Sexta-feira, 16 de Agosto de 2013

Chana é uma gata bonita. É guia de profissão

 

 

Num reino muito antigo, havia um castelo. No alto. Pela colina escorriam pedaços de histórias. Passados de homens destemidos que se perderam pelo mar. E partiram engalanados de vontades e segredos. Conta-se que o castelo era habitado por uma moira encantada. Jovem e de enorme beleza. Felinamente sedutora. Aparecia frequentemente pelo recinto do castelo. Cantando e penteando os seus reluzentes cabelos negros como os fiapos da noite com um pente de ouro. Nunca prometeu riquezas a quem a libertasse do encanto. Meiga. Tão doce. Apareceu junto ao rio e entrou no velho castelo de tesouros guardados em baús decorados com ferragens de tempo. Das diversas formas que podia assumir, optou por uma. E escolheu ser gata. Guardiã do local e dos visitantes. A população mais antiga declarou que a Chana nunca se separou do castelo. É lá que dormia a sesta. Todos os dias. Depois, espreguiçava enigmas e ensinava caminhos dentro das muralhas. Visitava as ruínas da antiga igreja matriz e as ruínas do palácio dos alcaides da vila. Espreitava as salinas e assegurava que a terra era uma flor de sal.

 

No castelo velho, a Chana é uma gata bonita. É guia de profissão. Consta que ali permanecerá eternamente, tecendo idas e vindas e miando maravilhosamente, encantando quem a ouve, qual donzela enfeitiçada.



Quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

Declínio do sol [erros de agosto]

 

 Gostava de me empenhar e poder fazer o que agosto ainda não deixou. Andar para trás para calar o relógio. Atirá-lo ao chão e dizer-lhe que bastava de ladrões do tempo. Saborear o perfume da terra e lamber o mar. Colher um ramo rubro de papoilas e enviá-lo para o céu. Tourear um touro e cair na arena sobre o bruaá silencioso das bocas desconhecidas que poisavam nas bancadas. Calar o ruido dos ruídos de tantas vozes difusas.

 

Apetecia-me apanhar sol na proa da traineira e ver o sol a cair e não o poder ajudar. Saltar para o rio e molhar-me de muito. Chegar à meta sem querer dizer o lugar. E falar para no meio das palavras chorar o silêncio num eloquente e enorme discurso. Poder fechar aqueles livros. Com o mesmo desejo com que um dia os folheei. Erguer-me na proa da mesma traineira azul e morrer descansadamente. Na elegância do azulado do rio.

 

Queria, agora que agosto já não deixa, desviar-me. Sem que me molestassem. Ou quisessem ver-me muito longe de mim.

 

 

[fotografia de Pour les océans]

 


Sábado, 1 de Agosto de 2009

descansar [no travesseiro dos dias]

 

 

... em Agosto tudo se inclina para baixo...

 

 


Domingo, 31 de Agosto de 2008

apregoar

  © Antero Valério

 

Agora que Agosto faz as malas e a Costa de Caparica está em obras, vejo as sombras do Verão. Oiço ondas de nostalgia e vejo marés de alcatrão.

 

- olha à boola de Berlim… a boooooooola!

- Senhor! Senhor...

 

E a cesta levantava um paninho branco que escondia delícias dali. Ouvi dizer que já não é a mesma coisa. Vem aí a ASAE. Ainda bem que a praia não tem portas. Ou tem? Taipais, tem? E muro? Não tem. Ou tem?

 

- Olha os bolos, olha a bola-de-berlim!

 

Controle-se a higiene. Pelos padrões todos. Mas não tirem um daqueles prazeres que, há muito, transporto no meu imaginário afectivo.

Não sei se há registo, todavia tenho curiosidade. Quantos casos de intoxicação com as fantásticas bolas compradas na areia da praia? Mais incidentes existirão com intoxicação política. Ou não? Há? Não, não há. E por favor, não enfiem as bolas em saquinhos deprimentes. É que perdem o sabor... Bolas!!

 

 


Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

caminhar

 pegadas de amizade

 

 oito alegres pés

 

 

 

Afeiçoados na vontade de caminhar, num dia de morno de Agosto, seis pés rumam ao Sul. Levam a vontade de abraçar o mês que vai acabar. E querem beijar o mar. E todos seis correm para o Sol. E andam, andam até lá chegar. Envolvem-se no amarelo e admiram-se com o azul. Surpreendem-se com o verde. E comentam que arrulhar rima com marulhar. E o mar espreguiça-se. E lá ao fundo, a cadência é marcada pela vastidão azul-mar. E correm atraídos pelos cânticos sem olhar para trás. Ouves? É o mar a desenhar poemas na areia. Pois é. O mar é um poeta, disseram dois. Um escultor, opinam os outros dois, olhando as obras cinzeladas ao longo de tempos de Inverno. E comentam que ali habita Orfeu. O mais prodigioso músico que já existiu. Poeta também. Por isso, as gaivotas poisam para o escutar.

