Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

arrear

  de João Palmela

 

O todo abafa as partes. E estas, por mais que se esforcem, nunca serão um todo. Há brechas. Deslizamentos territoriais. Invasões regionais e, até, submissões a modismos nacionais. A zombaria e os risinhos amarelados pela ignorância. Pela normalização déspota e segregadora de alforrias individuais. À diversidade autónoma, e autóctone, sobrepõe-se a regra. E a tolerância é uma utopia nos manuais escolares. Académicos e com linguajar regulamentado. De vez em quando uma incursão. Um desvio. Mas controlado e muito bem explicado. Enquadrado por desígnios correntes e muito bem cuidados.

 

Falo de palavras e de sintaxe. De idiomatismos que adornam o falar. Que definem fronteiras afectivas. E cuja riqueza lexical ultrapassa normativos e acordos. Apenas e só, porque genuínos. Melódicos e perifrásticos. Por isso, fantásticos. E muito respeitáveis.

 

Falo de sonoridades de verdade. Enternecedoras. Faço-o porque me lembrei da minha prima Laurinda. Uma rapariga acantonada entre o Sado e o Atlântico. Mais tarde fugiu para a cidade. Perdi-lhe o rasto.

 

Ó Laurindinha, vem à janela 

Ver a tua prima, que ela vai p'ra longe

Se ela vai p'ra lá, deixá-la ir 

Ela é moça nova, mas não torna a vir 

Ele não torna a vir, se ela não quiser 

Ainda vem a tempo, de te ver mulher.

 

A minha prima tinha a singularidade de cantar palavras. De enrolá-las na areia. E tinham sabor a maresia. E o volume das marés. As palavras da minha prima iluminavam-se com uma consoante rolada. De carácter vibrante e muito soante. Arreia, isto é arreia! Ó rapariga, arreia é pôr no chão e eu não tenho nada na mão. Tanto que ela rria! A ignorante era eu. Na verdade, ela pronunciava areia como eu. Mas mais molhada.

 

E hoje, sempre que me ouço, sinto-me apátrida. Porque as minhas palavras não rolam os rês. E eu gostava de ter uma pátria linguística. Como a minha prima Laurrinda.

 

 


Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

ensacar

azeitoninhas

 

                          Paola

 

 

O léxico mostra-se nas palavras. Todas as que a nossa língua tem. E tem tantas que não caberiam num saco. E dessas, muitas são as minhas e as tuas também. Vocabulário rico ou pobre. Diversificado ou repetitivo. Parco, brada a Andreia. Gostou da palavra, que não constava do seu magro vocabulário, mas que descobriu num texto lido na aula.

 

Um saco enorme, dizia eu. Mas roto, afiançava o Miguel. O rapaz lá explicava que a bolsa do léxico necessitava de ter a boca aberta e as asas arredadas uma da outra. A surpresa instalou-se nos olhos de quem defendia a tese do saco fechado. Assim como os sacos para lixo em rolo, em alta e baixa densidade, resistentes e estanques. Práticos e fáceis de abrir. Impenetrável! Garantiam. O Miguel escutou. E afirmou ter a certeza que o saco lexical tem portas e janelas. Umas vezes fechadas outras entreabertas. Às vezes, mas raramente, fechadas. E o pobre do rapaz ia perdendo o fôlego com tanta oposição. Teimoso na sua certeza, enfrentou a multidão e perguntou se entrava alguma coisa para um saco atado. Não! Responderam de imediato. Aí está, concluía o pequeno, então o saco tem que estar aberto para que novas palavras possam entrar. Ah!!! Pois é. Entram os neologismos, os estrangeirismos… Ai, professora, tantos ismos. Atenção que os arcaísmos não saem. Ficam por lá… abandonados. E há quem troce deles, o que é coisa ruim.

Professora, conduto é um arcaísmo? Não! É aquilo que se come habitualmente com o pão... Eu sei, profesora! Mas é um arcaísmo ou não? É que a minha avó está sempre a falar no conduto, professora. Apenas para algumas pessoas... para outras não. Vamos falar de regionalismos, vamos? Mais um ismo!!!! Lá por mor disso falemos de popular!

