Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

re-nascer

quando nasci não percebi o rio do meu nascer 

 

 

Em Abril __________ rasguei o ventre da minha mãe ___________ surgi nua de despudores ___________ para me saber no depois __________ aconchegada em lençóis de espuma que o rio bordou para mim __________ emergi de ternas tormentas __________________ amparou-me em mãos doces _________________ em Abril __________  ainda faltavam duas horas para o dia ser outro ___________ em Aprilis ilimitado no ressurgimento __________________ abri a boca a safras de admirações _____________ chorei alaridos de vida ____________ chegados ao outro lado da cidade ____________ nasci em Abril _________ quase ao pé do rio _________ não aconteceu nada no mundo quando eu nasci _________ tão-somente o sorriso dela desviou a Lua por estar a brilhar ______________ nasci em Abril __________ num luzente mês de carinhosas brisas espalhadas ____________________ sorria pelo Sul _____________ pelas papoilas escarlate _____________ com as azedas amarelas a baloiçar______________ hoje, não celebro o dia __________ antes a origem ____________ que naufragou antes do Inverno chegar_______________ porque navego por aqui _______ redemoinhando à tona da grandiosidade que me gerou __________ no seu rio ___________ em Abril.

 

 

[fotografia de Diego Sousa]

 

 

 


Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

nascer

meninos para o futebol

Sempre tive para mim que nascer é um verbo admirável. Só nascer. Às vezes renascer. Mas poucas, porque não acredito nessas coisas. Entre o nascer e o morrer está a vida. Que é um percurso. Curto, sempre. Quando longo é insuficiente, porque a morte chega sempre adiantada.

 

Nasce o Sol. Nasci eu. Nascem as papoilas no campo. E na pernada do sobreiro há um ninho. Estou a ouvir os passarinhos. Nascem palavras das discussões. E são demais. Dizem o que querem. Arrependem-se depois. E nascem romances grandiosos. E poemas. Por vezes, nascem amizades sublimes. Para a vida. Também na morte. E de estremecimentos transpirados. De indecisões contidas nascem viçosas cartas de afectos declarados. Quem sabe se também nasce o amor. E dos casulos nascem as borboletas. Bichos-da-seda que só pensam em comer e comer. Nas amoreiras as folhas nascem verdes e as amoras negras. E da rota da seda nascem histórias e lendas. Verdades e mentiras. E riquezas. E se tudo acontece deste modo, está bem assim. Certo é, certo está. Nascem desejos no corpo e arrependimentos nas mãos. Na boca nascem palavras de emoção. No canteiro do jardim, nascem rosas amarelas. E alfazemas disfarçadas de alecrim. Um ribeirinho nasceu ali. Tão pequenino. E corre, corre, corre. E já muito extenuado enlaçou-se no rio e, os dois, correram até lá chegar. E, deste modo, nasceu o mar.

 

Nascem homens e mulheres. Nasce a esperança. E há muitos anos nasceu o Menino Jesus. Fez-se homem. E nasceu a crença. E nasceram atritos. E injustiças e guerras. Eu nasci tranquilamente no convento. Que nasceu hospital. Numa terra que nasceu azul. Por causa do rio que se despejou no mar. Depois saí. E nasci assim.

 

A natalidade é desgosto tremendo. As aves perdem as árvores. Queimadas. Coibidas no jardim. As flores não olham para os montes e vales. A paisagem é urbana. Naturalmente! E os meninos e meninas não têm espaço para aparecer. E o país lamenta o que tem. Que em vez de nascer, envelhecem e morrem a seguir.

 

E fiquei a saber o verdadeiro drama da carência. Disse na televisão que é fonte credível. Com imagem e som. A cores. Garantia a senhora que isto agora é uma maçada. Que já não se fazem meninos como antigamente. Que as consequências são avassaladoras, acrescentava. Muito versada no assunto. É que sem meninos, os jogadores de futebol acabam.

 

E percebi que o meu clube não pode fazer milgares. E é forçado a procurar jogadores no lado de lá. E acolá. E viva la Espanha! A senhora fez a sua parte? Eu fiz a minha. Dois rapazes. Apenas errei nos nomes. Ninguém nasce perfeito!

 

Fotografia de João Palmela

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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