 

Oito contentes pés foram espreitar o mar. Mais dois se juntaram. E todos os oito pés na areia dançaram. E Orfeu males sana cantando e tocando a sua lira de ouro. Músicas de espuma. Canções de areia. Ritmos do mar. E dois dos oito pés vão continuar a cantar. Porque nesta sinfonia da vida, oito são mais do que dois.

 

 [fotografia de Paola]

 


Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

abalar

     adeus Agosto

 

 

 

 

 

 

 

Irra! É mesmo preciso falar?

 

 

 

 

 

 

[fotografia de Paola] 

 

 

 

 

Caluda! É segunda-feira. Não vá Agosto acabar...


Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

galopar

 sem tempo

 

 

Perguntei ao terceiro para onde estava a olhar. Não me respondeu, o sabido. Disse-me para o segundo questionar. Foi isso que fiz. Diz-me, que vês tu? Retorquiu em silêncio que nada tinha a declarar. Que o primeiro deveria interpelar. Por uma questão de hierarquia. Mais nada diria. Já agastada com a história, lá tornei a pedir. Descreve com detalhe o que estás a observar. E num suave relincho, o equídeo foi explicando que o tempo se estava a esfumar. Todavia, estás a olhar! Insisti. Sim. Mas olho e coisa nenhuma consigo agarrar. E tanto para galopar até chegar ao mar! Descobre tu o que estamos a contemplar. Desafiou o esplêndido quadrúpede. E os três continuaram a olhar.

 

 

Fotografia de João Palmela


Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

aquecer

 

dia de coisa nenhuma

mês calado

 

Em Agosto o país está de férias. Abundâncias de Verão. O café da rua tem grades na janela. E procurar alternativas à rotina dá trabalho. A mercearia do Mário reabre mais tarde e encerra na última semana. E lá se vai o pão da manhã. Quente e estaladiço. A fruta também. A Elisabete da papelaria preferiu os Açores. A loja de informática não vende consumíveis porque os fornecedores estão de férias. O Centro de Saúde vai abrindo. Hoje o médico não veio. Está de férias. Mas veio outro. Para quê se a farmácia anuncia rotura de stock? A Maria não partilha conversas bisbilhoteiras na mesa do café, pela de manhã. Procurou a praia que não é aqui. A poluição sonora é um estorvo melhorado. Também os carros procuraram o ócio. E levaram ruídos e barulhos ensurdecedores. Motores alvoroçados desde a manhã. Buzinas nervosas a denunciar estacionamentos suprimidos. Ou acenos expansivos. O senhor Alfredo da padaria pegou na tenda e aferrolhou a porta. Levou o cão e disse que o melhor era fechar. Já escasseava o pão. Refilava exaltado que todos têm férias e que ele também é gente. E os autocarros circulam na rua com menos frenesim. E a São, que é cabeleireira, avermelha-se na República Dominicana. O matracar infernal das maquinarias na oficina das marquises e estores amansou. A rapaziada é jovem e está a adubar-se na praia. A Joana teve que ir à terra. Há que visitar a família. E Agosto dá-lhe tempo. É por tudo isto, que a minha rua se despiu do seu reboliço rotineiro. Um deserto sem oásis. As dunas são miragem e a areia está no outro lado. Do lado do Sol.

 

 

Agosto está de férias. Viajar é viajar. E ele aí vai. Descansar é descansar. E ele fica por aqui. Dormir é dormir. E ele acorda tarde. Aqui e ali. Agosto é preguiçoso. Mas não quer assumir que a preguiça faz bem. Não trabalha. Está de férias. Não pode. E não se lembra que só será gaiteiro, se for bonito o primeiro de Janeiro. Janeiro já lá vai. E estava um frio de estalar os ossos. Conversar é conversar. E ele não se cala ao café. O assunto é que escasseia. As palavras também.

 

Agosto só fala de férias. De praia com muito Sol. Por vezes, interrompe e traz para a conversa palavras campesinas. Conta viagens. Devolve saudações da família.

Finge-se jovem. E garante que o seu corpo é perfeito. Vangloria-se da sua pele dourada. E não conta a viagem que não fez. Confessa-se um viajante compulsivo. Percorre o mundo inteiro. Mas só escolhe locais com praia. E com sol. Depois regressa e lê no jornal que o endividamento das famílias aumentou. Que um novo recorde foi batido. E pergunta em que modalidade. Garante que tem estado atento aos Jogos Olímpicos e não deu por nada.

 

E debaixo do chapéu-de-sol da esplanada do café do senhor João, a Lena anunciava a sua sorte. Estava de férias. Por ser Agosto. Almoçava e jantava com os miúdos. E passeava com eles. E contava como eles se riram no Parque Infantil. Hoje, não faço nada. Juro! Reservei este dia para não fazer nada. E nada é nada. Durmo em casa e como no restaurante. Talvez nem coma! Os rapazes estão com a avó. Ele foi trabalhar. Que bom! Nada! Não farei nada. Só porque estou de férias e é Agosto. Vou jantar com uns amigos. Depois não tenho tempo.

