Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

ensombrar

http://fotografiadejoaopalmela.blogs.sapo.pt  e os medos ganham sentido

 

A sociedade actual tem receio de si própria. Está prenhe de medos. Mas prepara-nos para os superar. Também nos defende e protege. No entanto treme. Porque o medo não é racional. Que seja por isso. Ou pelas armadilhas que ela própria instala. Com a vida que também é batoteira. Certas que o pânico é bem pior. O medo sobra-me…

O medo enregela a razão. Diz-lhe que não e o caricato sobrevém. Como se o susto não fosse temor. Há medos que se compreendem. Outros nem por isso. Não se entendem. E os que metem muito medo. A morte é um processo mais que natural e universal. Gera medos de várias cores. Não por partir, antes por não ficar. Não por abalar só, apenas porque se deixam pessoas que se estimam. Umas choram. Pensam que também irão e têm medo. Outras não. Recear uma formiga é risível. Porém real. O bicho trabalha que se farta e nunca pára quieto. Carreiro, carreirinho onde vais tão de mansinho? Temem que a comida falte e que não sejam notícia na televisão. Um tremor de terra assusta. Acordei com um barulho tremendo vindo do lado oposto ao meu quarto. A sala era a divisão da casa onde a minha mãe tinha um guarda-loiça. Com copos e chávenas. Também uma terrina e o resto. Duas dúzias de pratos. Ou mais. E canecas que a minha avó trazia, sempre que nos visitava. Assim como se fossem vidros gigantes a baterem uns nos outros. Depois, vieram os gritos, portas a abrirem-se. E num instante a rua celebrava um nível de assistência pouco usual. Um prime time da sismologia. Só percebemos depois. Primeiro assustámo-nos. A seguir veio o medo. Simultaneamente o pânico. Desta vez a coisa foi rápida. As consequências nem por isso.

O medo é assim, não se explica. Nem se diz com palavras escolhidas. Uma para cada um. Não chegam. O catálogo dos medos tem páginas infinitas. Mas há palavras que metem medo. Paz. Chama a guerra. Destroços. Por causa da maré negra. Dos acidentes rodoviários. Apartamentos. Há as barracas. E os vãos de escada. Amor. Carrega a separação. O divórcio de afectos. A perda de amados. A palavra vida que descaradamente apregoa a morte. Inverno porque apaga o Verão. Mar pois come os rios. Às vezes os barcos. E não tem cabelos para eu me agarrar. E trepar. Sombra é uma palavra ruim. Vultos e restos. São formas sem jeito. Descompostas. Negras. Não se desnudam. E à noite, ganham rostos hediondos.

Por isso, gosto das formas que a luz me permite ver. Nem que seja em contra-luz. Com muitos reflexos. E desvios esplêndidos. O belo é palavra má. O feio existe. O imperfeito. Mesmo que irracional. Mas  ecos da juventude e da velhice fotografam-se na minha memória. As fotografias não se questionam. Fixam instantes verdadeiros.

 

E hoje tive medo. Por causa de uma coisa que eu vi. Um vulto esbranquiçado que sobreveio ali. E  Pã ensina os outros deuses a tocar. Eles é que não prestam atenção...

 

 


Sábado, 31 de Maio de 2008

e as crianças, Senhor?

j  Só porque o arroz-doce é tradicional. Eu gosto de tradições. Mesmo que não as cumpra. Por preguiça. Por memórias. Por avessos e contrários em que elas se transformam. Na dona Perpétua, evidentemente. Ao sábado. Na habitual gulodice partilhada. E com ele. O Biel é um garoto feliz. Vê-se nos olhos! Nas mãos. Nos pés alegres e contentes que não se moem de tanto correr. De rir e de gritar. Rodas. Rodas de moinhos. Luzes. Olás. E Lidas. Muitas Lidas. Tanta azáfama. Tanto trabalho. Também ele comeu arroz-doce. E deu. Assim, com uma colher grande que enfiava na boca da avó. Sempre com consideração. Cada colherada é rematada com um “ É bom?”. E era! Mesmo na inversão de papéis. Mesmo na bodeguice dos grãos polvilhados com canela. Ele é um menino feliz. Vê-se nos olhos.

 

Mas há os predadores de crianças. Perversos. Calamidades. Vermes que não se enxergam. Escondem-se em subterrâneos pantanosos. Em carapaças cobardes e pútridas. Uns ineptos, uns párias. Prefiro as minhocas. Que não são prejudicais à saúde humana. E todos os dias são informação. E não os vemos! Mascaram-se. Saqueiam. Espoliam. Na blogosfera também. Ouço falar de ninhos de cobras. De charcos podres. E as crianças são nenúfares.

 

Um pouco de paciência, e de tempo, basta para entrar num mundo de sítios de pais babados. Orgulhosos das suas crias. Demasiados Blogs com fotografias infantis. Enlevo fotografado. Amor desnorteado pelo mundo. E eu não entendo o gesto. Para quê tanta fotografia de criança linda? Cada vez mais somos alertados para os perigos. E as nossas crianças correm na Internet. A sociedade é ruim!

 

Eu sei que a vida é madrasta. Que vivemos abraçados a perigos. Basta sair de casa. Ou não sair. Que a cobertura pode desmoronar-se na mesma. Eu sei.

 

Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...    

 

Augusto Gil

 

Pelo sim ou pelo não, acabei de comprar mais um álbum. Pequeno, feito de cartão canelado. A cor? Vermelho-criança, certamente. Com triângulos transparentes nos cantos. Cada página separada por folhas de papel vegetal. Não há-de ser qualquer sedução digital online que me obriga a renunciar ao tradicional álbum para fotografias. Assim como não deixarei de comer o tradicional arroz-doce.

 

Não por uma questão de verborreia saudosista. Antes por causa das crianças. Y los niños, caballeros? Los niños?

 

 

(imagem de www._doces_momentos_.blogger.com.br/menino.jpg)

 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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