Sábado, 12 de Janeiro de 2013

XIX. Jacinta [nos círculos do tempo]

 

O dia acordou enrolado num nevoeiro cerrado. Fazia frio. Não se vislumbrava o sol, apenas um fecundo pressentimento permitia supor que chegaria mais tarde. E não lhe apetecia. O sol chegava sempre tarde, pensava, enquanto enterrava o rosto na almofada. Por vezes nem vinha. Outras vezes, eram reflexos amuados que desciam lentamente pela manhã. Eram quase nove horas. Tinha frio. No quarto caía uma quietude perturbada. Que permitia ver formas indistintas na imperfeição daquela indigente luz. Jacinta há muito que acordara. E percebia vozes. Nítidos os rostos. Corpos que se despiam na sombra do nevoeiro.

   Aos pés da cama, uma banqueta magnificamente arrumada. Lacada de um nobre e preguiçoso branco, alindava-se num vermelho acetinado como o canto de  paixão. Sobre o banco pé de cama, um robe curto. De seda pura com mangas largas, estilo raglã. Um luxo suave e doce que se prolongava na maciez do estampado. Debaixo do banco, o gato. A fidelidade felina ronronava a sua presença. Que estava ali, que gostava dela. Jacinta voltou-se e enleou-se no tempo, puxou o lençol. Agarrou o dia e ficou por lá. Ela sabia que Beatriz chegaria por volta do almoço. Na noite anterior, tinham acordado almoçar juntas para prosseguir as frases inacabadas. As incertezas e os medos. As fotografias que partilharam ao jantar. Era cedo. Muito cedo. Jacinta sabia que o gato se aguentaria quieto durante o tempo em que ela estivesse deitada. Ele não compreendia que a dona viajava. E caminhava para trás.     

   Quando tinha sede, refrescava-se alegremente na água que atravessava a pele daquela paixão. Mar teu. Rio nosso. E tinha sede os dias todos. De pisar a areia. De rebolar na ternura das vozes que entardeciam na traineira. Da correria do mel. E de ir à fonte. Dos cântaros empoleirados na cabeça das mulheres. Da alegria do canto. Das quadras de rimas naturais. Bebia. E embriagava-se numa bebedeira consentida com copos de poemas. Do lado de lá, não era preciso mais nada. Tudo chegava. No sublime encanto das oportunidades repetidas, ouvia tranquilamente o silêncio do azul. E voava ao ritmo do bater das asas das cegonhas que corriam para os ninhos elevados na chaminé da escola. Imaginava-se um pássaro livre que bebia silêncios.

   Jacinta sentia-se refém do nevoeiro e do mar. E daquele beijo de despedida. Num instante em que o que mais queria era sol. Não podia. O Instituto de Meteorologia, antevira nevoeiro intenso que se iria dissipar ao longo da tarde. No dia seguinte, o Sul continuaria com neblina intensa.

   Numa descida acelerada, todos as gaivotas correram para o mar. Numa histeria coletiva, num bando improvisado estenderam-se à beira-mar. E apregoaram o feito com gritos cansados. E tornaram com os mesmos movimentos nas asas. E queixaram-se de não ter tido tempo para brincar.

- Bom dia, princesa! Ainda de robe?

- Visto-me num instante. Espera um pouco…

- Jacinta?

- Hum?

- Está bem…

   No tempo das papoulas vermelhas, ela não se atreve a procurar o mar, pensou Beatriz. E sentou-se.

- Teimosa, como é, não sei… De certeza que leva o rio…Ou o tempo. As asas e o azul.


(fotografia de Hugo Colares Pinto)




Domingo, 23 de Agosto de 2009

Jacinta XV [no baile de emoções]

 

Senhora… senhora… senhora… está bem? Nunca estive melhor, minha amiga. Respondeu coçando os olhos com a emoção que descansava serenamente. Na cama. O Sol entrava receoso pela janela. Que se escancarava para lá dos montes. Cautelosamente para não a aborrecer. No quarto generosamente amplo. De espaços livres e frescos. Viçosos como os sonhos que lhe revestiam os ombros. Voluptuosos. Boleados. Tenros. Como as folhas das árvores que porfiavam numa mansa agitação. A quietude erguia-se no brio da antiguidade. Jacinta exibia o requinte do seu olhar por todos os cantos do apartamento. O quarto era o que pensava mais seu. Dela. Inteiro. Explicava tudo na saga das gerações. Apenas acatava a formalidade. Saboreava. Queria. Mantinha a cama que já adormecera avó. A mãe. E ela que gemia num semi-coma de susto. O resto alimentava-se da luz que amolecia pacatamente no chão. E do vermelho correntio naquele corpo ainda a dormir o sobressalto. Duas janelas fartas com cortinados encolhidos. Por onde testemunhava aviões que se encaracolam em acrobacias arriscadas. Asas depenadas no arrojo do gesto. Fumos inversos. Três tapetes vermelhos. E muitas almofadas de alegria. Beatriz jogava silenciosamente às cartas. Paciências enroladas no monitor. Amizade emudecida nas derrotas desatentas. Paredes brancas. Escreviam-se em folhas de estuque pintado na plenitude da cor. Na nobreza da sua função. Sem perturbar… no emaranhado de palavras que contorciam silêncios pelas paredes. Apenas a porta se demorava na resignação da espera. Em movimentos entrelaçados. Com um enorme sorriso aberto. Na curiosidade de saber enrodilhado o lençol que se alongava na cama. Beatriz olhava. Ao mesmo tempo que se enovelava no silêncio de rendas e sonhos.