 

E falámos. Só que não lhes contei das saudades que tenho de comer pão alentejano, do verdadeiro comprado na venda, sem conduto. Facto que punha a minha avó materna em alvoroço. Então, a rapariga não quer toicinho com o pão? Nem água-mel?
Ainda, hoje, me recordo como um naco de pão alentejano me fazia entoar lindas canções, garanto que Deus não me deu voz para cantar, e como o conduto não tinha importância nenhuma. Nem a minha avó se ralava com regionalismos ou popularismos linguísticos. O que ela queria era que eu fosse feliz. Que comesse muito. E que engordasse também.

 

Mas o que eu gosto mesmo é de pão com azeitonas. Que era o conduto preferido da minha avó materna. Tudo em alentejano. E lamento que os meninos de agora já não saibam o que é conduto. Falam em mortadela, fiambre, creme de chocolate, compotas, sem saber que  pão com manteiga não é uma opção saudável. 

 

Professora, então o saco das palavras tem que estar sempre aberto, não é?

 

 

 


Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

desengonçar

de Jorge Soares

 

ela que se desenrasque

 

Falar é, sem dúvida, um acto admirável. As palavras extasiam-se. E crescem e morrem. Gargalham e choram. Dizem que sim. Às vezes que não. E tudo é mais complicado quando a dúvida se instala. Por palavras ditas. Outras escritas. Numa balbúrdia algaraviada E o instante é apenas um momento em que o silêncio se impõe. Numa frívola circunstância de conferir estrondo aos vocábulos. Na estéril falsificação do linguajar de Babel. A algazarra resulta de vozes acrescentadas na ânsia de dizer mais. De ser mais. Como se a exuberância da elocução fosse o mesmo que comunicar. E falar mais alto auxiliasse a leitura na biblioteca. As palavras caiem dos livros e escrevem poemas. E histórias de amor. Sem recear que a Torre não suporte o alarido. E a multiplicação das línguas é um castigo merecido. Ao céu chega-se na solidariedade plurilingue. No desvelo das línguas todas. Com a individualidade do vocabulário quotidiano. Com o léxico da língua que é mãe. A unicidade linguística conduz a despotismos anacrónicos. A excentricidades babilónicas. A sintaxes hiperbólicas. E as palavras dizem mais quando se calam e escutam.

A mulher opinava, no autocarro. Falava das comodidades de tempos que ela não compreendia bem. Que no dela não era assim. E a apologia de passados enterrados arquitectava-se na vaidade de os ter vivido. Hoje, não há dificuldades. Está tudo à mão. Não há esforço, sabe? Pergunta de quem carrega nas mãos vestígios da dureza da escalada. E que não custava nada ir a pé. Que agora só querem andar de carro. E afiançava que as vezes que foi escola, fê-lo a pé. Horas para cá e para lá. E que sabia escrever o nome. E agora, que quer esta gente nova? Luxo! E empregava as palavras que sabia. Mesmo que excessivamente populares. Registos de língua com elevada falta de assiduidade. Numa sintaxe liberta de peias gramaticais impostas por normas codificadas. No entanto, magnificamente mesclados com toadas alentejanas. E naqueles termos soantes, eu vi compassos e ritmos entoados. Melodias com sombra. Harmonias simples dos cantares alentejanos. Vi corpos balançados em cadências langorosas, porém ouvidos em espaços abertos e largos. Em montes pintados de azul e amarelo. E  de branco abundante.

 

- A escola fechou. Já viu? As despesas… os transportes… Que maçada!

- Ora, agora há transportes com fartura. Eu ia a pé. Se eu não fosse, o meu pai chegava-me a roupa ao pêlo…

- Isso era dantes. Hoje, felizmente, as coisas já não são assim!

- Olhe, sabe o que lhe digo? Ela que se desengonce. Eu cá desengoncei-me.

 

E desengonçar chegou-me estranho. Mas gostei e saboreei a paragoge. Ai, tantos is! Admirável língua que se desengonça na dissemelhança genuína dos seus falantes. Para se dizer uma.

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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