Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

contar [no resto das sombras]

 
 
- Somos nós três. Na rota do Sol…
- Dois. Eu não conto…
- Eu vejo três. Um… dois… três!
- Não vês!! Mas crês?
- Sim! Um… dois… três…

- Conta outra vez. Apenas o que vês.

- Já o fiz. A conta está certa. Três!

- Amigos, a sombra não conta…
- Sou eu!      
- Não! Não! Descortês!
- Amigo, a sombra não amedronta…
- A do medo sim…
- Vocês?
- Da periferia do mundo.
- Da ausência da luz.

- Eu estou aqui. Dentro de mim. O exterior não conta!


 
 

 


Terça-feira, 26 de Maio de 2009

arder [entre a verdade, a mentira e o impedimento]

 
 

Acordei destapada pelo Sol que entrara afoitamente pela janela. Que descuido, o meu! Assim, como se eu fora raios que ele desbaratara em criança… Não era! Nem sou!

 

O meu corpo desejou chuva. Ao menos, ela chorava a meu lado. Molhávamos as mágoas. Emergíamos das dores. Do alto. No aprumo de ser.

 

Subitamente, lembrei-me que não posso apressá-la. Ela cai quando quer cair. E tombar. Na genialidade de acontecer. Escorregar. Alcoolizado desejo de molhar. Tantos rostos! Muitos! Copiosamente…

 

E eu cheguei a acreditar que ela apenas molhava o meu… Só que nunca aconteceu. Cheguei a pensar que estava apaixonada, mas descobri que era apenas desejo. É que eu sinto pela chuva a mesma coisa que sinto pelo Sol...

 

[fotografia de Ricardo Silva]

 

 

 


Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

patear

 

 

e por tanto patear, até chego a pensar que o pato plagiou as penas do pavão. que disparate! como se a ave galinácea deixasse!! eu é que nem reparei que o lindo palmípede é de verdade. não foi por mal. é que por força da vaidade, há muita ave a acusar o pavão.

 

 ser vaidoso sem ter arte é coisa condenável. a estéril vaidade não merece perdão. o pato é um pato. o pavão é um pavão. só não vê quem tiver fraca a visão, pois a prosápia é humana condição. nem consta que a bela ave tenha interesse pela mitologia. de narciso nunca ouviu falar. e, em sinal de desagrado, o pato pateia com as patas no chão que o narcisismo é um mal global. grasna ele e grasno eu.

 

fotografia de Jorge Soares

 

 


Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

mentir

da Internet
 
 mentiras persistentes 
 
Era uma vez um menino muito mentiroso. Todos os dias dizia mentiras como se estivesse a falar verdade. Vomitava mentiras como quem desabrocha verdades. Dizia-se que tinha perdido o tino, coitado. Que tinha sido apossado por uma daquelas estúpidas doenças que roubam o juízo às pessoas. Sempre que mentia jurava que era verdade. E acreditava!
 
Certo dia, a caminho do emprego, avistou uma claridade assombrosa. Excessiva e refulgente. Ofendida e grandiosa. A excitação arrastou-a para o local. A ignorância do facto não lhe daria descanso. Foi ver.
 
Incrédulo e amedrontado, aproximou-se mansamente. A multidão empecilhava-lhe os olhos. Ouviu gritos histéricos. Clamores extravagantes. Alaridos excêntricos. Irreligiosidades arrogadas. Deus!! É Deus que veio cá abaixo. É Ele, eu conheço-O bem. Jurava-se em uníssono. E as mãos desenhavam o Sinal da Cruz num sacro ritual. Pai Nosso que estais no céu… E o rapaz não cuidava a razão d’ Ele estar ali. Chegaram-lhe ralhos e muitas admoestações. Deus estava arreliado. E ele não percebia se era por estar ali. Tu! A divindade apontou-lhe um dedo de reparos.
 
Deus avisou. Só mais uma mentira. Durante toda a vida. E acrescentou que o limite já fora ultrapassado. Que a tolerância acabara. Que lho quis dizer pessoalmente, porque não confiava nos emissários. E o menino chorou mentirosamente. No entanto, prometeu. Afiançou que não mais mentira. Intrujices nunca mais, nunca mais… Certo que não poderia cumprir.
 
E contou que tinha conversado com o Senhor… Mentiroso! Mentiroso! Mentiroso! Insultos e ultrajes de quem não sabia a verdade. Que enorme crise de desconfiança! Uma mentira! Nem mais uma, dissera-lhe Ele. Entrou em casa a pensar se  Deus saberia. Se mentir é o mesmo que não dizer a verdade. 
 
Conta-se que o menino não aprendeu a lição. Extraiu pouco do muito. Porém, vive imensamente feliz. Não se tem a certeza se será para sempre.
 

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

mascarar

 Não sou nada.
 Nunca serei nada.
 Não posso querer ser nada.
 À parte isso,
tenho em mim   todos os sonhos do mundo.

 (…)
 Quando quis tirar a máscara,
 Estava pegada à cara.
 Quando a tirei e me vi ao  espelho,
 Já tinha envelhecido.
 