 

Ergueu-se numa gentileza sonolenta. Bela. Como se fosse manhã. E não era. Vamos. E foram. Jantaram na companhia da Lua. Na excentricidade do luar. Ao baile. Beatriz mordeu o entulho do espanto. Chegaram, já a música dava solavancos de ritmos esbatidos nos sorrisos bailarinos. Beatriz sorriu. E rumorejou que sim.

No baile, desapertou danças complexas. Só para espantar a audiência  afilada nas cadeiras enegrecidas pelo bolor do tempo. Pela corrosão do presente. Pela incerteza do futuro. Por não saberem dançar ritmos de todos os tempos. Pela enorme incapacidade de discernir músicas dançáveis. Na sua cabeça, bailavam passos desencontrados porque pisados por pés intransigentes. Fragmentos das suas certezas rodopiavam perdidamente. Ao ritmo de melodias que escutava no carro. Com ele. E dançava. Dançava. No limite da vertigem. No auge da carnalidade. O seu corpo um piano moldado aos dedos do tocador. Numa escala de dó. Teclas soltas. Forçava os dedos. Deslumbrada no sol. Nos passos em construção. Assumidamente em si. Num gerador aleatório de abdicação. E o sol rodopiava raios com sabor a amor.E ela engolia. Bebia.

 

Depois cansou-se. Arrumou a meia-cauda do piano. Enfraqueceu a luz. Rebolou-se para o outro lado. Sem gemidos. Só adormeceu. Se o gato tocasse piano, falaria francês. Ballet, quem sabe. Teria uma língua apaixonada. Garras gastas à beira do rio. Beatriz durava no jogo de cartas… num descanso guardião.

 
[imagem da internet]
 
 

 

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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Jacinta XIV

Os pássaros atravessam a estrada num passadiço aéreo
 
 
 
Estou louca! Louca! Rumorejava, despenhando-se no sofá. O persa dourado enroscou-se sobre o tapete vermelho. De quando em vez, abria os olhos para ter a certeza que ela estava ali. Descansaram numa compassada amálgama de concertos. Há muito que Jacinta adormecia encostada à almofada vermelha… Por vezes, dava-se ao trabalho de rastejar até ao quarto. Depressa concluíra que a arrumação não lhe garantia mais, nem melhor, sono.
 
Uma radiosa tranquilidade atravessava frouxamente a vidraça, clareando a sala. Doces murmúrios de vento beijavam-lhe o rosto ensonado. Num gesto de comovente entrega, Jacinta abraçou-os e abrigaram-se da aragem da manhã. Ela estremeceu na perturbação e deixou-se levar pelo sopro ameno. O gato não se importou, permanecendo na quente quietude do tapete vermelho. Se a espreitava, fazia-o para se assegurar que a sua amada dona sonhava que estava flutuando num imenso céu de azul-paixão.
 
Abriu os olhos e estremeceu. O seu corpo parecia-lhe percorrido por um calafrio ameaçado por sombras que não via. Por sonhos que já vivera. Sentada no sofá, as pernas abandonadamente cruzadas davam-lhe a certeza de ter duas, procurava a razão para que os sonhos que sonhou não fossem verdade. E engasgava-se nas respostas que não compareciam. Porquê eu… porquê a mim… E os pardais, que saltaricavam no telhado, chilreavam impressionados com a espessura da tristeza. Ali permaneceu, com a decisão nas mãos. Nos olhos, Jacinta carregava os destroços da batalha que travara até de madrugada, enquanto pelo rosto lhe escorriam hesitações ensanguentadas. Horas a observar o chão da contenda inundado em sangue, sem antever solução…
 
Tomou um duche arrebatado, vestiu-se numa elegância delicadamente fresca e fugiu para a rua. Assim, sem destino. Sem ninguém. Ela, o céu e a estrada… Assim, no silêncio dos carros, na ausência das luzes, no nada de varandas e prédios. E procurou as flores que se aninhavam ao colo da sombra das árvores… Com a agilidade plagiada por tantas vezes que o persa amarelado saltou para o parapeito da janela… No silêncio de brandas miadelas que ecoavam no empedrado, tropeçou na reflexão. Jacinta nunca entendera as palavras que o gato dirigia à Lua. Mas compreendera o motivo de tanto miar sempre que a via a brilhar.
 
