Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

saber

[quando não sei de que falo, calo-me. E olho para lá...]

 

 

Não sei do que falo. Não sei conversar de todas as verdades em que paro. Perco-me e não vejo a minha. Por vezes, tento explicar mentiras. Caio no momento em que encontro outras mais.

 

Não sei de que falo. Na verdade, não consigo comentar o luar. E como a Lua se enfeitiça pelo mar. Não sei de que falo, quando me calo diante da beleza daquela roseira que enfeitava a paciência da minha mãe. E ela nunca lhe entendeu a efemeridade.

 

Não sei de que falo. Minguo na elevação do requebro da gargalhada de uma criança. Emudeço a escutar o marulhar do mar. A acontecer. Não sei de que falo se, por acaso, me debruço no olhar.
 

Fala-me daquilo que eu não sei! Para que eu possa falar…Agora, não sei de que falo. Tão-pouco se quero falar.

 

Não sei de que falo. E depois? Não importa… Desvendo-me dentro do silêncio com que as palavras me protegem. Ah! Eu sei o que é. No entanto, não sei explicar.

 

 


Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

despintar

[Passeios ao domingo]

 

 

 

Aos domingos, dava passeios pela avenida principal. Alindava-se para os ver passar, invejando-lhes a agilidade. Até a ganância do primeiro beijo. Beijo doce. Salgado. Perfumado com odores de laranja. A turbulência das mãos na brandura do olhar. Mãos de seda que buscavam o Sol, nas vísceras do tempo. Na impermanência do querer.

 

Do lado de cima, tudo lhe parecia muito do mesmo. Na monotonia dos gestos. Na incontinência dos compromissos. Nos zunidos distantes da música. Do lado das raízes, nada se rebanhava na semelhança repetida aos domingos à tarde, na calçada. Tão diferente do lado de lá!

 

Já conhecia os seus passeios. Em tempos, contara-lhes as pedras, distinguindo as brancas das pretas. Mas havia as cinzentas. Turvas. Turbulentas e indecentemente indecisas. Embriagadas. Dessas, nunca entendera a cor.

 

fotografia de Jorge Soares

 

 


Segunda-feira, 23 de Março de 2009

des-formar

http://i192.photobucket.com/albums/z259/lightmylife/voar-1.jpgo acto de alterar 

de filha a mãe e ao contrário

 

 

 A Maria era uma menina. Um daqueles seres que transportava o mar nos olhos e a paz no coração. O corpo servia-lhe para saltar de pedrinha em pedrinha, depois de mergulhar nas águas do ribeiro da sua infância.

 

Naquele dia, Maria acordara cedo. A manhã acontecera no chilreio dos pardais que, sorrateiramente, se desagalhavam  dos beirais. Há tanto que a menina a esperava nas suas redacções primaveris! Apesar da ortografia, a Primavera chegou na alvura da manhã.

 

Maria levantou-se apressadamente. Tomou o pequeno-almoço despachadamente. E preparou-se para sair sorrateiramente… Não queria acordar os pais. Não por eles, mas por ela. Mal levantou os olhos da mesa, gritou. Tanta foi a perturbação que se ouviu no rio. À sua frente duas crianças disputavam o lugar à janela... empurravam-se… batiam-se… mordiam palavras encarniçadas… Maria ordenou-lhes que se calassem. Mostrou-lhes a imbecilidade do comportamento. Ameaçou-as com o chinelo. Com o quarto sem televisão. E estranhou-se… mais se desconheceu no exacto instante em que as desassossegadas criaturas lhe obedeceram… No vidro da cristaleira, viu-se mulher. Por isso, tornou a bradar. Uivou uma alcateia desvairada, na melhor imitação que alguém já conhecera. Embasbacada. Estarrecida. Aturdida. Beliscou-se, flagelou-se, lavou a cara, esfregou os olhos, saltou, pisou-se, engasgou-se com palavras do recreio da escola...Tinha-se, de facto, transfigurado numa mãe-mulher. Com dois filhos para cuidar, exactamente aqueles que a amamentaram. E não sabia a explicar a transformação!

 

Maria entristeceu repentinamente. Acabara de prometer a si própria que seria eternamente criança…  abraçar a vida com linhas rectas de abraços.Tudo mudara. E agora? Maria não encontrava respostas, até porque as deixou de procurar. Não fosse a morte encontrar, por tanto a desejar…

 

Maria estava aterrorizada e tão triste, a triste. Adulta? Assim, de um momento para o outro? Como foi possível? Não ouviu a resposta. Morreu de desilusão. Houve quem garantisse que não. E falava-se  numa enorme perda de ilusão.

