Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

correr

 

d

à janela - devaneios à chuva

 

 

Corri desenfreada para a rua. O meu corpo franzino não comportava tanta alegria. Uma boneca de papelão! Até então, eu só tivera uma de trapos. A rua era, apesar de tudo, o meu brinquedo favorito. Dava-me tudo o que a minha fantasia prescrevia.

 

Na mão levava um pedaço de giz, furtado na escola no preciso instante em que a professora enfiava uma colher de óleo de fígado de bacalhau pelas goelas da Rita. Na escola primária havia a terrível hora do fígado do peixe, liquido e sem aromas. Uma tortura que não entendia. Nas pernas a determinação de percorrer os sossegos instalados por ali. Não tinha ninguém por perto. Só no lado de lá da elevação de terreno que estremava as terras de semeadura. Uma espécie de fronteira natural que se intrometia entre mim e os outros. E isso afigurava-se muito distante. Tão longe que acreditava que ali não habitava mais ninguém. A minha rua estava aquém de qualquer intromissão humana. A minha liberdade gritava-se na totalidade. Na rua, eu edificava castelos com coberturas de serapilheira e paredes de tremocilha, com flores amarelas. Transformava velhos cacos em pratos de porcelana. Todavia, a minha boneca era de papelão.

 

Hoje, não. A boneca nova afastava-me de qualquer outra brincadeira. Excepto com as minhas admiráveis árvores. Afago-as. Converso com elas. Empoleiro-me nos seus troncos. Mimo-as com carinhos e elas retribuem-me com frutos, com sombra, com beleza. Lembro-me da cerejeira que, antes de me oferecer a carne dos seus frutos, me brindou com o esplendor das suas flores. Apesar de efémeras, tenho tempo para ouvi-las a cantar. Deito-me no chão, bem encostadinha ao tronco, fecho os olhos e espero um pouquinho. As melodias sucedem-se numa fantástica rapsódia de música tradicional japonesa. E eu canto e bailo com elas, vestida e perfumada pelas pétalas de flor de cerejeira. Ao fundo, a uns escassos metros do local onde estou, uma ginjeira exercita expressões de escárnio e de maldizer. Dirige-se-me uma tentativa de agressão verbal. Uma sátira indirecta, uma enxurrada de duplos sentidos. Não lhe oiço o meu nome, mas não duvido que esteja a olhar para mim. Os ciúmes toldam-lhe a razão. Não entende que as cerejas são mais doces.

 

Levantei-me, despedi-me da cerejeira e prometi-lhe que voltava. Que lhe queria muito. Que a sua beleza era alucinante.

 

A minha debutante boneca... A promessa de partilhar com ela as minhas árvores, começava a cumprir-se. Temia que a minha mãe fechasse a porta do jardim. Ou que ele próprio as fechasse. Era assim, quando as horas de comer apareciam transformadas em deveres sentados à mesa, ela afiançava que a rua ia fechar. E eu acreditava. Um jogo só nosso. Eu assumia que sim, ela confirmava o embuste. As mães sabem brincadeiras espirituosas. Sempre que eu violava a implícita regra, coisa que raramente acontecia, o meu ausente pai era transformado em prenúncio de severa admoestação. Por princípio, acautelava zangas escusadas. Não valia a pena! Às queixas, ele aconselhava-a a nada temer, que eu era uma criança, que devia brincar, que por ali apenas existiam árvores. Pois, aí é que está! Refilava ela. E se a rapariga cai, interpelava antecipando danos partidos. A terra é fofa, concluía. Portanto, de nada me favorecia criar embaraços domésticos. O meu pai sempre me compreendeu, apesar de optar por frequentes silêncios e lhe bastar um encolher de ombros. A minha mãe ficava arreliada com ele. Tu estraga-la com mimos, é sempre o mesmo. Eu ia para a cama dormir à espera que o amanhã chegasse. A minha mãe deve ter-se esquecido do lanche…

 

Resolvi mostrar a figueira de figos pretos à minha boneca de papelão. Uma árvore redonda, frondosa, média na altura, generosa nos frutos. Feminina. Única na sua espécie de figos pretos. Melosos. Especiais. Carnudos. Gulosos. O encanto da figueira reside mesmo no fruto. Árvore estranha. Feia quando despedia. Egoísta. Não aceito que encubra as flores. Que não as partilhe. Dissimula-as nos frutos. Só pode ser por amor. Ou por vergonha. Não quer que as cerejeiras a vejam. Despida é feia. Acorda desgrenhada no caule tortuoso. A casca cinzenta e lisa é pele de cetáceo. Os ramos frágeis são pernadas de miséria. Sobram os figos que não são pretos, antes roxos. A boneca não entendia a conversa. Eu, propositadamente, não lhe permiti nome. Boneca servia. É que não havia outra. Prometi-lhe que um dia a levaria junto dos figos moscatéis.

No chão de erva pintada de verde-macio esperávamos que os figos amadurecessem. A minha mãe não me chamou e eu adormeci. Cheirava a terra fresca, a azedas, a papoilas, a tronco de figueiras, a figos verdes combinados com os maduros. A Boneca não sei se dormiu, nem nunca saberei. Despertei atarantada. Por momentos esqueci o lugar e os eventos daquela tarde. Ao meu corpo chegavam pingos de água matizados de verde. Reflexos das folhas da figueira. Cada gota passava por mim e desfazia-se no chão. Os pingos engrossados... intensos. Onomatopeias vermelhas. Sentia-me perto do fim e com um aperto no coração. A Boneca era de papelão. Depois da chuva veio o vento. Corri com ela nos braços. Aos poucos senti que o seu corpo se ia convertendo em nada. O vestidinho com florinhas cor-de-rosa era, cada vez mais, um farrapo encharcado. A Boneca ensopada. Boneca desfeita.