Os passos levavam-na por ali. E ia, caminhava, corria sem saber exactamente o lugar. Não lhe importava o destino, porque já o conhecia. A estrada estendia-se em linha alinhada, numa ou outra curva mal desenhada. Subia e descia em movimentos tão discretos que ela não se importava. E corria sem conhecer o lugar. Apenas desejava uma estrada… longa… sem fim… para andar. Acontecer com o mesmo à vontade com que o fumo se alheia da labareda. Desbastando-se na confusão das formas.
 
Para trás estavam alguns minutos de passadas decididas. Agora havia a estrada… Jacinta fugia dos seus pensamentos, da mesma forma que o fazia dos raros motores que aceleravam por ali. Sem os passeios, ela seguia pela beira do alcatrão. O Sol já começava a pesar-lhe no corpo e ameaçava-lhe os pés empoleirados nuns saltos imprudentemente altos. Ao inferno escaldante que a esmagava, juntava-se o Sol que a começava a torturar. Inebriava-lhe a meditação. Aquecia-lhe as dores… e ela desorientava-se na assimetria do espaço. Amotinava-lhe a memória real e ela contemplava, no alcatrão, fotografias que a cegavam. E via as brechas que provocava no chão. Fendas e censuras que lhe esburacavam o alento.
 
Embrulhada em paisagens que não estavam ali, Jacinta passava. Insípida pela resolução que tomara, mas com a verdade que não poderia ter sido outra. Porque, considerava, tudo tinha um fim. E, para acautelar, a decomposição, deu-lhe uma morte adequada… mas doía-lhe tanto! Talvez já fossem duas horas. Talvez… Habitualmente, não usava relógio. Detestava que o tempo lhe estrangulasse o pulso e lhe atraiçoasse o tempo que era o seu.
 
De repente, num sereno voo tombado, um melro atravessou a estrada. Da negrura das penas, avançava um bico alaranjado. Do susto ao encantamento, foi um instante. Jacinta correu atrás dele e viu-o poisar num sobreiro preguiçoso do outro lado da barreira que acompanhava o asfalto. De um lado e outro, os montículos de terra livre coloriam-se com as cores das papoilas. As margaridas estendiam-se na indecisão entre ser brancas ou amarelas. Os cardos davam-se em alegres flores roxas no meio de multidões de azedas. As oliveiras e os sobreiros arranjavam-se do outro lado do declive. Um tapete perfumado estendia-se na irregularidade dos aromas. Ali, à beira da estrada. O melro. Depois uma poupa listrada. Um voo cortante. Apenas os insectos permaneciam no bailado arquitectado, sugando o néctar. E as cores. Jacinta deliciava-se com a exuberância da paisagem e pintava outras. Escutava trinados esvoaçantes…vozes que as aves não tinham.
 
Na desvairada perseguição, Jacinta atravessou a estrada…correu e perdeu-se no tempo que já não sabia de cor. Não viu, não ouviu o autocarro que circulava com destino e com hora marcada. Uma travagem traçada no alcatrão. As rodas dianteiras espezinhavam as papoilas… as outras desorientavam-se na valeta que há muito não recebia a visita do cantoneiro. O homem queixava-se que tinha por sua conta uma enormidade de quilómetros de estrada. Manter aquilo em bom estado parecia-lhe improvável. Um tipo não chegava para tudo. Talvez fosse por isso que se contentava com amanhos insignificantes. Sobretudo em alturas de fiscalização. Queria lá saber da erva daninha. Sozinho nunca conseguiria.
 
Abriu os olhos e ouviu o medo das vozes que se agitavam dentro da camioneta. O insulto e o pânico. O enxovalho e a dor. Jacinta, sentada na estrada, jazia agarrada ao aro do farol esquerdo do estupor que surgiu do outro lado da via. Sem se ter apercebido que os pássaros atravessam por cima. Sem reacção. Apavorada. Sem entender a razão pela qual as suas pernas estavam debaixo daquilo… e os sapatos lhe tinham desamparado os pés. Nem o motivo da ira do motorista que acabara de saltar lá de dentro. Esgazeado e a soletrar palavras que ela não entendia, por mais que arregalasse os olhos…
 
Ergueu-se num pinote alucinado. Atravessou a estrada, saltou a valeta e trepou a barreira. No outro lado, humilhou-se no meio do mar amarelo da tremocilha, virgulado por tranquilas línguas arroxeados de rosmaninho. Ignorou o cheiro a terra alvoraçada, a flores desabrochadas e a poeira levemente assustada pelo seu passar. Os sentidos murcharam tanto que desfaleceu. Foram os caules da desnectarada forrageira que se fizeram de cama.
 
- Senhora… senhora… senhora… está bem? Vou levá-la ao hospital… Senhora… Menina...
 