 

E todas riram das palermices. Eu enunciei, em tom solene, que concordava em absoluto. As férias também servem para não fazer nada. Está iniciado o meu dia da mais buliçosa preguiça. Nada. E não faço nada. Não por ser Agosto. É mesmo porque não quero que Agosto mande em mim. Safa! Já basta Dezembro.

 

 fotografia de Paola


Sábado, 16 de Agosto de 2008

sossegar

desemprego em Agosto

 

sábado com nuvens e chuviscos

 

Perguntei ao tempo o motivo do seu pesar. Assim que olhou para mim desatou a chorar. E numa linguagem enrolada esboçou sorrisos ensolarados. Tímidos e muito pardacentos. Sem saber se podia confiar. Reclama que está tudo mal. Que assim não consegue. Que lhe estão a assolar a vida. O seu olhar contém nuvens cinzentas, com formas estranhas. Taciturnas e manhosas. E sublinha que as nuvens também são água. Pedi-lhe que sossegasse. Ele disse que sim. Sem, no entanto, deixar de alertar para males que acontecem aqui. Porque as nuvens divulgam-se velozes. A notícia espalha-se,  que o vento ajuda. E há sombras sobre Pequim.

 

Perguntei ao tempo a razão do seu sofrer. Não sabia. Sentia-se derrotado. Desequilibrado. Explica que os homens desarranjam tudo. Por isso, tão desconcertado. Acrescenta lamentos. Assume-se como não culpado. E que chuva em Agosto não é do seu agrado. De quando em vez o sol espreitava. Depois, escondia-se. 

 

Conheci-a quase menina. Depois, uma linda mulher. Sem nuvens. De olhar fresco-esverdeado e sorriso dourado. Nos livros lia histórias de viver e saber. Diplomou-se para que dúvidas não sobrassem. E foi para a escola ensinar os meninos a crescer. Andou por lá uns tempos. Que o tempo avançou desorientado. Hoje, num sábado desgovernado de Agosto via-a. O seu olhar é, agora, cinzento-escuro. Da cor do desemprego. Não tem meninos para ensinar que

 

Fortuna, enfim, co Amor se conjurou
contra mim, por que mais me magoasse;
Amor a um vão desejo me obrigou,
só para que a Fortuna mo negasse.
A este estado o tempo me achegou,
e nele quis que a vida se acabasse;
se há em mim acabar-se, que eu não creio;
que até da muita vida me receio.

 

Camões

 

porque o livro fechou . Agosto a empregou. Trinta dias de labuta. Tinta dias de mísero salário. Trinta dias a prazo. Faço as férias da dona da loja... depois não sei. E o seu sorriso amarelo-desbotado agradeceu ao tempo. Num bazar que vende coisas a um dinheiro e meio.

 

Eu fugi. Olhei para o céu e vi-o excessivamente nublado. Ele chorou, eu é que não. Mas não comi arroz-doce por causa dos pardos triglicéridos. Neste sábado de Agosto, o tempo estranha as razões do seu chorar. E estranhar é não compreender. Não aceitar. Não estar à espera de um insucesso previsto. Vais conseguir, miúda.

 

 fotografia de Paola


Sábado, 9 de Agosto de 2008

esquecer

vou a correr ver o pocoyo

 

sábado morno de Agosto

 

Sem surpresas e igual a si próprio, o sábado é um dia admirável. Porque ao sábado não acontece quase nada. Cumprem-se rotinas. Uma visita à família. Aos amigos. Banhos de sol e de mar numa praia atulhada de toalhas e pernas estendidas na areia. Compras em grandes superfícies comerciais. Têm quase tudo. E mais à mão que o tempo ao sábado não rende. Carregam-se sacos de plástico com asas para a cozinha. Limpa-se aqui, para sujar mais ali. E as crianças agitam-se porque vão visitar a avó. O relógio corre sempre ao sábado. Convencido que vai participar nos 100 metros barreiras. Os obstáculos aparecem constantemente. Nem sempre se consegue saltar. Mas um sábado em Agosto ainda é mais admirável. Emproado porque não vai trabalhar e ilude-se com o esplendor sol. E dá voltas e voltas ao mesmo sítio. E não vê o mar. E tão convencional!

 

Porque um sábado de Agosto é um dia esfarrapado de pessoas e de portas, não comi arroz-doce. Nem o aroma inebriante da canela. Apesar de gulodice fútil, eu gosto. Apesar dos triglicéridos eu como. Só ao sábado. O melhor mesmo é esquecer, por hoje.

 

Vou ver o filme do Pocoyo que comprei na feira. É divertido. E as borboletas sempre têm asas... mas falado em português!

 



Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...