Entrei em casa, chamei pela minha mãe. Dei-lhe um beijinho e ela barafustou comigo. Que eu já deveria estar em casa, que a chuva não tardava - e há tanto que chovia -, que ia contar tudo ao meu pai.

 

- Mãe, a Boneca amoleceu e desfez-se... Morreu!

 

 

 

 

 

 

- As bonecas não morrem...Tens fome, não tens? Que tal uma sopinha quente?

 

 

 

 

Eu fingi que sim. Ela fingiu também. Amanhã, não vou aos figos. – Garanti. Depois, fui para a cama. Amanhã terei mais um dia para percorrer ociosamente.

 

 

 

- De bonecas não gosto muito, mas à chuva insisto em querer. Hoje, se eu fosse criança hoje? Não sei se queria...

 

 

 


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Estou: admirada

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

olhar

 

h à janela - devaneios pelo jardim

 

 

 

 

Sentei-me para espreitar pela janela. Aberta. Totalmente, como se não existissem caixilhos e vidros agarrados por aros. Numa cadeira que restava de uma mobília qualquer. Madeira escura com marcas de tempo que rangia perante a minha vontade de ver. Sem braços, o que me obrigou a sossegar os meus no parapeito de mármore que afastava a janela da rua. Um limite que ela queria galgar, todavia nunca ousou. A cadeira esticou as pernas numa magnânima tentativa de partilhar comigo segredos e fantasias. Tantas histórias que ela sabia de cor! Tantos livros que lera! De poesia, particularmente. Tantos os amores que celebrou, tantos os que chorou.

 

À janela, virada para a rua, eu espreitei o mundo. Lá ao fundo eu vi um jardim. Grandioso na simetria das suas formas, esplêndido na  grandiosidade, majestoso na perspectiva, benévolo nas desigualdades. Geométrico. Generoso em água e luz - lagos, repuxos e fontes. Jogos construídos no desenho das sebes e arbustos. Deslumbrante, este jardim. Sumptuoso. Excessivamente formal. Perfeito. Desenhado. Sem dúvida com régua e esquadro. Também com transferidor. As plantas, as flores não comunicam entre si… extasiam-se. Estranham-se. Prefiro a roseira do meu jardim. Pela humildade, pela pureza, pela irregularidade. Nasceu assim.

 

Sempre ambicionei ter um jardim só para mim. Invento um com cheiros. Com bonsais, bambu, buxo com desenhos estranhos, estátuas por todo o lado. Degraus perdidos aqui e ali, numa relação harmoniosa com a natureza. Com cerejeiras e cascatas. Tudo muito arrumadinho e perfumado. E com a árvore da felicidade. Perfeito. Contendo esconderijos propícios a promessas de amor eterno. Com visíveis raízes de árvores milenárias. Não sei porquê, mas com cheiro a incenso. E com ladainhas de súplicas aos deuses. Recantos favoráveis à reflexão. À descoberta de mim. Quem sou eu? Não sei! Devaneios irreflectidos de quem está à janela.

 

 Permaneço sentada numa cadeira que já está enfadada de mim. Eu subsisto. Ali.

 

É então que vejo montes e vales. Riachos e ribeiras. Pinheiros e oliveiras. E silvas com amoras pintadas de negro-maduro. Terreno desigual, sem estátuas nem jogos de água. Com caminhos desenhados nos carreiros enlameados. Porque chovera no dia anterior. Vejo cardos e tojo. Tudo cheira a rosmaninho e alecrim. A carqueja abrilhanta-se no amarelo das suas flores. No perfume das mimosas ouve-se no zumbido das abelhas. As papoilas misturam-se com as azedas – tantas que eu comi na minha infância. E onde crescem elas agora que não as vejo? Gostava do seu acre sabor... Para desenfastiar havia sempre um adocicado “rapazinho”. Uma seiva açucarada feita  néctar divino expunha-se assim. Uma flor pequenina, de cor avioletada, cujo nome verdadeiro desconheço. Sempre lhes chamei “rapazinhos”. Está assim na minha memória. E vai perdurar. Tenho charcos que sobraram das chuvas e lá dentro residem rãs e sapos. Estes só como enfeite, porque os abomino. Ao fundo, estende-se um medronhal. As copas dos medronheiros abraçam-se e beijam-se descaradamente. As flores são brancas. Os frutos terminam vermelhos. Os medronhos embriagam-se de alegria. Voluptuosos, riem à gargalhada.

 

No medronhal moram piscos de papo amarelo. Um passarinho discreto, canoro, pensativo ao Sol. De vez em quando surge outra ave. Pedante na poupa pontiaguda que lhe deu o cognome. E aparecem melros. Negros. Mais à direita da casa principal, uma cisterna. Guardadora de águas. Um poço que não é poço. O acesso à água faz-se por uma espécie chaminé. Que não é chaminé. Tudo o resto é um imenso terraço forrado a cimento. Aí invento. Invento-me. Ouço-me. E grito. O vale repete-me. O vento passa e rouba-me o bocado de carvão com que gizo brincadeiras de criança. Jogo aos quatro-cantinhos sem saber que o mundo não acaba ali.

 

Eu não tenho jardim. Se o tivesse não o agrilhoava em moldes geométricos. Não o planeava formal. Projectado. Antes instintivo. Um jardim. Fechei a janela. A brisa da quase noite resfriava-me as pernas e os braços. A minha cabeça permaneceu no medronhal com a convicção de que um espaço só é venerado quando nele se avolumam os silêncios. Então, sobeja a saudade.

 

 

[fotografia da internet]  

 

Estou: admirada!

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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