Sábado, 1 de Agosto de 2009

subir [o caminho inclinado]

Ela subia a calçada ao ritmo do andamento das marés. Acompanhada pela ténue luz da lua. No corpo, levava a ondulação do vento. Maresias de palavras naufragadas. Com as mãos, abalroava dunas de doces ventanias. Nos cabelos, resplendecia a derrapagem das gaivotas. Pulava naufrágios e destroços. As pontas dos dedos pegavam pedacinhos de horizonte. E migalhas de espuma recebidas à noitinha. Içou as velas. Entrou. E amainou o seu incerto navegar. Talvez um dia as perguntas, que ainda constrói, desapareçam.
 
Na ombreira das portas, as mulheres salivavam desinteresses desfeitos nas bocas deslavadas de inveja.
 
No postigo das portas, os homens lambiam-lhe o andar. Sempre que subia aquela calçada, ela calçava sapatos de licor de amora.
 
[imagem da internet]
 
 

 


Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

arder [entre a verdade, a certeza e a ilusão]

la femme du trésorier, Wassili Tropinin

 

 

 

O Sol nasce com tanto brilho no seu esplendor! Solta-se do céu, esbanja regaços de luz... ofusca o meu saber… Enquanto resplendece no delírio da evidência, eu ardo na teimosia de ter razão… tal como o céu, a felicidade é uma utopia.

 

Ao Sol, embriago-me com uma taça de sonhos… E bebo muito. Insano desconcerto… Até sorvo o equívoco. Até a taça ficar vazia… Até ser noite…Até ser dia...

 

Com Sol, a verdade desamarra-se da ilusão… Então, na mais real e  clara realidade, sobra-me tempo para ser feliz…

 

 


Terça-feira, 26 de Maio de 2009

arder [entre a verdade, a mentira e o impedimento]

 
 

Acordei destapada pelo Sol que entrara afoitamente pela janela. Que descuido, o meu! Assim, como se eu fora raios que ele desbaratara em criança… Não era! Nem sou!

 

O meu corpo desejou chuva. Ao menos, ela chorava a meu lado. Molhávamos as mágoas. Emergíamos das dores. Do alto. No aprumo de ser.

 

Subitamente, lembrei-me que não posso apressá-la. Ela cai quando quer cair. E tombar. Na genialidade de acontecer. Escorregar. Alcoolizado desejo de molhar. Tantos rostos! Muitos! Copiosamente…

 

E eu cheguei a acreditar que ela apenas molhava o meu… Só que nunca aconteceu. Cheguei a pensar que estava apaixonada, mas descobri que era apenas desejo. É que eu sinto pela chuva a mesma coisa que sinto pelo Sol...

 

[fotografia de Ricardo Silva]

 

 

 


Domingo, 24 de Maio de 2009

Fazer [num árido sistema de vasos comungantes]


 

 

Nos dias em que nada faço, vejo aquilo que os outros  criam. Então, no silêncio da minha letargia, ponho-me a olhar… E uma grande incerteza enfraquece o meu pensar… Não sei se eles sabem o que estão a fazer… ou se é tosca a janela por onde estou a espreitar!

 

 

(imagem da internet)

 


Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

acordar

Acordou cedo. Os olhos espreguiçaram-se vagarosamente… Amanheceram e espreitaram o reflexo da luz que entrava pela janela ainda presa a ferrolhos nocturnos. Vaguearam pelo espaço que distava entre o seu corpo e os passos dos sonhos que a acordaram. Serenou-os, deitou-os aconchegadamente na almofada de adormecer ilusões emolduradas. Da cor da claridade. Com cheiro a água fresca.

 
Acordou tarde. Sorriu. Embrulhou-se no silêncio da noite. Fechou os olhos e viu o Sol fulgurante que lhe aqueceu as cores frias da sua alma.
 
 
Acordou e escorregou pelo dia com telas clandestinas no olhar…
 
 
[fotografia AAPPL]
 

 


Segunda-feira, 23 de Março de 2009

des-formar

http://i192.photobucket.com/albums/z259/lightmylife/voar-1.jpgo acto de alterar 

de filha a mãe e ao contrário

 

 

 A Maria era uma menina. Um daqueles seres que transportava o mar nos olhos e a paz no coração. O corpo servia-lhe para saltar de pedrinha em pedrinha, depois de mergulhar nas águas do ribeiro da sua infância.

 

Naquele dia, Maria acordara cedo. A manhã acontecera no chilreio dos pardais que, sorrateiramente, se desagalhavam  dos beirais. Há tanto que a menina a esperava nas suas redacções primaveris! Apesar da ortografia, a Primavera chegou na alvura da manhã.

 

Maria levantou-se apressadamente. Tomou o pequeno-almoço despachadamente. E preparou-se para sair sorrateiramente… Não queria acordar os pais. Não por eles, mas por ela. Mal levantou os olhos da mesa, gritou. Tanta foi a perturbação que se ouviu no rio. À sua frente duas crianças disputavam o lugar à janela... empurravam-se… batiam-se… mordiam palavras encarniçadas… Maria ordenou-lhes que se calassem. Mostrou-lhes a imbecilidade do comportamento. Ameaçou-as com o chinelo. Com o quarto sem televisão. E estranhou-se… mais se desconheceu no exacto instante em que as desassossegadas criaturas lhe obedeceram… No vidro da cristaleira, viu-se mulher. Por isso, tornou a bradar. Uivou uma alcateia desvairada, na melhor imitação que alguém já conhecera. Embasbacada. Estarrecida. Aturdida. Beliscou-se, flagelou-se, lavou a cara, esfregou os olhos, saltou, pisou-se, engasgou-se com palavras do recreio da escola...Tinha-se, de facto, transfigurado numa mãe-mulher. Com dois filhos para cuidar, exactamente aqueles que a amamentaram. E não sabia a explicar a transformação!

 

Maria entristeceu repentinamente. Acabara de prometer a si própria que seria eternamente criança…  abraçar a vida com linhas rectas de abraços.Tudo mudara. E agora? Maria não encontrava respostas, até porque as deixou de procurar. Não fosse a morte encontrar, por tanto a desejar…

 

Maria estava aterrorizada e tão triste, a triste. Adulta? Assim, de um momento para o outro? Como foi possível? Não ouviu a resposta. Morreu de desilusão. Houve quem garantisse que não. E falava-se  numa enorme perda de ilusão.

   

 

[imagem da internet]


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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