Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

beijar

 O Beijo, de Rodin (Internet)

 

As pessoas estão a morrer à míngua de afectos. A mercantilização das sociedades é no que dá. As avós têm mais que fazer. É trabalhar até morrer e os contos estão nos livros. O problema é lê-los. A paciência esgota-se antes do final do mês. As palavras são difíceis, a gente não fala assim. E até já se perdeu o hábito de escrever. Os filhos e os netos, que sobrinhos, primos, afilhados e aparentados são, vivem na rua. Até quererem, até poderem. Só que na rua há carros e alcatrão sem espaço para jogar. Os meninos estão desamparados e dizem-se órfãos de afectos. Não sabem amar. Tão pouco acariciar e já nem brincar. Estão nervosos. Muito hiperactivos e pouco receptivos. Mas tratam o psicólogo por tu. Os adultos silenciam-se com medo de errar. Ou por não saber. Ou por pensar que chega o jantar.

 

             - Os pais não têm tempo…

- Não! Tempo têm, mas não sabem explicar.

- Eu não tenho pai…

- Então e eu? Nem tenho mãe!

- Eu tenho! Faltam-me os avós.

 

Foram comentários que ouvi. De bocas que crescem famintas de saber e aprender a amar. De bocas que sorriam maliciosamente:

 

- Quando não sei, pergunto aos amigos.

- E se eles não sabem?

- Há livros… e filmes e Internet. Tenho televisão no quarto, computador…

 

Foram observações que ouvi. De meninos resignados. Alguém os convenceu que os afectos, o amor, a sexualidade, a paixão e a desilusão se aprende nos filmes que eu não quero dizer. Porque porcos, feios e maus. Arquitectados. Montagem mentirosa e remunerada que não é capaz de dizer aos meninos que amar é natural.

 

Talvez seja por tanto querer aprender que eles chegam à aula perdidos de sono. Só que as cadeiras são desconfortáveis e eu não sei como é que eles elaboram a realidade nas suas cabecitas. Nem que realidade. Nem vejo necessidade para tamanha banalização do sexo. Nem nunca senti falta de livro de instruções. De prescrições simuladas e de receituários semelhados. Sou pelo sentimento. A dois. Um beijo dá-se, não se pede. Nem vale espreitar!

 

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários. 

                                                                                                 Carlos Drummond de Andrade

 


Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

bebericar

bebedeiras da noite

 

               bottélon na praia

 

 

 

 

Portugal é, por tradição, um país de brandos costumes. Também por tradição, é uma terra que gosta de beber o seu copito. Nem sempre à refeição. Mas com objectivos. Sorve desgostos de amor. Ensopa tremoços e caracóis. Suga amores pela palhinha. Bebe para afogar os prantos que sopram forte. Engole as alegrias que chegam tarde. E pequeninas. Toma um copo com os amigos. Sorve o espanto de ser pai pela primeira vez e aperta nos braços a garrafa com quem passará o ano. Um gole de traição. Na flûte, um admirável gaulês. Da terra de Dom Pérignon. Que tem mais borbulhas. Uma noite sem exemplo. Depois volta ao copo de vidro e bebe o que a lusa terra lhe dá.

 

Hoje, a minha admiração tem desatinos. Porque não compreendo o gesto. A decisão. O intento. A motivação. Só se por uma ignorante infantilidade a querer ser gente grande. Ou por razão nenhuma, o que não é bom. Porque sim, tão-somente? Diz a notícia que os jovens espanhóis bebem muito. Dos portugueses não fala. Uma espécie de bebedeira colectiva. Uma orgia nocturna de garrafas no areal. E bebem. Bebem. A noite toda. Depois, já despidos de razoabilidade humana, gritam muito. E partem coisas. Dizem estupidezes. E bebem mais. Fazem burrices. Estão bêbados, não sabem. Chega a polícia que vem minorar os danos. Os desacatos persistem. E a rapaziada jura que não está a fazer nada de mal. Que é tudo normal. Que se divertem somente. E têm o descaramento de apresentar queixa porque em Espanha não os deixam beber assim. E adormecem tranquilamente. Quando acordam vão a correr comprar mais. Para escaldar a noite.