 
[imagem da internet]
 
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Jacinta XIII

O Sol caía no olival, depois do barracão, à esquerda. Queimado pelo tempo com que se recreou a brilhar. Erguera-se cedo com o intento de iluminar a abóbada celestial. Mas por ser tão grande, logo minguou perante a  missão. Talvez fosse esse o motivo pelo qual descia, pelo monte, em prantos dourados. Jacinta habituara-se a escutar-lhe o arquear ofegante. Ela sabia que ali ocorria a volúpia do instante. No exacto lugar onde o dia sucumbe aos pés da noite. Numa posição inversa à luminosidade que transportam. E cobriam-se com sedosos brocados matizados de negrume e claridade. No crepúsculo do deleite. Jacinta ouvia-lhes promessas de amor infinito. Depois do barracão que via da sua janela. E emocionava-se sempre que a noite, agrilhoada à efemeridade do tempo, encaminhava o dia:

 
- Farta os teus olhos de Sol! Inunda-os de luz e as trevas ficarão para trás. Nesse momento, os dias não serão que claridade. Na ausência das noites, o Sol esquecer-se-á que o ocaso é para cumprir.
 
Jacinta imaginava os dias e as noites, montados em doces cavalos alados, a errar por rudes e desapontados atalhos. Na vã tentativa  de eternizar passados corroídos pela preguiça do tempo. Com a alegria de quem rumava na direcção do mais comível banquete, apesar do sabor do impedimento. E o anoitecer tornava-se castelo alindado. Um local sagrado. Talvez o último reduto para os amantes. Abrigo de anjos açoitados nas asas. Como aqueles que Jacinta acolhe em cima da cómoda, no quarto.
 
Um frio tremor fê-la acordar. Saltou do sofá sem destrinçar onde residia o real. Tropeçou no tapete vermelho. O livro dobrava-se na página marcada. O gato, que caiu de pé, somente eriçou os olhos por não entender o súbito alvoroço. Jacinta aproximou-se da janela e já não viu o Sol. Estou aqui! Os seus olhos assustados viram-se nos dele.  Olhos de gato a espreitar nos meus! Declamou num pensamento estonteante.
 
Jacinta, minha ama adorada, eu sei-te tão bem. Aprendi a sentir o que sentes… a ver o que vês… aprendi a perceber que o dia a e noite se encontram no grito contido na dor dilacerante do desencontro. Não me vês, embora me olhes com o mesmo desmazelo com que dormes no sofá. Amo-te na beleza da tua voz, na ternura das tuas mãos… Gosto do modo desleixado com que me agasalhas.
 
Jacinta desorientou-se no olhar do felino… Estou louca! Louca! Concluía, na mais vertiginosa desordem de se desobrigar do bicho. Nunca, até então, ousara pensar… Era a sua companhia delineada numa fidelidade excessiva. Entendiam-se… Naquele dia os olhos do gato tinham um intenso sabor a jade. Estupidamente contentes.
 
Jacinta, minha adorada, eu sei-te tão bem. Não me vês… Olha como a minha cauda risca palavras no tapete vermelho da sala… como rasga o jornal que te aborrece. Repara como te escrevinho poemas que abalam pela janela e que tu não lês. No outro dia, lembras-te? Presenteei-te com um ramo de flores irreais… para que tivesses todas as cores e distinguisses a mais bela. Sabes, é sempre tempo de flores imaginárias. Em cada uma escrevi o teu nome… depois, amansei a minha boca nos teus olhos magoados. Olhei-te com a mesma apoquentação com que embaço o futuro. Eu sou, amiga, a tua voz no silêncio desta casa. A voz que te chama quando te ensarilhas na espera do toque do telefone. A tua dor é minha também. Por isso, eu salto pela janela e adormeço debaixo do chorão. Ali, junto ao rio…Gosto, porque gosto, desse lenço vermelho que te adorna o pescoço… lamento que não tenha sido eu…
 
Estou louca! Louca! Rumorejou, ao mesmo tempo que se reprimia no sofá. Ali, mendigou silenciosamente um tempo nutrido de horas cheias de suores apolíneos. O persa dourado enroscou-se sobre o tapete vermelho. De quando em vez, abria os olhos para ter a certeza que ela sossegara. Ancoraram na mais harmoniosa amálgama de cheiros.
 
 
 Fotografia de Jorge Soares
 
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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Jacinta XII

fotografia de Jorge Soares

 

 

No silêncio, consigo ouvir a sua voz.
 
 Vamos… e tornaram a casa cheias de cumplicidades caladas. Jacinta despediu-se da amiga com um telefono-te mais tarde engasgado com um beijo apressado. Entrou em casa, como quem entra na ala principal de uma catedral desabitada. Ressoaram ecos de passos perdoados. Brilhos de olhos maravilhados com o altar. Rumores de confissões a haver. Ouviu um silêncio excessivo e parou. E, nesse instante, o som mais perceptível foi o seu. Com a nitidez de quem se desenha no ventre materno. Como se tivesse ressuscitado das pinceladas de um fresco. Lembrou-se que, há  tempos atrás, lhe agradeceu e depois fugiu. Agora, tem a certeza que viver é subir as escadas. Atingir o patamar e ter medo de cair. E tornar a subir. Maravilhou-se com os vitrais e esqueceu-se de pedir a absolvição. Mesmo sem pecado contraído, embora declarasse a desobediência.
 
