Sexta-feira, 19 de Junho de 2015

Convento de Jesus [no tempo dos hospitais]

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... porque me apetece falar com um tempo que ficou parado. na margem do rio. às vezes, vou até lá. conversamos um pouco. ele conta-me histórias e eu lembro-lhe a imaginação fértil que o faz azul. é nesse instante que me mostra fotografias. nasci ali. quando o hospital ainda não era museu. e ele, com a genoridade das mãos que desenham, decide lustrar os contos da minha mãe. não ficaram mais belos. apenas documentados... e, caso eu não soubesse, lembrou-me que ela ficou preocupada com a aspereza das freiras!

 

(Fotografias do Município de Setúbal)


Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

re-nascer

parabéns!

 

Hoje, cumprem-se dois anos da tua vida. Naquele dia, já à noitinha, as flores pintaram-se de cores admiráveis. Os pássaros entoaram cantigas de embalar. Ainda mais harmoniosas. Também mais inolvidáveis. Magníficos acordes. Excelsas consonâncias. O sol brilhou com nova pujança. E nessa noite, as estrelas sorriram. Choraram lágrimas de rir. E silenciaram-se porque as palavras emudeceram no sublime momento em que te vi. Nenhuma fazia sentido. A comoção espalhou-se pelo meu corpo com a certeza de te ter ali.

 

Sabes, Vénus é a deusa do Amor e da Beleza. E que importância tem, se tu és vida e corpo que eu posso beijar? O seu nome tem epítetos forjados no mito. Nada comparável com o teu, mesmo que ignorado por Camões. O teu canta a aglutinação de santo e lago. Pressagia que suplantarás os escolhos da existência. O teu nome tem orgulhos e audácias. Arrojado. E com ele cumprirás êxitos e paixões. E o teu epíteto já é adorado. O templo, em que vives, não tem a mesma grandiosidade que o da deusa-mulher. Não faz mal. O mito foi publicado no papel. Alegórico e simbólico. Moldou o sagrado de devoções que já não existem. Tu és. O olhar de Vénus é vago e perdido na tela. Os seus olhos, quase estrábicos, foram um ideal de beleza. Os teus têm mar. E céu. E o deslumbramento que o admirável proporciona. E entre o Renascimento e o Nascimento, eu escolho-te a ti. Na epopeia camoniana, é deusa-madrinha dos heróis. lusos. Um ornato secundário. Mitológico. Porém, o maravilhoso és tu.

A pele de Vénus é da cor do marfim, com confusão do branco, amarelado e rósea. É excessivamente perfeita. A tua tem brilho natural. Sem amálgama de tintas. O cabelo de Vénus alarga-se e ondula pelo corpo, aprisionando-se na tela de Botticelli. O teu é Sol e luz e brilho. Naturalmente, vida.
O rosto mostra-se eternamente jovem. Que importância tem, se mentir é feio? A boca perdurará fechada. E tu choras e ris e dizes palavras ainda incompreensíveis. Olhos claros? Ela que olhe para ti. Ostenta uma fisionomia de melífera melancolia. A brandura da feição insinua uma benignidade moral que purifica a deusa pagã. Não te importes, meu menino. Às vezes, tu és assim. Mas muito mais. Ela não ri, nem chora. Coitada! Nem há notícia de ter gargalhado. A atitude é de estátua envelhecida. Nada que se compare com a frescura das correrias que fazes no jardim. E também tu representas a natureza plural do amor. Quanto às qualidades espirituais e humanas? Estimo-as superiores. Sim?

 

- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, vó!

- Amo-te!

- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, vó!

 


Domingo, 17 de Agosto de 2008

galopar

 

nascimento do poldro serrano

 

Os cavalos a correr, as meninas a aprender,qual será a mais bonita

que se irá esconder?

 

 

E lá vamos todas a correr, feitas cavalos de corrida. Crinas ao alto. Olhos esbugalhados. Escondemo-nos. No buraco que chegou primeiro. Silêncios sustidos. E a brincadeira gargalha o achamento dos esconderijos sonolentos. Gritos de esconde-esconde chegam ao céu. Aparece, já te vi! A decepção de ter sido descoberta. Um, dois, Três! Vi-te Rosa. És tu a ficar! E ela esperava que as outras abalassem. Sem saber para onde. Segurava a boca e os olhos que não podiam ver os percursos escolhidos. Regras do jogo.

 

Vi-te na encosta verde da serra. Aproximei-me mansamente para não te amedrontar. Não queria que fugisses outra vez. O momento é desconcertante, a beleza também. E eu enrolo-me no mais absoluto silêncio. Apenas a música das árvores invade o esconderijo. A vida que brota de ti nasce num instante serpenteado de coragem. Contemplação pura. Ele aparece. Não ouço relinchos doridos. A natureza cumpre-se nos rituais da espécie. O tempo de expectativa não foi assinalado no relógio. Quinze minutos, vinte, trinta… E já ele ensaia os primeiros passos. Dificuldades e hesitações. Sucessos. Olha em seu redor e descobre a fome. E bebeu. E tu admiras-te, envaidecida, pelo milagre de o teres em ti.

 

Aparece! Já te procurei aqui e ali. Porém não vi. Não estás em casa. Nem na rua das laranjeiras agrestes. Aquela que acede ao adro da igreja. Não te vi na esplanada empoleirada no passeio. O jogo chegou ao fim. Mostra-te. Prometo que não emito pareceres. Não te descobri no quarto escuro. Não sou capaz. A noite desmontou ali e as estrelas não quiseram entrar. A lua agasalhou o luar. Um amuo brilhante. Vem! Revela-te sem teimosia e agastamentos. Leal e verdadeira. Dá-me a tua mão. Mas aparece! Sem a desconfiança do pânico. Apanhei-te! Isto é só um jogo e eu fecho os olhos. E o verde dança com o azul no sopé da serra. Ao som da música que sobe do rio. Movimentos delicados e deslumbrantes. Aparece! A passo ou trote. Mas divulga-te a galope. 

 

 

fotografia de João Palmela 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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