 

Acabadas as férias, levam o quê? As fotografias estão desfocadas e manchadas pelo álcool. Os corpos estão sempre a dormir. Não reconhecem rostos. Dos locais mal se lembram. Estavam estonteados. Na pele arrastam a cor das bebidas brancas. E a espuma não é a do mar. Não sabem do sabor do mar, nem do Sol. Mas vão lembrar-se que beberam muito. No areal. Do resto, não têm a certeza. Passaram por Portugal. Regressam com a bagagem despojada de férias. Porque estavam perturbados. E porque estavam completamente atarantados amaram na areia. Com raparigas também completamente aparvalhadas. Não acautelaram doenças sexualmente transmissíveis. Nem barrigas prenhes no areal. Fizeram sexo porque o afecto não fazia falta. O amor inebria-se a si próprio. Não necessita de álcool. E os jovens, porque são jovens, não precisam de se divertir assim.

 

E é com notícias destas que o alerta das campanhas se torna mentira. Admiro-me com radicalismos e proibições. No entanto, admiro-me muito mais com a abundância de informação que os jovens rejeitam e ignoram. E regressam a casa com a certeza que beberam muito. Tanto que não se lembram de mais nada. Portugal espanta-se com a notícia. Portugal é um país tolerante. Portugal não vê a publicidade que anda aí. Praia, cerveja, mulheres, sol, cerveja, jovens, corpos, futebol, cerveja, o sabor autêntico da praia. E eu pensava que a praia sabia a praia. E que o cheiro era do mar...

 


Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

adornar

o bem das laranjas

adorno urbano

 

 

Ia eu pela rua abaixo, enrolada nas prioridades da vida, quando reparei numa laranjeira. É que os passeios estão adornados por estas admiráveis árvores. Normalmente, desvio-me delas. Uma laranjeira redondinha. Médio porte. Frondosa e verde. Num dos seus braços suportava, com dificuldade, uma filharada imensa. Todas meninas, porque o limoeiro não andava por ali. Bem nutridas, percebe-se pelo esplendor da sua pele. Com vestidinhos alaranjados. Com um laçarote na cabeça. O Sol, que já aquece a manhã, consolida-lhes a cor. Amadurecem e atiram-se para o chão furiosas com o menosprezo que recebem dos caminhantes.

 

Uma laranja diz que se lembra das alegres narrativas que se faziam numa laranjeira já adulta. Uma citrus sinensis alta e de folha imortal. Admirada pela força que ainda tinha. Pelo carinho com que ciclicamente se cobria de flores. E como vivia esta fantástica fase da sua vida. Bonita e cheirosa, esperava pacientemente que os frutos atingissem o tamanho de uma bolinha de chumbo. Depois, ria envaidecida por vê-los crescer. A forma, a cor e sabor. Ela conhecia-os melhor que ninguém. Eram sempre doces.

 

E diz que ouviu falar de uma rapariga. Uma jovem que colhia as laranjas pela manhã. Enfiava-as numa cesta e ia embora. Todos dias eram assim. A moça das laranjas estendia-as às pessoas que passavam. E mais do que uma vendedora de fruta, era a vida que ali estava. Uma pintura dourada pelo Sol e iluminada pela ternura que resplandecia do laranjal. A jovem, insiste a laranja, sustentava a fome ao portão. E vendia-as todas. Até acabar e comunicava que voltava no dia seguinte.

 

E contava que ouviu ameaças, gritos e correrias. E muito trambolhão de cima do muro. Eram os rapazes. Visitantes clandestinos que tinham como alvo as maravilhosas laranjas que ali existiam. Aquela muralha de tijolos sarapintados de branco era o limite que ousavam desafiar. Afinal, eles conheciam bem aquela doce perdição. Uns preferiam ficar debaixo da laranjeira, eu preferia subir para poder admirar aquela admirável árvore. As laranjas do alto eram mais doces e estavam mais pegadas ao Sol. E as folhas mais verdes renovavam-se por dentro e permitiam que os sonhos ganhassem asas. E saltitassem de ramo em ramo. Às vezes abeiravam-se da raiz. E ali, eu aprendi o cheiro e o sabor da laranja. Da laranjeira que as gerava com bem-querer.

 

A laranjeira que eu vi não tem histórias para contar. É só uma laranjeira espetada na calçada. Com laranjas avinagradas. Empalidecidas. Que apodrecem ali. Ninguém as vê. Nem têm muro que as guarde. Nem é preciso. Os rapazes enjeitam-nas e vão ao supermercado. Mas, em caso de dúvida, podem voltar. Aprender que a laranja nasce assim. Ainda bem que há laranjeiras na minha rua. Não vão eles pensar que já nascem ensacadas. Todas lustradas e do mesmo tamanho. Por um mecanismo especialmente projectado para o efeito. Automatismos que se ganham, outros que se perdem. E como era bom comer laranjas no laranjal...

