Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

sem algemas - aqui minto descaradamente

a  Aqui sou seu. Sem correntes, sem algemas, sem peias que lá fora me impõem. Aqui revelo-me como sou. Aqui dispo-me de circunstâncias conjunturais. Aqui sou apenas refém de mim. Aqui posso colorir a liberdade com as cores que eu sei de cor... Aqui digo sem medo de represálias. Aqui digo verdades. Aqui digo mentiras. Aqui finjo ambas.

 

Aqui minto descaradamente. Tudo é fictício, tudo é teatro. Na verdade, todos enganamos, todos mentimos. Máscaras e mais máscaras que se revezam entre a comédia e a tragédia. Nada as impede de percorrer ruas, cidades, países, o mundo. Jardins proibidos. Paraísos inventados. Vidas fingidas. Aqui, há que simular, há que aparentar. Tudo é hostil, tudo me irrita, tudo me afecta. Tudo amo. Tudo se constrói num imenso deserto mental do qual nem sempre soube, ou não quero, sair.

 

Aqui mostro-me transparente. Exponho a minha nudez aos vosso olhos. Aqui me oculto na opacidade do meu corpo. Aqui  exibo a minha pele translúcida. Aqui sou como sou. Ficção que a vida escreveu. Sou Menina e Moça que já fui; errei por Cidades e as Serras; sou Gente Singular. Sou Húmus, sou Clepsidra, sou Tanta Gente, Mariana... Perdi-me no Labirinto da Saudade e reencontrei-me no Vale da Paixão. Chorei quando O Principezinho me fez sobra, sorri ao ver a minha morte julgada na Barca do Inferno. Colhi A Maior Flor do Mundo, fiquei estupefacta perante a Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho. Irmano-me na sorte de Os Bichos e até sei Um Segredo sobre passarinhos... E porque a Demanda  se faz desejo de cor nunca vista, eu não Sobrei da História dos meus Pais, seguramente. Aqui posso partir à descoberta do Conto da Ilha Desconhecida saindo pela porta das decisões. Ou aguardar calmamente à porta dos obséquios. Aqui posso Falar Verdade a Mentir ...

 

Aqui, nem sempre sou eu! Aqui eu posso não ser eu, sendo eu! Eu cumpro-me no paradoxo de ser e não ser. Eu sou porque tu existes... Eu sou produto da evolução da minha espécie e espero que a selecção natural actue sobre mim e melhore a minha adaptação a um meio que fere e que dói.

 

Ignoro de quem descendo. Rezo para que não tenha em mim um réptil derrotado por um qualquer dinossauro.

 

Dinossauro tem feminino!Tem?

 

 

(Imagem de Alma Em Flor)

Estou: Admirada!

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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