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ponto de admiração

ponto de admiração

28
Mai08

à janela - devaneios pelo cinema

Paola

Estuário do Sado monte Comporta, Herdade de Murta, Poisadas, Rio Sado

 

Eu vejo-o assim. Com um megafone. Talvez com um microfone na mão. Com o seu nome rabiscado em letras apressadas. A lona é vermelha. Ele é moreno, talvez resultado da dureza dos exteriores. Tem bigode, talvez por causa do génio. Já ouvi que não há acordo quanto à etimologia da palavra bigode. Uns filmaram-na na China, outros associam-na aos visigodos. Depois, há os que a consideram grega e até mesmo portuguesa. Enfim, uma trajectória de narrativas abertas. Partilho, sem qualquer fundamento,  a tese germânica. Parece que era hábito jurar pela honra do bigode, "Beit Got!". Ou seja "Por Deus!". A gritaria do “corta”, “corta”, de quem desgraçadamente observa os planos de nós. Imagino o mau humor do realizador sentado numa cadeira de lona. Por Deus, berra o homem farto de mandar repetir a cena. Arrufos de contadores de histórias.

 

A sala escurece e lá ao fundo o ecrã reluz. O filme começa com um grande plano. Um rio. Azul. Sereno. Um rio que corre tranquilamente por planícies alentejanas até se abraçar à cidade. Uma linda história de amor. Uma paixão acalorada. Abençoada por cegonhas brancas. Apadrinhada por roazes brincalhões. A câmara procura as dunas, geralmente pouco povoadas. Fixa-se numa. Um plano de pormenor mostra um casario branco. Com barras azuis. Não mais do que cinco ou seis casas. Uma delas eleva-se ao primeiro andar. A janela fez-se olho da câmara e mostra o rio e os arrozais. O areal... São cenas repetidas. O passado sobrepõe-se ao presente que está ali. A minha cabeça está cheia de murmúrios. São sinfonias com cheiro a maresia.

 

Disperso algures pela plateia, um homem toca concertina em animada interpretação. Toca-lhe como acarinhava a mulher. Sabia-a de cor por tantas vezes a executar. Tinha sempre audiência. Não muito longe dele, uma menina sustem o impulso de lhe falar, de lhe dizer o quanto gosta de o ouvir. Por essa altura, já os espectadores, homens, mulheres e crianças, se tinham dado conta que se tratava uma realização em registo de amor. De alegria. De vez em quando, o homem da concertina recita poemas. Quadras que inventa no momento. E ri. Os figurantes aplaudem nos seus corpos sentados nos degraus de uma escada que conduz ao piso superior. As personagens secundárias gritam enfado. Mas riem e cantarolam também. Os acordes do acordeão escapam-se com elas pela porta da cozinha. Chegam até ao pinheiro. Manso na sua folha persistente. O corpo arredondado sugere um guarda-chuva, sobretudo no Inverno. Mas é Verão. No tronco a casca grossa, parda e muito gretada denuncia-lhe a idade. No lugar dela surge uma coloração castanho-avermelhada. Num dos seus braços baloiça-se um balancé de corda. A menina adora-o e brinca com ele.

 

A câmara alonga-se num plano de conjunto. Fixa-se na fonte. Mostra as piteiras orgulhosas dos figos suculentos. Mas os picos, senhor! Colhem-se com uma tenaz e rolam-se na areia. Os pormenores passam em forma de analepse presentificada. Técnica de cinema. Um ângulo perfeito. Volta à fonte em jeito de clareamento. O escuro mostra um homem. Alto, com os passos cansados pela idade, cabelo curto. Muito curto. Segue descalço pela areia. Percebia-se que a manhã mal tinha principiado. O Sol ainda não tivera tempo de aquecer o caminho. O homem aproxima-se. A câmara acompanha-lhe os movimentos. Aponta para um painel de azulejos, uma imagem, uma legenda. O Sagrado Coração de Jesus, afinal a fonte tem nome. É lugar mágico, um espaço mítico, inserida num tecido feito de areia e de piteiras com cheiro a rosmaninho. Um lugar poético. Um cântaro vazio espera pelo final do ritual, apesar do cansaço dos braços que o voltariam a encher e a carregar. O homem e a fonte fundem-se num só. A água lava-lhe o rosto, os pés, as mãos. Mata-lhe a sede de viver. Ele acredita que a morte não gosta daquela água. É pura, santa, de nascente. O homem pega na bilha de barro à espera que seja de novo manhã. Repetirá a acção. Certamente!

 

A câmara abre o ângulo, vira-se para a esquerda. Não dá importância ao quintal. Às batatas-doces, às cebolas, nem às melancias. Corre desenfreadamente. Mais para a esquerda, mais... Pára! Acção, grita a claquete. A sala de cinema pinta-se de azul. É um rio. Não! É o rio nos fluxos e refluxos das marés. E os caranguejos escondem-se nos juncos.

 

No areal vê-se um enxovalho total. Uma casa pré-fabricada instalara-se ali. Que abuso! Grita a plateia. Um aglomerado de madeira protegido por fitas que proíbem o contacto de intrusos com a arte. A câmara mostra. Ali se instalou um estúdio de cinema. Um acervo de actores, actrizes, fitas, realizadores, bobinas, projectores, guiões, bandas sonoras, fotografias, ópticas... tudo a falar francês, sem acento alentejano.

 

A minha mãe chorou. Não pela praia, mas por se ver impedida, por uma fita amarela, de entrar na casa que a vira nascer. A fonte é actriz de cinema, mãe! Depois rimos. Rimos com a certeza que nenhum daqueles actores terá melhor desempenho que o meu avô.

 

Numa película a preto e branco... com sabor a mar!

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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