No mais profundo e agradecido silêncio, atirou os sapatos para o canto e arremessou deliciosamente o corpo para o sofá. Pegou num livro e olhou para ele com a sensação de empilhar a sua própria vida nas mãos… páginas e páginas. Algumas ofereciam-se em branco para que ela as escrevesse. Com fotografias a preto e branco que testemunhavam um passado que soluçava ao seu colo. Com ilustrações de cores aperaltadas que lhe mostravam instantes dourados. Histórias que experimentou. Narrativas por terminar. Outras que nem viveu, mas desejou. Um livro de uma enorme biblioteca que ela não sabia se poderia percorrer… ler do princípio ao fim. Nem do fim para a frente… Por vezes, quase sempre, gostava de andar ao contrário. Com a vida, comentava. Um livro a que, todos os dias, virava uma página... memórias que perduravam, que a compunham como era. Aquele o seu preferido, por ter narrações que almejava concluir. Alterar o fim. Tanto que ambicionava expulsar personagens. Algumas palavras e muitas das interjeições que expressavam sentimentos perdidos. Outros desorientados. Um dia, murmurava, serei capaz de desmentir a paixão do verbo amar. Adormeceu consumida por tanto escrever… O livro acalmou-se no tapete vermelho que parecia ilustrar toda a sala. Uma cor que amava por vê-la paixão e coragem no fogo que lhe incendiava o corpo. Por lhe aquecer o sangue, transportando-a para a imortalidade dos afectos que experimentara no rubro das romãs que existem nas traseiras do barracão. E, sempre que as via da janela, tinha a impressão que as estava a saborear. Pareciam muito perto. Apenas os medronhos, os via afastar. Sobretudo, por se lembrar de um livro já lido. Ali, aprendeu a alegria do vermelho. Tal como a eternidade que retém. A história passava-se na China, recordava-se vagamente.
 
De repente, o gato, que dormitava no parapeito de mármore da janela, saltou para cima do sofá. Depois, confundiu-se nela. Ambos permaneceram na mais absoluta quietude, avassalados pelas palavras do livro que se detinha sobre o tapete. Juntos ouviram o silêncio da areia sempre que o mar a vem desposar. Olharam para o céu… e ouviram risos brilhantes nuns olhos verdes que não eram personagem. Por não serem de papel. Mesmo que de seda... Jacinta dormia tranquilamente no sofá. O felino animal duvidava do sossego. Por isso, vigiava-lhe o sono. Coisas de bicho.
 

 

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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Jacinta XI

de João Palmela
 Setúbal
 
Depois saíram da loja envolvidas na mesma gargalhada com que tinham entrado. Jacinta apenas queria um telemóvel cujo número nem ela própria soubesse. Para não o poder dizer a ninguém. Assim, aceitou de imediato a sugestão de Beatriz. Que seja, amiga. E foi.
 
- Giro! Vais poder tirar fotografias…
- Telefone, queres tu dizer!
- Bolas, Jacinta. Ri-te, vá lá.
- Sentamo-nos? Ali…
- Claro! Queres que eu te configure o brinquedo, não é?
 
Sentaram-se sem que ela tivesse ouvido a pergunta. Numa praça descaradamente pública. Era ali que tudo acontecia. Ou então, onde tudo se sabia. E todos, que nem eram muitos, falavam do calor, ao mesmo tempo que lamentavam a sonolência da vida. Compreendiam a aridez do mundo e, simultaneamente, negavam o eclipse da Lua.
 
Ali, na praça, bebiam café, excessivamente adoçado, servido em chávenas abrasadas e muito brancas. Os empregados serviam os clientes ao ritmo da lentidão. Certos que o tempo não se esgotava numa tarde quente de Verão. Que depois do pôr-do-sol as tardes se repetiam. Todos os dias. Bastava dizer até amanhã. Volte sempre.
 
Ali, na praça, Jacinta sentou-se como quem descansa a fadiga de anos. Alongou-se na cadeira de alumínio como se fosse uma escada. Trepou os degraus dois a dois e chegou ao Céu. Que era ele. Jamais se libertaria da transparência daqueles olhos verdes. Irra! Nunca beijara um rosto tão belo. E sempre que os seus lábios se desfaziam em amor, ela perdia-se naquele mar apaixonadamente agitado. Às vezes, distinguia barcos que partiam, que chegavam. Outras eram as gaivotas que calavam movimentos esfomeados e esbugalhavam os olhos espantados, não disfarçando gritos de ciúme. Mas, quase sempre, via chorões debruçados sobre o rio… Amo-te! Amo-te! Não feches os olhos, amo-te! E sempre que ele os não fechava, os chorões perdiam-se nas águas à espera do milagre da flor. E o amor era tanto, tanto que a pele vertia arrepios com sabor a mel.
 
- Jacinta!
- Hum… Hã?
- Já está…
 
Jacinta alongou o olhar até à igreja que branquejava no outro lado da praça. E lembrou-se que há muito não se aproximava do altar. Nem da porta. Que a continuar assim, Deus não lhe perdoaria…
 
- Jacinta!!
 