 


Domingo, 22 de Junho de 2008

a culpa de Baco

publicidade evitável

 

 

Ao sábado celebro o arroz-doce. Com canela. Café imediatamente a seguir. Depois, iniciam-se viagens. Fazemo-nos à estrada das compras. Das gargalhadas. Dos orgulhos das crianças que temos. Das partilhas que há muito fazemos. Das cumplicidades também. E, há que confessá-lo, de esconderijos coniventes de palavras, igualmente. Alimentamos o corpo e a alma. Assim, felizes e contentes. Com o tempo todo que o sábado tem. Nem sempre o gastamos por inteiro. Outras vezes não chega. Temos direito a não ter tempo composto numa campainha com voz de soprano. Por vezes sobressalta-se e passa de aguda a grave…

 

Galguei a estrada até ao local de encontro. Sempre pelo passeio, não fossem os carros não reparar. A inevitabilidade mostra-se nos placares exteriores de publicidade. Desabrocham nos passeios como cogumelos. A uns apetece-me comê-los. Outros laminá-los.

 

E lá estava ele. Encontrei-o uma ou duas vezes. Verde. Facto que é logo uma desvantagem. Não é. Nunca foi uma cor de eleição para mim. Gosto de alfaces. De brócolos. De nabiças. E muito de feijão-verde. De todos, apesar da cor. Nem resisto, quando a conjuntura é favorável, a um verde bem fresquinho.  O verde é cor que pinta as flores e as árvores. A erva e a relva. Apenas na natureza é que o verde é admirável.

 

Beber um copo não faz mal a ninguém. Há mesmo quem afirme que beber é uma arte. Essa é que eu não sei. Que beber vinho é um acto de cultura popular. O vinho até pode ser a defesa para a ruptura com a norma. Há sempre a desculpa misericordiosa do coitado, estava bêbado, não sabia o que fazia... Pois que seja.

 

Razões há muitas. É como os chapéus… Mesa. Produção. Transformação. Cultura. Distribuição. Comércio. E sei lá eu que mais. Só porque sim!

 

A publicidade, baseando-se no conhecimento da natureza humana, espreita-nos a alma. Quanto mais lhe descobre as necessidades, os desejos e os impulsos, mais fácil se torna a ofensiva. Sabe-se que a publicidade divulga produtos de vários tipos. Não se ignora a sua vontade de nos despertar o interesse. A vontade de nos fazer comprar. É tudo uma questão de técnica. Uma boa campanha publicitária é meio caminho andado para o sucesso. Entenda-se lucro.

 

Resisto-lhe com frequência. No entanto, tenho as minhas vulnerabilidades como qualquer mortal. Não crucifixo a publicidade. Desta que está no passeio não gostei. Provavelmente não entendi. Não compreendi o slogan. Não articulei a imagem. Foi isso, seguramente...

 

Jovens e saudáveis. Sorridentes e frescos. A idade garante-lhes o rótulo de “dentro do prazo”. Os modelos são perfeitos. A aparência magnífica. O texto e a imagem conjugam corpos jovens e frescos no presente do indicativo. Não é bom. É óbvia a relação. A metáfora apoia-se em rituais antigos. As propriedades do vinho mesclam-se com as da juventude.

 

Corpo jovem. Saudável. Fresco. Os rapazes publicitam o prazer de beber vinho. E a mensagem passa… Os rapazes, e raparigas, que o consumam ficam assim… Como se eu acreditasse que o meu corpo se remoçava com tal coisa. E eu gosto. Lá isso gosto. Discordo que se persista no uso de gente jovem a apelar ao consumo de álcool. Já não chega a cerveja? Nos bons e maus momentos? Com direito a hino e tudo? Não gosto…

 

Existe «uma associação entre os hábitos alcoólicos e outros comportamentos», como a violência. A afirmação foi feita por Carlos Farate, autor de um estudo sobre os «Jovens e o Álcool», apresentado, esta terça-feira, na Assembleia da República.

