Sábado, 18 de Outubro de 2008

combalir

  da Internet

 

No mundo há seres humanos. Um mundo colorido com as cores todas que o mundo tem. Com cantos e recantos. Tantos que nem sei quais. Eu tenho o meu cantinho. Às vezes, perco-me nele. Calcorreio caminhos. Trilhos e avenidas. Veredas e rotinas. No entanto, o que mais gosto é de subir ao monte. Fico mais próxima do céu. Conto as estrelas e afago a lua. Ao sol não faço nada. Ele tolda-me a visão. Ao rei presto vassalagem. O meu olhar vira-se para baixo e vislumbro o mar. Tão largo que banha o mundo inteiro. No monte eu posso reaprender a ouvir o canto dos pássaros. E redescobrir flores a desabrochar. Aceitar a dávida e lamentar a efemeridade da beleza. Da vida. Também, quem sabe, adivinhar o sorriso doce da criança que cresce como a flor. Sentir a força da amizade e o prazer da cumplicidade. Sentir o vento e gargalhar, antes que me congele o coração. Ou me emudeça a voz. É um sopro que desce da colina. Corre pela encosta e arrebata o ar em movimento. Desafia o frio e alguns calafrios. No monte, gozo de abrigo e digo que outros ventos virão. Que ao amanhecer, brisas suaves chegarão com contentamentos na mão. Ou não!

 

Na minha cidade o vento tem temores e faz o meu cabelo dançar. Agitação fria que não deixa ouvir os gemidos. São corpos enfermos que gritam dores silenciosas. Erros ortográficos que o vento gerou. Males vindos de longe ou daqui. Fragilidades copiadas dali. Promiscuidades terrenas. Cópias arrebatadoras. Progresso tirânico que não ouve o vento! E vulgariza as dores ao ignorar humanidades.

 

Na minha rua as pessoas têm rosto. Aqui o vento não desce pela colina. Trepa-a e fala crueldades. Geladas. São os ventos de hoje que semeiam fraquezas humanas. Combale e deprime. Porque o Mundo não goza de boa saúde. Está debilitado. E muito angustiado.

 

Na minha rua os riscos amarelos são amarelo-desbotado. E todos os dias há mais um… Eu detesto que risquem a minha rua deste modo. Fico muito combalida. E tenho para mim que a culpa não é do vento. Ele só assiste ao temporal. E Deus? Ele sabe que as crianças não desenham assim. São os adultos, Senhor!

 

Ao sábado não riscam a minha rua. Por isso, vou comer arroz-doce. Antes que a tracejem para mim.

 

 


Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

pelos médicos

m  Ouvi na RFM...

 

Hoje é dia nacional do médico. Dia consagrado a uma profissão admirável. Num calendário já sem tempo para lembretes, surge mais este. Acho mal que haja necessidade de lhes dedicar um dia. É mau sinal!  Não por eles, que os admiro. Antes pela nossa rica saúde.

 

Fico torturada. Não sou consumidora compulsiva de médicos. Desprezo medicamentos. Basta um mero analgésico colorido para me dominar. Abençoados, mas medonhos. Alguns provocam tomas incontroláveis. Abomino hospitais. As portas estão fechadas. As janelas não olham o mar. Mas o que eu odeio mesmo é estar doente. É tão enfadonho! Tão nostálgico. Deprimente. Humilhante, mesmo. Doença é privação. Doença é padecimento. É dor e dor dói. Logo é ruim.

 

Fico sem espírito. Mesmo que os achaques sejam na carne. Isto de perder a alma é mesmo uma grande maçada. É que a palavra espírito significa "respiração"! E quem é que consegue viver sem respirar? Eu não! Mesmo que esteja em causa o conjunto total das faculdades intelectuais. É o mesmo. Posso lá viver sem elas. Mesmo que acanhadas. São as minhas! E a minha alma é lusa. Acorda sempre  de manhã. E comove-me. Às vezes chora.

 

Fico sensível. Os sentimentos atropelam-se. Agudizam-se. Revelam-se. Claro que isso me agasta. Desculpa, estou doente… Passo o tempo todo nisto. Assim, como se o estar doente fosse da minha responsabilidade. O que me salva é o facto de perceber que os outros não têm culpa. Presumivelmente também se acham doentes. Só que não dizem. Disfarçam as dores. Calam os gemidos. E isso também dói!

 

Fico preguiçosa. E lá vem a história do bicho. Um mamífero estupendo, contudo preguiçoso. Bicho-preguiça… convenhamos que é um epíteto a raiar o impropério. Tudo por causa do metabolismo muito lento que lhe peia os movimentos. E qual é a sua responsabilidade na coisa? Nenhuma! Mas da fama ninguém o livra. Isso é certo. Deve ser por ciúme. É que o animal vive na copa de árvores de florestas tropicais e não vai ao médico queixar-se de stress, nem de “bullying”, nem de depressões no final de cada período lectivo. Porque nas árvores não há escolas públicas tremidas por tornados assimétricos e insanos e obsessivos. E têm sempre os genéricos! As árvores têm remédio para tudo. Natural e gratuitamente. Sem prescrições e instruções registadas em decretos-lei. São preguiçosos, mas felizes. Magnífica vida. Dormem catorze horas por dia. Não têm médico de família, bem-feita. Morrem e pronto. Nós também.

 

Fico doente. Uma dor aqui, outra acolá. Uma gripe. O pior mesmo é quando chegam as “ias” e os “omas”. São agressões à nossa própria natureza. Ocasionam graves distúrbios no nosso mundo interior. Afastam-nos de uma existência ajustada à realidade. Roem-nos o corpo e o espírito. Minam-nos as vontades. Desgastam-nos os sonhos. Complicam o futuro. Apagam as esperanças. Não gosto da bata. Sabe a escola, mas tolero o estetoscópio.

 

Fico transtornada. Estar doente não dá jeito nenhum. Qual é o artigo que escrevo para testemunhar a minha enfermidade? Telefono antes ou depois? Vou ou não vou? Sou capaz ou não sou? Volto ou não volto? Vou acabar na Biblioteca ou não vou? Chega! Isto de alimentar o corpo e a alma em simultâneo sai caro.

 

E querem que eu vá ao médico? Vou fazer como a Preguiça. Morro e pronto.

 

Nota - Antes do meu funeral, deixo aqui o meu agradecimento aos médicos que já me cuidaram. E aos que sorriram para mim. Mesmo quando o fim estava ali. Eu gosto deles, não vou é visitá-los.

 

 

(Fotografia da Internet)

Estou: admirada

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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