 

 

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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Jacinta X

de Jorge Soares,  o cisne

 

Jacinta cumprimentou a amiga com um beijo na face e uma gargalhada carinhosa. Há muito que riam as duas. Com absurdos das duas. Com conivências de ambas. Por vezes, tropeçavam nas palavras. Perdiam-lhes o rasto. Mas riam.

 

- Não tenho telemóvel…

- Tens! Foi o Júlio que to deu. Lembras?

- Não tenho telemóvel!

 

O que ficara estendido no leito não. Fora o Júlio que lho oferecera. É o Júlio que lhe telefona. E ela não ouve. Irreversivelmente. Uma resolução cruel. Que lhe dilacera a alma e amputa o corpo.

 

- Pronto! Já percebi. Não tens telemóvel.

- Beatriz, vamos almoçar à Casa do Tubarão? Apetece-me peixe… Depois ajudas-me a escolher um telemóvel novo e vamos ao cinema… que tal?

- E tenho alternativa, minha amiga?

 

Não tinha. Jacinta contava sempre com ela. Por isso, não pedinchou. Nem perguntou. Ordenou sem direito a alegações engendradas por quem estava a expurgar o quarto de poeiras e outras sujidades semanais. Beatriz é a única que assistiu, por dentro, à ramificação do envolvimento com Júlio. Nunca abençoara a relação. Pelas suas crenças. Pelo desconcerto da situação. Descobrira-lhe tramas em excesso. No entanto, deu-lhe apoio incondicional. Porque amiga. Só por isso.

 

Conheceram-se numa viagem que fizeram a Viena, uns anos atrás. Numa cidade de sonhos. Na terra da música e da arte. Apaixonadamente. E o Danúbio é apenas um rio que rodopia nos braços da valsa. Perderam-se na fascinante mistura entre arte, cultura e edifícios monumentais. E nos recantos pitorescos. Na elegância de uma cidade que se abre com portões grandes e fachadas espantosas em todos os lados. E que ostenta, orgulhosamente, o seu amor à música e à arte. Extasiaram-se a ouvir Mozart. A todas as esquinas. E numa esplanada sobre o Danúbio, saboreando um forte chocolate quente, testemunharam que, ao Sul, o Sol brilha com mais entusiasmo. E tiveram saudade. Da luminosidade. E à noite, adormeciam no encantamento da Flauta Mágica

 

À mesa não há interrogações escusadas. Comem e riem. Trocam postais ilustrados de Viena e de outras cidades que saborearam juntas. E entrelaçam cumplicidades. As palavras alastram alegremente sobre a mesa. As cores misturam-se na partilha de afectos. Uma em cima, outra em baixo. Nem sempre ditas. O silêncio ingere-se e aconselha prudências. Nenhuma delas traz o Júlio para a conversa. Falam dele, sem o nomear. Fingem que a omissão o faz abalar. E que as palavras caladas emudecem sentimentos desordenados. Termos que querem gastar para metamorfosear sentimentos. Jacinta só sabe repetir a palavra nunca. Como uma obsessão. Com tempos bem definidos. Para disfarçar um amor que a derrota no interior da sua pele. E lá ao longe, ela sente o apelo, o grito com que terminara a litígio. Agora que decidiu nunca mais atender aquele telemóvel, acredita na verdade do caminho, na justeza das direcções que decidiu percorrer. Recorda o adeus trocado naquele dia à tardinha. E das palavras que disseram ficou-lhe uma enorme ferida aberta no coração. Que cicatrizaria, acreditava.

 

- O telemóvel, lembras-te?

- E podia esquecer-me?

- Estou a pensar… naquele! Com tudo a que tenho direito.

- Sim, senhora!!! Vejo que ganhas bem, menina.

 

E entrelaçadas na harmoniosa risada de Jacinta, aventuram-se numa loja de telemóveis. A Beatriz é mais dada às novas tecnologia. Jacinta apenas decidiu desligar a chamada. Não quer ceder ao desejo de contrariar uma vontade que a corrói por dentro. E ofegar que sim. Só que o coração de Jacinta solta o último pranto. Numa praça cheia de gente...

 

 

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Domingo, 28 de Setembro de 2008

Jacinta - IX

  de Paola (Ericeira)

A calçada espreguiça-se até lá ao fundo. Onde se acantoa na rotunda das oliveiras. E as árvores caminharam de longe para ali. Generosas. Tolerantes. Espacialmente descompostas. Aquele não é o seu lugar e é por isso que se alvoroçam. E não riem, nem dão fruto. E os carros buzinam descontentamentos aos seus ouvidos. Travam receios. Aceleram pressas que lhes são impostas. E as raízes embrenham-se na terra na ininterrupta procura de água. E os automobilistas transtornados colhem folhas ávidos de misericórdia divina. Sem perceber que as estão a mutilar. E que aquilo não é redondo. Mas serve para andar à roda.

