Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

chover [em maio]

 

que se fez em maio para maio estar assim?

 

 

 

Em Maio, a chuva cai verticalmente. Às vezes, por caprichos do vento, titubeia na obliquidade do caminho. Movendo-se na constância do traço…

 

Em Maio, a chuva murchou o seu sentir. Por isso, não sabe como tombar, receando a queda livre numa qualquer estrada horizontal… na incapacidade de orientar o número de lágrimas na inclinação do telhado…

 

Num simulacro de geometria, o esquadro risca novas rectas no espaço… A chuva já não sabe se pode chover em Maio

 

[imagem da internet]

 

 


Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

no sorriso de Isaac - o melhor são as crianças

Regressei a casa com a minha cabeça cheia de sorrisos. Recentes! Inocentes! Transparentes! Eficientes! Com eles, e por culpa deles, senti-me afortunada. Nada mais contagiante que um sorriso de criança, banalidade feita verdade quando o sorriso é de Isaac. Do meu pimpolho. Às momices acompanhadas de infantis onomatopeias, ele sorria. Todo. Boca, pernas e braços. Um riso total. O Vrom! brum!… o que ele gostou! Tanto ou tão pouco que a sua boquinha se abria de par em par, ao mesmo tempo que os seus olhitos negros cantarolavam com Sérgio Godinho… “Com um brilhozinho nos olhos…” La, la, la, la … E eu, completamente enlevada, ao mesmo tempo ridícula com as minhas mais que apropriadas onomatopeias: Mmm! huuum ! – a certificar sentimentos difusos… satisfação, espanto, o orgulho; He! he! he! eh! eh! rê! rê! – confirmava risinhos de satisfação… Ecos de um contentamento incontável e indizível. Somente deleite! Tenho para mim que não se consegue amar sem rir.

 

Aristóteles terá dito que “ uma criança só começa a rir após quarenta dias de vida", “momento em que se torna pela primeira vez um ser humano”. Que bom! E eu que pensava que era muito antes. Se esta premissa estiver correcta, o meu menino já é um ser humano.

Filósofo! Terá ele sido, mãe?

 

Hoje é Maio. Um dia para comemorar na rua ou talvez não. Um dia que reivindicou oito horas diárias de trabalho. Quarenta semanais.

 

Desculpem, sim?

 

 Não fui para a rua gritar “ Maio, maduro Maio”.

 - Fiquei em casa a rir, com ele!

 

 Não reclamei oito horas, também.

 – Quero mais, com ele!

 

  Mas quero que Abril e Maio se cumpram!

 - Para ele… para eles!

 

  E afirmo com o poeta: "Só quero que os meus rapazes sejam felizes!"


__

Estou: Afortunada!

sobre Maio - outro amigo também

de Jorge Soares

 

 

 

A 25 de Abril de 1974, eu não sabia que se comemorava Maio. Politicamente ignorante, aderi de imediato à causa. Depressa percebi que um país “orgulhosamente só” não chegaria a lado nenhum. A cooperação, a partilha, a discussão, a cedência, a vitória, o exemplo, a motivação, a auto-estima, o envolvimento, a satisfação, a autonomia são valores dos quais não abro mão. Nunca receei que a minha individualidade se subjugasse ao colectivo. Antes pelo contrário. É no confronto com o outro que me afirmo. Portugal deveria ter feito o mesmo. Para além disso, havia uma guerra estúpida a reivindicar terras que não eram suas, porém a mutilar povos que choravam lágrimas de sangue e de esperança. A minha família tem exarados no corpo vestígios desse erro tamanho. Erro sintáctico. Anástrofe desnorteada.

 

No 1.º de Maio de 1974 eu estive lá. Um mar de gente que dizia palavras de ordem, entoava cânticos e carregava nas mãos calos e dores de esperança, alegrias sem medida.  Uma fé que Abril acabara de abrir. Uma confiança projectada no futuro e pintada de vermelho. Estive lá, devo ter cantarolado, mas o meu peito esteve sempre a salvo de autocolantes – pragas ambulantes. Ainda hoje, sou avessa a insígnias. Tenho para mim que as convicções políticas, religiosas e até clubistas constituem o meu património afectivo, também efectivo. Não as dou, nem as apregoo sem mais nem menos. Dando crédito ao que se houve por aí, a publicidade paga-se caro. Então, por que razão hei-de fazer a dita? Publicidade à borla? Não senhor, obrigado. Nada como uma blusinha lisa. Nada de ornatos.

 

Historicamente, Maio remonta ao séc. XIX, 1886. Nesses tempos, Chicago reclamou direitos, a polícia espancou, matou e feriu. Paris criou o dia mundial do trabalho, em 1889. Em 1974 fazia sentido que Portugal despertasse para essa realidade. Apesar de ignorados, não devíamos permanecer ignorantes. Ainda por cima num país pobre, penhorado, sofrido, vexado. Num país que acabara de renascer e começara a cantar.

 

 

Passados 38 anos, comemora-se Maio, outra vez. Preocupa-me a necessidade do acto. Comemorar o Dia do Trabalhador, traduz-se por “os portugueses não trabalham?”? Então, o Governo tem razão… A "celebração do trabalho" ? Então, a razão salta para o lado de quem lá vai cumprindo as oito, dez, doze... horitas. É tudo uma questão de perspectiva. Do ângulo de visão. E ainda há quem apenas veja os planos, grandes, muito grandes.

 

 

Celebrar efemérides é sempre suspeito. Umas são acontecimentos foleiros, outras movem-se pelo "vil metal", outras ainda por uma lamechice doentia, mais aquelas que patenteiam um provincianismo irritante. Escassas as coerentes e livres. Não há paciência .

 

 

O que me preocupa mesmo é a indispensabilidade de comemorarmos Maio. Por tudo o que se passa aqui… 34 anos depois de Abril, Maio continua a estar magoado. Eu também!

 


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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