Sábado, 26 de Julho de 2008

poder

 não coma mais colesterol

 

 

 

Um sábado gostoso. Passado como quem saboreia os acepipes que, na mesa, alimentam a fome que se senta à espera de mais. Um menu de colesterol para quem come. E comemos todos. Esta história das refeições terem preços acessíveis e depois colocarem à frente dos nossos olhos ou da boca, o que é bem pior, aquelas coisas fantásticas não dá. Desde as azeitonas e manteiga ao queijo, do presunto à linguiça assada, morcela e outros que tais, torresmos ou gambas à la qualquer coisa, de preferência em francês que é para dar um tom distinto ao repasto, alheira de caça, presunto com melão e tudo o mais que nos passar pela cabeça, vale tudo neste jogo de sedução alimentar. E mais o vinho daqui e dali e também do estrangeiro. E depois? Encomenda-se o quê, quando já se comeu o que havia em cima da mesa? Nem valia a pena perguntar. Mas lá vem o empregado muito solícito, simpático e, na maioria das vezes, barrigudo e com bigode enrodilhado nas pontas. A encomenda faz-se no meio de estou cheio, já não posso mais e coisas assim. Todavia pode-se. E come-se e bebe-se e come-se. Muito bem. Tão bem que se volta na primeira oportunidade que surja. E recomenda-se. E eles também vão e comem. E recomendam. E voltam.

 

Portugal é um país onde se come bem. Sem dúvida. Portugal é um país onde a obesidade é um dos principais agentes de risco para o aumento de outras doenças que lesam a saúde. Hipertensão, diabetes, colesterol alto e acidentes vasculares cerebrais sucedem-se. A estatísca confirma a enfermidade. Portugal é culpado de estar doente. E continua a servir admiráveis iguarias à mesa da gente. É verdade que estes hábitos vêm de outros tempos. Logo com o nosso primeiro. D. Afonso Henriques era muito forte e alto, caso pouco comum na época. Obviamente devido a uma excelente alimentação. Só pode. Não é por acaso que as desavenças com a mãe deram no que deram. E o Capuchinho Vermelho? E a boca enorme do lobo que queria comer a menina? E os pitéus que a mãe colocara na cesta para a avó? Enfim, não há mesmo cura para esta gula colectiva. Este gostinho transmite-se por direito de sucessão. Nunca mais nos livramos do maldito do colesterol.

 

Por causa do colesterol, e porque gosto, prescindi das entradas. Comi muita salada, fruta e peixe. E bebi água, claro. Não vá o diabo tecê-las. Não me consta que o dito tenha morrido de ataque cardíaco.

 

E antes e depois e durante, passeámos palavras ao sabor do vento e do sol. E da fome. E deambulámos à beira-rio. Sentimos a brisa. O fresco. Espreitámos o horizonte. Entre nós e o Sol e as nuvens existia o ar! E rimos até as gargalhadas  atrapalharem as lágrimas. É que pela manhã não renunciámos à tigelinha de arroz-doce. Com canela. É só ao sábado…

 

 

(fotografia de Olhares, Fotografia Online)


Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

pescar

 

melhor vida para o coração

 

 

Pela boca morre o peixe. Pois morre e ainda bem. Gosto dele e não o comeria vivo. Agora que é uma chatice é. Não havia necessidade de um rifão popular para adubar a morte. Já basta saber que ela existe. E chega com eufemismos diletantes, por isso irritantes. Óbito, falecimento e término da vida não é tudo o mesmo? Ir para o céu é uma expressão danada. Então a gente morre e inicia uma viagem destas? É que o céu é longe. Se as agências funerárias já cobram uma quantia elevada só para o cemitério local, imagine-se para o céu. Bater a bota não gosto mesmo. Porque impossível, porque grotesca. Ninguém se lembra de comemorar a sua morte com uma batidinha de botas. A morte é tão lerda que não merece primores vocabulares. Tem o que merece. Cá para mim, até podia ser pior. Há que enxovalhá-la para que tenha vergonha naquela fuça hedionda.

 

O peixe até pode esticar o pernil que é como quem diz a barbatana. Ninguém o manda ser guloso e engolir o anzol. Coitado! Foi assim que o compuseram. Só acata as disposições da natureza. Por isso é peixe e não outro bicho qualquer. A morte também, só que mais horrenda. Prefiro a boca do peixe. Grande ou pequena tanto faz, desde que peixe. Não se pense que a humana boca não é dada a devorar ardis alimentares.

 

Terrível, a boca da gente. E é por estas e por outras que ando para aqui preocupada com a minha. Só porque não quero morrer com ela aberta. Não questiono se vou para o Céu ou para o Inferno. A minha metafísica é tão terrena! Quem cá ficar que decida para onde me quer enviar. E é por causa da minha boca que tenho a cabeça, pelos vistos o corpo, cheio de triglicerídeos. Uma palavra cuidada para nomear a destrambelhada da gordura que me circula no sangue.

 

De boca bem fechada, pasmo-me com a coisa. Saturadas e insaturadas. Mono e poli. Ómega 3 e ómega 6. Origem vegetal e origem animal. Enfim, uma parafernália de prefixos e sufixos. Gorduras boas e gorduras más. E eu sei escolher de palavras difíceis e conceitos tumultuosos e nocivos para o meu coração? Por isso, vou aboli-los do meu dicionário. Não as quero, não.

 

Prefiro a prelecção clara da médica que escreveu e escreveu numa folha de papel com muitas linhas e depois disse e disse. Também explicou. E murchou a minha vontade. Tudo aceitável. Tudo exequível. Mas limitar a minha gula queijeira ao despretensioso queijinho fresco é que não lhe perdoo. E os amanteigados, meu Deus?

 

Porque pela boca morre o peixe, até vou cumprir a deliberação. Contrariada. Mas vou. Pelo menos vou tentar. Pelo coração. Gosto de me admirar e de me desiludir.  De amar e de sentir. De chorar e de rir. Gargalhar com lágrimas. Preciso do coração, não é?

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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