 

Na calçada, os passos andam de lá para cá. E ao contrário. É o tráfego normal para aquele fim de manhã. Numa terra em que as estatísticas denunciam envelhecimentos enrugados. Sentados nos bancos do jardim. Do outro lado da estrada. À espera que os venham substituir. O Ti António espreita clientes que fugiram para o gigantesco supermercado inaugurado no fim-de-semana. E lamenta que na sua mercearia só caibam três pessoas de cada vez. Porque o rol também ocupa espaço e não parou de crescer. Jacinta cumprimenta-o com um sorriso brando. De quem não tem tempo para desperdiçar e não quer encetar diálogos à porta da venda. O Ti António devolve-lhe um aceno escancarado, ao mesmo tempo que os seus olhos se mimoseiam com a passagem da mulher. Cada vez mais bonita, consideram ainda deslumbrados.

 

Agora, com mais serenidade, ela percorre o cinzento e empoeirado lajeado. Espezinhado por rotinas quotidianas. Que não deixam rasto. São pés ritmados no compasso dos afazeres. Tum-tum-tic-tic-tic… Que não entendem que aquela não é a calçada da glória. Que os seus apelidos permanecerão, como até ali, na sombra do analfabetismo. Há muito que cessaram os cantos na ladeira. E se estabeleceu a indolência afadigada que vomita ritmos estupidamente constantes. Jacinta vive um daqueles dias em que as palavras maltratam as suas reflexões. E as pedras da calçada são arma de arremesso. Sublevam-se, escarafuncham e abalam. As pedras são palavras que lhe sovam o corpo.

 

Jacinta pára junto ao número sete. Um primeiro andar, no fim da rua. Olha para a janela que está escancarada. Estendidos no parapeito, os tapetes denunciam arrumos e limpezas antecipadas. Não era sexta-feira. Nem sábado. Somente um dia da semana. O seu dedo indicador pressiona o botão da campainha. Trim-trim-triiim… som e voz de quem exige a porta aberta.

 

- Jacinta, querida! Entra… Podias ter telefonado …

 

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Domingo, 21 de Setembro de 2008

Jacinta VIII

de Jorge Soares (Parque das Nações, Lisboa)

 

A única janela aberta é a de Jacinta. Ela olha para o céu e contempla a promessa de um dia admirável. Um dia que surge azul-celeste. Foi o Sol que o forçou a sair da noite. E a ela também. Foram raios excitados que a expulsaram. E coriscos. Os que obstaram que o sono se fizesse sem intervalos. Serenamente. A noite passara. Apenas passara. Assim, da mesma forma que o tempo. Apesar do relógio. Apesar de si. Um tempo que ela tem como amante. E a quem reivindica tolerância. Para esquecer. Só por fora. Ambos sabem que as memórias não se apagam. Somente vivem no silêncio da voz. Na suavidade da sua pele. E nos dois pequenos gansos que poisam sobre o televisor que dorme com ela no quarto. Em faiança. Pintados à mão em tons de rosa. Porque os viu carinhosos e harmoniosos. Ele comprou-lhos. Para lhe dar prazer, mimava-a. Tanto! E cheiravam a flores sorridentes. Hoje, um adorno inodoro em cima de televisão de alcova. Apenas estão.

 

A chamada, que ela não atendeu, permanece em cima da cama. Moribunda. Com morte anunciada. Ela decidira assim, na certeza de um entendimento honesto e íntegro. E é nessa convicção que olha para o monte. Ali, onde os devaneios se sucedem. E vê o Sol nascer todas as manhãs. E chora sofrimentos de doer. Que a enlouquecem. Jacinta vestiu-se para olhar de longe um amor que foi seu porque quis. Mas já não é pela opção que fez. Acabara o tempo de uma bela história de paixões imprudentes. E sobrou tempo para cruzar mares com vagas de arrependimento e ondas de incerteza. Desertos despidos de afectos e beijos amantes. Sobejaram noites com cansaços e dores extensíssimas. E é ela que apazigua o coração. Que lhe diz que a dor vai passar. E mente. E pede-lhe ânimo para permanecer no corpo que tem. Roga-lhe que não se inquiete. Que controle os sentidos. Todavia, que não lhe apague da memória o Amor. Tanto que ela o deseja e quer…

 

Jacinta olha para dentro e sente que perdera a noção do tempo. Combinara sair cedo. No chão, junto à janela, morre um roupão vermelho que um dia viera de longe. Toma um duche apressado. Veste-se e sai. Perfeitamente bonita. Estrondosamente elegante.  Convictamente sedutora. Os gatos empoleiram-se no parapeito da janela. Vêem-na partir. Olham-se e assustam-se com a partida arrebatada. E o Sol adormece enroscado nos felinos que falseiam um sono desapaixonado. Refastelados. Com o rabo assombrado. Como só os gatos dormem. Até que ela volte. E a janela enrodilha-se com os bichanos ao Sol.