   

 

[imagem da internet]


Sábado, 15 de Novembro de 2008

cambalhotar

 de  @LIX

 

 

 

 

 

 

 

O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! Num tapete sem fim. Daqui até ao vento. E que, quando lá chegasse, ele me ensinasse a voar e a cambalhotar. Para eu continuar a rodopiar. Tal e qual como se o mundo fosse uma enorme bola de goma-elástica. Colorida e muito divertida. Que me fizesse acreditar o que o meu corpo me obriga esquecer. Que posso saltar com uma perna, correr, nadar, esticar-me ao comprido. Deitar-me no chão. Num tapete vermelho que fingia comigo. E os dois, de mão dada, deslizávamos por aí. Porque a cambalhota é uma volta que se dá de cabeça para baixo. Uma reviravolta. Um trambolhão. Queda, não.

 
O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! Imitar corpos acrobatas. Dançarinos genuínos. Cambalhotas de irrealidades e mais tarde recordar os temporais vencidos no tapete a fugir. Na ausência de astúcias radicais, quedar-me pelas cambalhotas linguísticas. Como os políticos que se entretêm na mudança da convicção. Que cambalhotam sentimentos. Que na face da lei invertem sortes e fados.
 
O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! Ser pedra arrastada  por águas luzentes e cristalinas no leito do rio. Sem ousar pensar que a chávena não pode voar. Porque só tem uma asa. E quando a perdeu, estatelou-se no chão. Em pedaços apartados e descompostos.
 
O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! De fúria e de fraqueza. De Sol morno. De vento fresco dado a cíclicas mutações. Como sopra, o tresloucado! Na sua ansiedade de resfolegar, nem repara que já despi os trajos de Verão.

 

Quando se tem ilusões, e o Sol teima em queimar enganos, o Inverno é uma pirueta com sabor. Como o arroz-doce da dona Perpétua. E é ali que vou iniciar cambalhotas de gargalhar. Fraternas cambalhotas vocabulares. As palavras não capotam, dão cambalhotas, duplo mortal encarpado. E geralmente caem de pé.
 

O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas!  E voar ao contrário.

 


Sábado, 1 de Novembro de 2008

encortiçar

fotografia de João Palmela

 

o sabor da cortiça

 

 

 

A cortiça é uma especialidade portuguesa. A jóia da coroa, numa terra debilitada e muito encortiçada. Ou foi, ou ainda é, e eu nem dei pela transformação. Vive-se um tempo de materiais novos. Mais sofisticados e muito inventados. A cortiça é humilde e autêntica. A cidade é postiça. Enrola-se em gostos catalogados. Espreita os escaparates e depois opta pelo estranho. É por isso que vai ao estrangeiro e aproveita modas de lá. Agora, diz-se pele de excelsa beleza e qualidade. Produz-se e perjura as origens.
 
A cortiça dá-se a quase tudo. Num espectáculo polissémico grandioso. No entanto, continuo a preferir o cortiço da minha avó. Porque genuíno e tinha muitas abelhas. E lembro-me da extremosa senhora, preocupada com o meu descanso nocturno, a perguntar-me se não seriam horas de ir para o cortiço. E eu ia. Até ao alvoroço da refeição da manhã. O pão, o mel, a água-mel… e o café. Ficou-me o aroma e a algazarra matinal. Do paladar já não me lembro. Adulterei-o industrialmente. E o pão que retirava de um enorme saco de pano. Admirável, mas cabeçudo. Alentejano. Fresco, porque o outro ninguém comia. Tinha a consistência da cortiça! E eu, que nunca provara o cortiço estranhava a relação. O pão encortiçado? Só acreditei porque a minha avó era entendida no assunto.
 
Hoje, escrevo ressacada, com a língua encortiçada pela ausência de vontade, os olhos enfunados pela falta de sossego, as mãos a vacilarem pela fraqueza assumida, os pés magoados das fainas quotidianas, o olhar ensombrado pelo brilho pardacento de pressas mesquinhas, o pensamento travado por excessos pretendidos e não concretizados.
 
Não tenho ideias, não sei escrever. Estou encortiçada e, tal como a cortiça, gostava de ser exportada. Não me apete nada.  O dia rola fastidiosamente cinzento. E nada é pouco. Os sobreiros morrem de pé. E sempre que um arde, eu sinto-me mais pobre. Roubaram-me o sobreiro que me pegava ao colo. Baloiçava até o ritmo acalmar e todos os dias, pela manhã, chamava por mim. Até acabar...
 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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