Sábado, 13 de Setembro de 2008

arranhar

olhos que observam segredos do tempo

fotografia de JS

 

Empoleirado no parapeito da varanda, ele olha. Olhos arregalados de ver. Melífluos e condescendentes. Confusos e incrédulos. Mas doces e expectantes, os olhos. Olhos com as cores da avelã, serenos e tranquilos à espera do Sol que nasce todas as manhã...  - Janelas minhas, para onde estão a olhar? Ver é melhor! Não se distraiam que o descuido é traidor e acarreta a dor. Ver para crer é querer ir mais além e dizer - dói ver - adeus, acabou! Olhos que vêem, ponte aberta entre mim e o resto. E se o resto carrega segredos do tempo?

 

Empoleirado no parapeito da varanda, ele olha. Passos apressados e vergados ao medo. Incursões por atalhos vedados. Sem cautela, sem cuidado. Mãos desajeitadas a escrever o que as bocas não sabem dizer. E dizem. Ele ouve desacertos que circulam no passeio. E escuta empurrões e atropelamentos no caminho. – Janelas minhas, para onde estão a olhar? Ver é melhor! Não se iludam que o deserto tem miragens. E o oásis é traiçoeiro. Ver para crer e saber – dói saber – adeus, findou! Olhos que vêm, janela aberta entre mim e o resto. E se o resto amontoa passados lembrados?

 

Empoleirado no parapeito da varanda, ele olha. - Apenas olho...Mas nada vejo. Não quero ver. E que me interessa se há males que eu não entendo? E se as arranhadelas não são as minhas?

 

E porque hoje é sábado, saio muito de mansinho, não vá o bichano notar. Depois, corro e abalo. E lá em baixo, como arroz-doce. Admirável. Branco-deleite e amarelo-enfeitado. À mesa, servem-se palavras, afectos e arranhões. E mimos. Depois, vi o mar. Admiravelmente mar. Azul-pouco se comparado com os olhos que sorriram para mim pela manhã. Zangado e sedutor. De olhar e ver. Mais além do que os olhos podem avistar. Empoleirados no desconsolo de ver que o gato esgatanha os tapetes. Defeca pela casa. E eriça o pêlo. Comportamentos arrebatados de quem gasta tanto tempo à janela.

 


Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

retornar

  "Pequenos contos numa prosa feita poesia e simplicidade. Páginas em que os gatos se passeiam a partilhar encantos e mistérios, só para apreciadores."

 

pegadas do retorno

 

 

- 09 horas e 50 minutos

 

Café. Sempre admirável. Mais dois dedos de conversa. Da treta, claro. Mas atenua males maiores. Deformação profissional. Antigamente, regressava-se descansado e feliz. Hoje, é notícia de televisão, uma nova praga doentia: depressão pós-férias. O retorno preenche-se com ansiedade, distúrbios de sono, fraqueza física e moral, hipersecreção das glândulas sebáceas e mal-estar generalizado.Ai que novidade!

 

- 10 horas e 10  minutos

 

Cemitério. Funeral. Mais um abraço de solidariedade. Uma lágrima de cumplicidade. Tudo por causa de um pai que partiu. O meu foi-se embora em Janeiro. E eu acho que os pais deviam estar quietos.

 

- 11 horas e 30 minutos

 

Escola. Beijos bronzeados com sabor a Agosto. Beijoroquei esta e aquela. E eles. Apesar de escassos. Poupei alguns beijinhos. Os que ficaram na terra das cruzes.

 

Retorno. 10 cêntimos. E um papel minúsculo. Escrevi o meu nome completo. Porque não sabiam como chamar-me, certamente. Agora que sabem, tudo será mais acolhedor. E o nome da escola. Parece-me bem. Tantas vezes a baptizaram que devem andar desorientados. Fiz o que podia. E a data. Para que servirão os calendários? Um  em cada secretária! De seguida, deparei-me com mais uma linha para preencher. Motivo? Motivo de quê? Perguntei, não fosse o meu contributo importar. Do retorno! Explicaram. E não é óbvio? É de lei, não? Pois! Escreva só "férias". Férias??!! Eu escrevi, mas juro que não entendi. Então a razão de eu ir trabalhar são as férias? Pronto. Que seja! Há férias assim. Garanto que prefiro as de ir.

 

Tarefas. Não as vi. Pareceu-me que ainda andam enroladas na areia. No placar jazem papéis fora do prazo. Não faço planos. Que pena!

 

Regresso. Amanhã, talvez. Para quê? Logo se vê. Admirável. E como eu não vi nada, não sei quando volto. Amanhã, talvez.

 

- 11 horas e 59 minutos

 

Estação dos comboios. Veio um e eu fui com ele. O T faz anos e fui almoçar com pequeno. O resto não conto. Coisas pessoais. De família. Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim?

 

Compras. Um livro. Isto posso revelar.  Amados Gatos de José Jorge Letria. É que há sempre um gato por detrás de um grande nome. E eu ainda estou para aqui a matutar na história do meu retorno... e ali, não haverá gato?

 

E tudo isto é o fado cá da terra. E um enorme ponto de admiração!

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...