Terça-feira, 7 de Abril de 2009

cantar

o mundo não perderá o seu cantar

 
 
O mundo, por tanto gritar, acaba por se calar. Então, toda a gente brada o assombro do sumiço da voz.
 
Mesmo privado da linguagem, o mundo ergue as suas mãos ténues sem tom e afiança que não perdeu o cantar. E numa melodiosa inflexão, solfeja, num tom sentido, ventos tão harmónicos que os anjos emudecem admirados.
 
E de tanta gente, tanta, muitos houve que não o ouviram… No meio da multidão, Orfeu enxuga lágrimas gastas por muito suplicar... avança...  e escolta-o no mesmo cantar. Irmanados,  entoam uma resignada melodia do amor. Quem ouviu, diz que se emocionou com o fado...
 
[imagem da internet]
 
 

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

dessintonizar

 

 
 

Sugestão de fim-de-semana
 
 
 
 
 
Ame muito. Peça boleia. Estranhe-se. Case e descase. Escravize-se. Escreva um livro e leia outro. Sorria. Regue as flores. Cante. Acorde os vizinhos que lhe empecilham uma morte quieta. Pule a cerca e beba chá. Não toque na caixa do correio. Cometa erros. Assassine saudades. Sacie-se de si. Esqueça a bomba e as metralhadoras. Dispa-se e vista perfumes de paladares para os quais nunca olhou. Agarre os pedaços de solidão que vadiam pelo chão, coloque-os numa caixa de cartão, não vá, um dia, precisar. Ame tanto, ame sempre. Sem se assustar com a perda. Saracoteie languidamente o corpo.  Salte no trampolim e agarre o céu. Permaneça torto no seu canto. Despreze a estrondo do tiroteio que acontece no andar de cima. Feche os olhos à sujidade do mundo. Reze e blasfeme contra o presente imperfeito que o coagem a aceitar.
 
Sintonize-se com a música. Com os livros. Consigo mesmo. Respire fundo, dessintonize-se. Aferrolhe a porta não vá o vento caber. Tome conta da roupa da cama. Dispa-se com cautela. Sossegadamente, para não arranhar a pele.
 
Faça tudo como se fosse a primeira vez. Ria com a sofreguidão da última… mas dessintonize-se.
 
 
Não corra. Para quê tanta pressa? Segunda-feira, quando sair, verá que a terra não se desintegrou... nem se lembrou de si. A morte de uma pessoa apenas é desgraça no miolo da dor... nos jornais é sempre estatística.
 
 

[fotografia da internet]

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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