Domingo, 15 de Março de 2009

contrariar

não sou capaz

 
 
O rapaz chegou cedo… mas atrasou-se na entrada. Entrou com os olhos apoquentados e o corpo denunciava o peso da lei. Preceitos que ele não entendia muito bem, por contrariarem a sua vontade. Passos demorados, passos serenos, cabeça para baixo de quem tem a determinação efectiva. E matutava sobre a proficuidade de uma prova de recuperação. Não entendia como ela o poderia recuperar, se ele nem se sentia doente. É um bonito moço. Alto, com aspecto saudável e pele sã. E muito menos entendia a obrigatoriedade do recobro e o intuito de andar tanta gente interessada no assunto. Bastava-lhe ir e vir, com um saquinho às costas. Coisa pouca, só para conter os haveres muito pessoais. Nada de livros, cadernos… não era capaz.
 
Na obediência da ordem, lá abriu um livro que não tinha. Há sempre gente boa. Mas não leu. E nunca disse que não sabia ou que se recusava. Apenas reafirmava que não era capaz. Não explicitou as razões. Porque não foi capaz. Não respondeu a qualquer pergunta, porque não foi capaz. Não fez a prova, porque não foi capaz
 
E eu estou para aqui a pensar que a vontade não se decreta… que tenho de ser capaz de forjar relatos muitos … Eu que discordo de leis imperiais! Ora, se o determinismo é uma teoria confirmada, o rapaz agiu em condição. Nem merece punição. E o jovem lá permaneceu na maior desvontade de fazer tudo, incapaz de entender os condicionalismos da liberdade de escolher.
 
[imagem da internet]
 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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