                                                                                                                    Álvaro de Campos, Tabacaria
 
A máscara põe-se e tira-se. Um adorno na cara de muitos. Um disfarce no rosto de tantos. Rituais assumidos, dissimulados e maliciosamente astutos. À noite, limpam-se impurezas e excessos de untuosidade vergonhosas. A pele descansa, renova energia. Acorda de manhã disfarçada de alegria. E sai para a rua decidida a camuflar as linhas de expressão adquiridas de véspera, sem perceber o embuste.
 
A máscara é beleza, o rosto é que não. A caraça é criação fantástica. O semblante demora-se em manifestações diabólicas. Gravita em torno de mistérios obscuros, grotescos e sinistros. Isenta de culpa, a máscara cumpre a sua missão. O rosto é que não! Porque acessório na cara da gente. Aqui, não cumpre a obrigação. A máscara deixa de ser um genuíno adereço e adquire um carácter enganoso. A máscara esconde a identidade. Metamorfoseia a cara de quem a põe. E os heróis transformam-se naquilo que não são. Os desnaturados no que são. E nada sobra da verdade. Assumem-se actores de comédias gregas. Rostos mascarados com cara de virtude. Vícios, alegrias, usuras e tristezas disfarçadas. Papéis que sobraram. Que galgaram o tempo. E tremeluzem nos recreios sociais.
 
A mascara disfarça-se. Mostra-se e revela. Galhofa na participação em rituais. Atemoriza e magoa na transfiguração. Amedronta na representação de seres maravilhosos. Invoca os deuses ao mesmo tempo que os animais. E dança e dança em movimentos infernais. A máscara é tudo e nada e raiva e dor. É fundamentalista. É estética. Monstruosidades e beldades. É sim e não. Sobressalto e distracção. É múmia e carnaval. Proibição e alarido. Hipocrisia e falsidade. E sorri com as lágrimas da outra. Mentirosas, evidentemente. Polaridade bicéfala. Disfarce convocado. Inconvenientes repetidos de depressão e mania. Dualismo danado.
 
Abarrotada de ilegalidades, a máscara esmorece interdita. Repentinamente renasce mascarada de medo. Grita pela privacidade. Quer ver e não ser vista. Ouve sem ser reconhecida. Refugia-se no anonimato, porque não tem coragem. Sucumbe ao desgosto. Não pode mostrar. Não quer dizer porque a obrigam a calar. Uma espécie de calvário. De percurso para a cruz. A máscara chora pela outra que se ri. Pranteiam as duas. Riem as duas, porque se perturbam com a disparidade entre o que são e o que deviam ser. Desfigurado rosto que não vê o rosto que eu mostro! Com a nobreza do ver. Do poder olhar e explicar.
 
E eu acredito que chegará o momento em que as máscaras cairão. Cedo ou tarde, os rostos serão mostrados. A verdade também. Resta saber de quem será a iniciativa. Se da máscara, se do rosto.
 


 


Terça-feira, 22 de Julho de 2008

peneirar

traições amigáveis

 

 as 3 peneiras

 

Ao passar pelo Revisitar a Educação  deparei-me com este texto de António Botto. O boato e a mentira não são invenções modernas, todos sabemos. Deve ter nascido no momento em que o Homem começou a ouvir. Depois a falar. Há muito que andam por aí, têm a mesma idade que nós. São males danados na vida da gente. Propagados por quem não tem nada para fazer. Também por quem os edifica na má fé. Na ingorância ou na vontade descontrolada e narcísica de afirmação. São bocas escancaradas convencidas que morder é próprio do cão. Existem mentirosos de todas as cores. Temos boateiros de todos os sabores. Que os há, há.

 

Etimologicamente, o grego allegoría significa “dizer o outro”, “dizer alguma coisa diferente do sentido literal”. Talvez não seja o caso. Não há sentidos ocultos. Interpretações hermenêuticas. Se uma alegoria é aquilo que representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma inferência moral, então este texto é uma alegoria. Ou quase.

 

Vale como exemplo.


O pequeno Raúl saiu da escola a correr, chegou a casa muito excitado e, depois de beijar a mãe, exclamou:
- Já sabes o que dizem do António?
- Espera um pouco, tem paciência. Antes de principiares, lembra-te das três peneiras…
- Mas quais peneiras, minha mãe?
- Sim; vais ouvir e saberás. A primeira chama-se verdade. Tens a certeza de que é certo o que me queres dizer?
- Não; se é certo, não sei.
- Vês?... E a segunda chama-se benevolência. Será benevolente, será boa, essa notícia?
- Não, minha mãe, não é boa.
- E a terceira chama-se necessidade. Será necessário repetires tudo isso que te contaram desse teu camarada e amigo?
- Não, minha mãe.
- Pois se não é necessário, nem benevolente, e talvez nem seja verdade, entendo que é preferível, meu filho, calares a tua boca.


In Os contos de António Botto (1942).

