Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

bebericar

bebedeiras da noite

 

               bottélon na praia

 

 

 

 

Portugal é, por tradição, um país de brandos costumes. Também por tradição, é uma terra que gosta de beber o seu copito. Nem sempre à refeição. Mas com objectivos. Sorve desgostos de amor. Ensopa tremoços e caracóis. Suga amores pela palhinha. Bebe para afogar os prantos que sopram forte. Engole as alegrias que chegam tarde. E pequeninas. Toma um copo com os amigos. Sorve o espanto de ser pai pela primeira vez e aperta nos braços a garrafa com quem passará o ano. Um gole de traição. Na flûte, um admirável gaulês. Da terra de Dom Pérignon. Que tem mais borbulhas. Uma noite sem exemplo. Depois volta ao copo de vidro e bebe o que a lusa terra lhe dá.

 

Hoje, a minha admiração tem desatinos. Porque não compreendo o gesto. A decisão. O intento. A motivação. Só se por uma ignorante infantilidade a querer ser gente grande. Ou por razão nenhuma, o que não é bom. Porque sim, tão-somente? Diz a notícia que os jovens espanhóis bebem muito. Dos portugueses não fala. Uma espécie de bebedeira colectiva. Uma orgia nocturna de garrafas no areal. E bebem. Bebem. A noite toda. Depois, já despidos de razoabilidade humana, gritam muito. E partem coisas. Dizem estupidezes. E bebem mais. Fazem burrices. Estão bêbados, não sabem. Chega a polícia que vem minorar os danos. Os desacatos persistem. E a rapaziada jura que não está a fazer nada de mal. Que é tudo normal. Que se divertem somente. E têm o descaramento de apresentar queixa porque em Espanha não os deixam beber assim. E adormecem tranquilamente. Quando acordam vão a correr comprar mais. Para escaldar a noite.

 

Acabadas as férias, levam o quê? As fotografias estão desfocadas e manchadas pelo álcool. Os corpos estão sempre a dormir. Não reconhecem rostos. Dos locais mal se lembram. Estavam estonteados. Na pele arrastam a cor das bebidas brancas. E a espuma não é a do mar. Não sabem do sabor do mar, nem do Sol. Mas vão lembrar-se que beberam muito. No areal. Do resto, não têm a certeza. Passaram por Portugal. Regressam com a bagagem despojada de férias. Porque estavam perturbados. E porque estavam completamente atarantados amaram na areia. Com raparigas também completamente aparvalhadas. Não acautelaram doenças sexualmente transmissíveis. Nem barrigas prenhes no areal. Fizeram sexo porque o afecto não fazia falta. O amor inebria-se a si próprio. Não necessita de álcool. E os jovens, porque são jovens, não precisam de se divertir assim.

 

E é com notícias destas que o alerta das campanhas se torna mentira. Admiro-me com radicalismos e proibições. No entanto, admiro-me muito mais com a abundância de informação que os jovens rejeitam e ignoram. E regressam a casa com a certeza que beberam muito. Tanto que não se lembram de mais nada. Portugal espanta-se com a notícia. Portugal é um país tolerante. Portugal não vê a publicidade que anda aí. Praia, cerveja, mulheres, sol, cerveja, jovens, corpos, futebol, cerveja, o sabor autêntico da praia. E eu pensava que a praia sabia a praia. E que o cheiro era do mar...

 


Domingo, 1 de Junho de 2008

iludir [crianças e a mentira]

rm (Piteira florida- fotografia de RMarques)

 

Nul n'ira jusqu'au fond du rire d'un enfant.                                                                                      (Vitor Hugo)

 

É hoje! Domingo de criança. Mas os garotos são flores de pita rodeadas por duros acúleos por todos os lados. Uma data projectada. Comercializada. Hipócrita. Untuosa. Açucarada. Como os figos da piteira.

 

As crianças têm bocas famélicas. Têm pizas e hambúrgueres. Têm mãos de afazeres calejados. Têm videojogos. Ecrãs LCD. Têm obesidade. Têm corpos doídos. Têm gomas e pastilhas multi-coloridas. Têm diabetes. Têm campos de refugiados. Têm quartos com Internet. Têm memórias de campos de concentração. Têm passeios nos centros comerciais. Têm centros de acolhimento. Têm a família no além. Têm ovelhas para acautelar. Têm parques infantis para rebolar. Têm livros para ler. Têm palavras e letras que desconhecem. Têm escola a tempo inteiro. Têm conhecimentos por haver. Têm pés descalços. Têm ténis de corpos fustigados. Têm pais a trabalhar. Têm família morta em cobiçosas contendas. Têm avós ocupadas. Têm a rua. Têm algemas a labutar. Têm tecnologia. Têm campos minados. Têm pedófilos e algozes. Têm piscina e sol com luz. Têm a escuridão. Têm descriminação. Têm direitos. Têm deveres. Têm futuros engraçados. Têm passados ensanguentados. Têm regozijos. Têm prantos. Têm hospitais. Têm lama e capim. Têm! Mas não têm. Depois há os habituais exageros civilizados.

 

A preocupação é tanta que se descobrem rostos carrascos onde não existem. Em ponto de rebuçado! Todos os vultos são para abater. Em muitos casos, perdeu-se a noção da realidade. Que ridículo! Ai, os senhores psicólogos que descobrem víboras no corpo, cada vez mais enroscado, de um inofensivo bichinho-de-conta. Coitado! Enrosca-se quando ameaçado... Também ele sucumbe às desgraças e infortúnios do mundo. É vítima, por vezes vexado.

 

Um dia é escasso. E o calendário tem 365 dias. Às vezes, mais um.. Eu defendo que os dias deveriam ser das pessoas. Das pessoas todas.

 

Oxalá, ninguém se lembre que das folhas da piteira se extrai fibra própria para o fabrico de cordas, tapetes…            

 

E mesmo aqui. Mesmo no 1 de Junho de 2008, as crianças têm fome. Notícia do Público!                        

Estou: admirada

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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