Os dados revelados indicam que os episódios de comportamentos exteriorizados, como a violência, decorrentes de hábitos alcoólicos exagerados, têm mais incidência nas raparigas do que nos rapazes, ao contrário do que se pensa, «devido a impasses significativos no processo de identidade» das raparigas, explica.

O estudo, apresentado pelo professor, revela que 47,2 por cento dos jovens começa a beber bebidas alcoólicas a partir dos 13 anos. Aos 18 anos a percentagem de consumo sobe para os 93,5 por cento.

 

A culpa disto tudo não pode ser só de Baco. Parece que foi ele quem primeiro plantou a vinha. Porém, a primeira e mais célebre carraspana foi Noé quem a apanhou.

 

Uma cerveja bem fresquinha sabe sempre bem. Culpar os outros é fácil. Falar no diabo é mau. Mostrá-lo ainda é pior. Quanto mais assim tão dissimulado.

  

Estou: admirada!

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

lixar

pHistoire d’un fleuve-poubelle?

(Rio Sado - imagem de costa azul)

 

automóveis e coisas do tipo

 

 

 

Não tenho carta de condução! Logo de que me serviria ter automóvel? Abdiquei! Em consciência. Há momentos em que sinto uma falta inexplicável de um carrito, outros em há em que dou graças por, num dia quente de Verão,  ter enfiado o carro numa vala farta em água e, seguramente, com excesso de largura. Ainda hoje, pago com títulos de transporte a minha falta de habilidade para desfazer aquela curva.

Não conduzo, logo não me canso na demanda de estacionamento seguro. Livre de qualquer reboque atrevido ou de um vizinho enfadado com a vida. No autocarro que diariamente me leva até ao local de trabalho, e leva-me sempre, tenho o privilégio de viajar acompanhada. Às vezes até com música, coisa rara na RL. Um transístor, à moda antiga, que em cima do tabliê se esganiça na veleidade de ser audível. Frequentemente sem êxito.

Entro, exibo a validade do meu título de transporte, sento-me e a inevitabilidade acontece. São vidas privadas a percorrer bancos de autocarro. São retalhos expostos em andamento. A vida é mesmo macabra, concluo. Banalidades. Testes. Desgostos. Desgraças. Gargalhadas. Exames. Necrologia. Dinheiro. Informática. Conselhos. Telemóveis. Números de telemóveis. Música. Encontros falhados, outros adiados. Sobras do fim-de-semana. Família. Exposições orais. O rol é imenso. A viagem é curta. A opção é difícil. Não sei que frequência escolher. No tabliê, o rádio dá notícias com solavancos. Interferências promovidas pelos buracos alcatroados a ponto cheio.

No banco do lado, jovens, com ar de quem frequenta o 10.º ano, atropelam-se com palavras. Aceleram com irresponsabilidade. Buzinam a falta de estudo. Travam respostas que não sabem. Enfiam-se por becos donde, só com muita sorte, sairão. Uma confusão no livre trânsito das perguntas e respostas.

Os jovens comunicavam numa língua estranha. Mas comunicavam que eu vi e ouvi. De vez em quando, socorriam-se de outra língua, mais específica, mais técnica. Para essa eu não necessitava de tradutor. O pior era quando tornavam ao idioma deles... O congestionamento do tráfego verbal devia-se à apresentação oral agendada para a tarde. Treinavam respostas. Exercitavam discursos. Ah, eu sei essa cena! Não é tipo... Ya, é tipo... Sabes aquilo... tipo... Ya, meu... é tipo. Então é tipo...? Nã, é tipo...? É tipo... ya, pois...tipo..

 

Quem será o tipo de que falam tanto? Pessoa importante, estou certa. Fiquei desassossegada! Curiosa! Que língua usariam na apresentação oral? Que língua falaria a professora?

 

No tabliê, o rádio dá a notícia de um aidente no IC19. O tipo só falava de sinistralidade nas estradas portuguesas. Lembrei-me de um tipo que um dia foi quase meu amigo. Confesso que cheguei a ter pena do tipo. Até é boa pessoa. Um tanto excêntrico, mas bom rapaz. Simpático e sempre disponível. A paciência que ele tinha com o meu  primo António!! E ele chegava a ser impertinente com o rapaz. É que o tipo da oficina não tinha mãos a medir... nem sempre lhe sobrava tempo para aturar o meu primo António. Bom tipo!

 

 

Estou: Admirada!

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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últimos comentários

A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...