, havia lá...

 
 
 
 

Ai, quem me dera correr para lá. E chegar! Depois, rebolava e ria à gargalhada. Calava-me. Para ouvir os piscos a voar. E invejar-lhes a beleza da cor. A magia da voz. A afinação dos trinados na frescura da tarde. Tão tarde! O domínio apenas existe no nevoeiro da minha visão. Sobram vulcões de urbanidade de alicerces construídos. Os piscos aborrecem-se com os rumores das betoneiras.

 

Ai, quem me dera estar lá. E ficar! Saltitava de flor em flor. Escolhia-as pela cor. Sentava-me. Por estranhar efemeridade. E  abençoar-lhes a fragrância. O apego do caule. A verdade do viço na quietude da manhã. Tão cedo! Agora, as pétalas de cetim perduram pobremente no tacto dos meus dedos. Permanecem chãos de papoilas que eu matizo, se me importuno. Eu aborreço-me com os alvoroços dos jardins.

 

E agora que não estou. Eu sei! Sempre que chovia, eram as papoilas que me abrigavam. Na fragilidade das varetas. No agasalho do pano que olhava para a chuva. Para lhe descobrir o destino. A água esquecia-me e dirigia-se abundantemente para a raiz. Sustento. Eu apenas a honrava. Hoje enalteço-a.  Nua no desassossego quente do Sol. Está escuro e eu olho para lá. E percebo porque tanto gosto da chuva… e de guarda-chuvas vermelhos.

 

[imagem da internet]

 

 

 

 


Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

chover [em maio]

 

que se fez em maio para maio estar assim?

 

 

 

Em Maio, a chuva cai verticalmente. Às vezes, por caprichos do vento, titubeia na obliquidade do caminho. Movendo-se na constância do traço…

 

Em Maio, a chuva murchou o seu sentir. Por isso, não sabe como tombar, receando a queda livre numa qualquer estrada horizontal… na incapacidade de orientar o número de lágrimas na inclinação do telhado…

 

Num simulacro de geometria, o esquadro risca novas rectas no espaço… A chuva já não sabe se pode chover em Maio

 

[imagem da internet]

 

 


Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

resmonear

da Internet
 
 
Ao mesmo tempo que o frio rasga a pele, a chuva lambe-me as feridas e a dor cala-se num grito que dói. Com paladar a beijos indiferentes ao ar enregelado que sopra com rudeza. São afectos do longe, lá de cima… Bátegas de sustento que chegam à raiz. Aguaceiros de pão abeiram-se das folhas decadentes que se cumprem ao ritmo do vento. Gotículas de subsistência entranham-se no sôfrego tronco e o arco-íris denuncia o roubo das cores com um sorriso complacente.
 
A chuva chega ao rio. O rio começa a correr e eu persigo a água na expectativa de semear frutos que me abalaram do ventre. Sento-me, devoluta, e espero. Espero tanto que o vento amansa e, mesmo ali, pinta um retrato que aprimora para mim. Quando olho para a água, são os olhos deles que refulgem na escuridão. Então, vou ficar à espera que eles desabrochem, continuadamente.
 
Já vai longo o dia. Chove normalmente. Amanhã, não sei se volta ao normal. Nem sequer percebo nada de normalidade. Amanhã é o dia que não se tem… é condicional, mas vou continuar a esperar como se fosse futuro.
 
Não vou resmonear contra a chuva que não tive... Hoje, sinto-a a bater obliquamente no meu rosto. Escorrega pelo casaco e os seus dedos fluidos suspendem-se na bainha encharcada. Dali, pulam para o chão… Não vou resmonear contra a generosidade do Inverno… Apenas o injurio... porque afoga a chuva no rio.
 

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

chover

da Internet

 

verdade cor d'água

 

 

Lá fora, a chuva chove miudinha. Ouço-a com o meu corpo inteiro. Sinto-lhe os afagos afeiçoados. Gosto dos beijos tranquilos com que orvalha as minhas mãos. Do enleio apaixonado fluindo pela avenida. Dissolvemo-nos num único bailado. Num só e apaixonado acto. Assim, de mão dada. Ela caminha a meu lado entoando ladainhas do provir. E é na verticalidade do seu cair que eu multiplico os meus afectos. Os beijos molhados autenticam o nosso amor.

 

E fecho os olhos... instala-se a incapacidade de dizer. E num implorado sossego, são os sonhos que vertem ruídos pelo alcatrão. As gotas dela são as minhas lágrimas que se confundem na ternura atrevida do seu olhar. Sinto-lhe o sabor na minha pele e os meus olhos mendigam desejos dissolvidos antes do nascer do Sol. Amo-te...

 

Oiço um caminhar apressado. Passadas largas dispersam-se na calçada à procura de espaço... Uns olhos verdes espreitam-me na obliquidade do chapéu-de-chuva. Sem dizer adeus, omitem o antes que choveu. Enlaço-me na verdade da chuva... aconchego-me no seu peito e danço com ela. Rodopiamos até de madrugada. Depois, esvaio-me em cansaços e adormeço esgotada. Desenrosco-me pela manhã.

 

A chuva cai... A chuva só pode cair de pé. Pela sua lealdade. Se não fosse, não tombaria assim. Venturosa água que me encharca a alma. Que lava o sangue espargido no chão... Seja chuva, assim na terra como no Céu!

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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