 

O telemóvel ficou em cima da cama. De propósito. Por quem não quer chorar outra vez.Tocou uma vez, duas… Calou-se. E os gatos persistem no sono soalheiro. Das escadas ecoam silhuetas de passos apressados. De salto alto. Salto agulha, como ela explica. Na calçada, Jacinta apressa o tempo. Um empedrado pisado e polido por encontros e desencontros. Numa digressão de promessas desajustadas. E o tempo corre, corre… sem alterar a paisagem. Jacinta iniciou a corrida que a conduzirá pelo caminho que escolheu. Com sentido único, apesar da possibilidade de voltar atrás. E recomeçar tudo outra vez... Jacinta olha em frente.  À procura do mar... para desabafar. Para que , sempre que lá voltar, as gaivotas saibam do que ela está a falar. De dez admiráveis anos. Vezes 365 dias. E noites!

 

 

 

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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Jacinta VII

   O dia acordou cálido. As previsões meteorológicas contam a história da permanência do Sol. Que Jacinta gostava de ver desaparecer. No monte, atrás do barracão, ao fim da tarde. No fim da linha. É ali a terra dos sonhos. Fecha os olhos e vê imagens que não consegue parar. Corre atrás dos rostos e só sossega quando o vento lhe fustiga o corpo. E  fica até que lhe roube a dor.

 

Da estrada, a casa mal se vê. Um caminho de terra empoeirada ladeado de árvores muito verdes. As copas fazem-se de cabelos caídos em lágrimas. Virados para o solo. De cabeça menosprezada. Elas sempre cresceram para baixo, numa inglória tentativa de entender as raízes, constata Jacinta com a certeza que conhece pessoas admiráveis que escondem a sua verticalidade. Não são capazes, ou não querem, assumir capacidades. Numa contínua rejeição de protagonismo. Árvores fartas e elegantes. Apesar da sua fragilidade. Bastam-se na sua magnitude e beleza. Olham-se ao espelho do rio que está ali e coram. Mas benzem-no também. Por isso olham para o chão. E brota a cumplicidade de quem há muito se ama. A Primavera ressuscita a cada beijo. A cada afago dos ramos que olham para sobrado poeirento. Na solidez de árvores de ornamentação. E quantas vezes lhes apetece partir no bico de uma garça, ao pôr-do-sol.

 

Os chorões alternam com dois castanheiros e irritam-se com a sua dimensão. Presunçosos! Não precisavam de crescer tanto. Ainda por cima, ornam-se de ouriços picantes. Que riem muito. Tanto que a cada gargalhada uma castanha cai no chão. E com uma nogueira de copa largamente ramificada. Que contribui generosamente para embelezar a estrada. Com flores amarelas. E lança um intenso e distintivo perfume. E bebe água no rio. Olham para o céu e agradecem. Apenas os chorões se viram para baixo. Modéstia tamanha para quem foi jardim na Babilónia. E sempre que o vento chega com a sua música, as árvores ficam de pé. E bailam com ele. Os mais novos já não se recordam. E os velhos não o podem confirmar. Jacinta mora sozinha. Dois gatos que se empoleiram no parapeito da janela fazem-lhe companhia. Ou ressonam aos seus pés. E ela fica só. Na sala, porque lhes nega o quarto. Dois persas dourados e nariz achatado. Rabo curto de pêlo imperial.

 

A casa completa-se na cadência do lugar. Pela sinceridade. Pelas raízes que se agarram àquele bem-aventurado chão. Uma terra que se regenera ciclicamente. Como as gerações que desapareceram da casa. Resistem os vultos emoldurados. Casamentos e baptizados. E o Natal. Dias com vento e com chuva. À beira do rio. Na margem do Sol.

 

Jacinta acorda cansada de audácias assumidas à luz do dia. Perdera o controlo do jogo. Cobre-se com um roupão de seda. Vermelho. Que ele lhe trouxera do Irão. Júlio conhece grande parte do mundo. A profissão leva-o para longe. De vez em quando. Todos os dias telefona. Uma vez, duas. Às vezes três. Diz-lhe por onde anda. As saudades. O amor. Tanto que se amam. Das prendas que lhe compra. Uma por dia. Porque a quer todos os dias. Jacinta viaja com ele. À distância, sente os aromas e as cores das terras que ele pisa. E as vozes. Como é que se diz amo-te em persa? Pergunta-lhe. Tora dost daram! Tora dost daram! E ela ri da sua ignorância linguística. E cora. E deseja tê-lo ali. Só para lhe responder. Em português. Tanto!

 

Aproxima-se da janela do quarto. O gato dorme no parapeito de mármore. Assusta-se e abala. Vai terminar o sono debaixo do chorão. E Jacinta olha para um passado que quis. A janela permite-lhe voar. E num instante sai dali. Percorre os corpos cercados pelo calor da paixão. A janela autoriza os sonhos a entrar e a sair. Mas só os reais. E pela janela entram os sons da vontade. À janela, os pés de Jacinta passeiam pela estrada poeirenta. E junto ao chorão atapeta dez anos de lânguido e doce veneno. Do interior para o exterior. Ambos olham para o chão.

 

A chamada não atendida extingue-se em cima da cama. Jacinta tinha-se vestido para olhar de longe.

 

 

fotografia de Jorge Soares

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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