 

 


Sábado, 19 de Julho de 2008

intrujar

 

afingimentos desnecessários

arroz genuíno

 

Ao sábado como arroz-doce. Na dona Perpétua, como sempre. Uma gulodice ao fim-de-semana. Banal. Corriqueira. Gostosa. Admirável. Prefiro as coisas simples e verdadeiras. Sem intrujices com sabor a canela. Sem astúcias com cheiro a limão. Gosto que os meus sentidos estejam despertos para a verdade açucarada de uns bagos desfeitos em leite fervente. Não os quero atiçados por estranhezas cozinhadas ao intervalo. Quero comer arroz-doce que me saiba a arroz-doce. Odiá-lo-ia se não fosse assim. Se um dia me souber a embustice não vou ter com ele aos sábados. Nem noutro dia qualquer. Mas ficarei decepcionada e muito amofinada.

 

Que eu minta, menos mal. Se as estatísticas dizem que eu o faço a cada cinco minutos, que seja. Afinal, toda a gente mente com quantos dentes tem. O arroz não, que é genuíno.

 

Verdejantes plantações. Terraços de verde que eu via da janela e que ainda persistem na minha memória. Lá estavam eles muito quietinhos, com os pezinhos na água. Quando o vento chegava ficavam desinquietos. E as ondas de verde propagavam-se no horizonte. Na monda do arroz, elas cantavam e cobiçavam os rapazes com sorrisos e olhares. Os braços rebaixavam-se na água a desenraizar as ervas daninhas. A sua vida era fazer essas coisas e molhar-se no solo alagado. E cantar com as mãos enrugadas e calejadas. A voz era límpida e sorria sempre que via crescer as espiguetas do arroz. E rezavam para que a colheita fosse boa.

 

O arroz não disfarça. É assim e pronto. As pessoas é que não. Movem-se por interesses que extravasam as valas dos arrozais. O arroz rodopia ao sabor do vento e dança com ele. As pessoas não ouvem o que ele lhes diz. Com doçura. Olham para o Sol e querem a luz só para si, mesmo que o mundo fique às escuras.

 

Enquanto for capaz, não deixarei de comer arroz-doce. Só por ser autêntico. Como os olhos celestiais com quem o partilhei. E tudo foi tão gostoso!

 

 

(Fotografia da Internet)

 


Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

sem algemas - aqui minto descaradamente

a  Aqui sou seu. Sem correntes, sem algemas, sem peias que lá fora me impõem. Aqui revelo-me como sou. Aqui dispo-me de circunstâncias conjunturais. Aqui sou apenas refém de mim. Aqui posso colorir a liberdade com as cores que eu sei de cor... Aqui digo sem medo de represálias. Aqui digo verdades. Aqui digo mentiras. Aqui finjo ambas.

 

Aqui minto descaradamente. Tudo é fictício, tudo é teatro. Na verdade, todos enganamos, todos mentimos. Máscaras e mais máscaras que se revezam entre a comédia e a tragédia. Nada as impede de percorrer ruas, cidades, países, o mundo. Jardins proibidos. Paraísos inventados. Vidas fingidas. Aqui, há que simular, há que aparentar. Tudo é hostil, tudo me irrita, tudo me afecta. Tudo amo. Tudo se constrói num imenso deserto mental do qual nem sempre soube, ou não quero, sair.

 

Aqui mostro-me transparente. Exponho a minha nudez aos vosso olhos. Aqui me oculto na opacidade do meu corpo. Aqui  exibo a minha pele translúcida. Aqui sou como sou. Ficção que a vida escreveu. Sou Menina e Moça que já fui; errei por Cidades e as Serras; sou Gente Singular. Sou Húmus, sou Clepsidra, sou Tanta Gente, Mariana... Perdi-me no Labirinto da Saudade e reencontrei-me no Vale da Paixão. Chorei quando O Principezinho me fez sobra, sorri ao ver a minha morte julgada na Barca do Inferno. Colhi A Maior Flor do Mundo, fiquei estupefacta perante a Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho. Irmano-me na sorte de Os Bichos e até sei Um Segredo sobre passarinhos... E porque a Demanda  se faz desejo de cor nunca vista, eu não Sobrei da História dos meus Pais, seguramente. Aqui posso partir à descoberta do Conto da Ilha Desconhecida saindo pela porta das decisões. Ou aguardar calmamente à porta dos obséquios. Aqui posso Falar Verdade a Mentir ...

 

Aqui, nem sempre sou eu! Aqui eu posso não ser eu, sendo eu! Eu cumpro-me no paradoxo de ser e não ser. Eu sou porque tu existes... Eu sou produto da evolução da minha espécie e espero que a selecção natural actue sobre mim e melhore a minha adaptação a um meio que fere e que dói.

 

Ignoro de quem descendo. Rezo para que não tenha em mim um réptil derrotado por um qualquer dinossauro.

 

Dinossauro tem feminino!Tem?

 

 

(Imagem de Alma Em Flor)

Estou: Admirada!

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
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