Quinta-feira, 30 de Maio de 2013

caminhar pela estrada [percursos de infância]

 

 

Naquele tempo, eu corria pela estrada carregada de verdes vontades. O destino pintava-se com cores sábias. Lembro-me, a nitidez das fotografias que guardo na memória não me engana, do percurso. Uma estrada comprida e negra (como todas, creio). Uns valados de terra selvagem. Uma vala pouco profunda que subia numa elevação de terra coberta de colorida e verde vegetação. Foi aí que me apaixonei pelas papoilas. Ainda hoje me perco na explosão do vermelho. Mas não é dessas sublimes flores que pretendo falar. Nem do rapaz da bicicleta que se inutilizou por uns dias numa curvada precipitada.

Da casa até à escola primária [agora diz-se básica], aprendi o sabor das ervas e as cores das flores. As azedas veneravam muito bem o apelido. O seu sabor ácido adquiria ares de néctar divino, à tardinha. As ágeis e esvoaçantes pétalas amarelas chamavam, mesmo de longe, a minha atenção. Como elas dançavam ao ritmo do vento! Depois cansei-me e deixei-as em quieta tranquilidade. Provavelmente coisas de crianças, mas não garanto.

Naquele dia, ela [não me lembro do nome da menina colega de classe] segredou-me numa voz doce e ingénua que tinha desistido das azedas. Só porque eram muito amargas. E que tinha descoberto uma melosa alternativa. E lá me contou tudo o sabia. Nada de importante, confesso. Que era uma flor e que se chamava rapazinhos. A prova ficou  agendada para depois da saída da escola. Na estrada que nos levava para casa. No valado do lado esquerdo, após a curva grande. Durante largos dias, o hábito dos rapazinhos foi mantido em silêncio. E gostávamos tanto!

É por isso, que guardo essa fotografia na minha memória. Que tenho a cabeça cheia de flores que cresciam livremente na terra. Que se deixavam comer. [Asseguro que não me lembro de alguma de nós ter ficado com viroses sem diagnóstico e coisas do género].

Hoje, no caminho para escola, dias e anos depois, reencontrei-me com o passado. Também numa curva e com uma colega. Ela olhou para o arbusto, calou a minha alegria e num tom de quem percebe muito do assunto, disparou uma Salvia microphylla Benth. Confesso que doeu. Como se não bastasse, veio com a história que é utilizada como planta ornamental e designada pelo nome comum de "Rapazinhos".

Comum? Comum? Comum? Repeti deveras injuriada.

Rapazinhos é nome próprio, assegurei sem se intimidar.

Para acabar com a científica conversa, calei-me. E caminhei pela estrada comprida e preta da minha infância.



Terça-feira, 18 de Setembro de 2012

caminhar pelo passado [para ouvir a cegonha]

 

 

Ignoro a existência de alguma lei que me barre a possibilidade de caminhar pelo passado. Com o mesmo compromisso com que ando por aqui. Deve haver, mas não me interessa a razão. Há pessoas que não têm um tempo para onde ir. Inventam leis. Não me importo. Eu vou sempre que quero. Às vezes não quero, mas vou.

Cheguei cedo à praia. Desci a duna, atravessei a ponte que cruza o canal. E fui. Molhei os pés. Sentei-me na areia. Rebolei satisfações. Vi os caranguejos que se entretinham com conversas arreliadas. Desorientados, encetavam viagens ao contrário. E voltavam sempre ao mesmo local.

Uma garça. Outra cegonha. Tanto silêncio. Um peixe sorria na água. Na outra margem a cidade. Uma onda sossegada que chegava e se desmazelava nos meus pés. Mais nada.

Entrei na água num mergulho ávido e fresco. Sacudi os cabelos. Tornei a entrar. Limpei os olhos da doçura da voz que me molhava o rosto. A minha mãe dizia-me que estava na hora de ir para cima. Que o almoço estava pronto. Que o pai não gostava de esperar. Só tive tempo de lhe responder. E gritei: já vou!


Ergui os olhos para o céu e sorri. E pensei que um dia destes hei de ir passear outra vez. No desconhecimento da lei.



Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

saborear [na rampa do meu passado]

No lado de lá, há um vale que descansa no verde. Declives suaves abrem-se a trilhos de matos caminhantes. Do moinho atingido pelas mãos do esquecimento até aos campos de pão. Predominam manchas de arvoredo. Tão verde que o vento resguarda as tintas que se aprumam no temperamento da natureza. E só para disfarçar, Éolo entoa trauteios vistosos. Rebola-se nas flores. Empoleira-se nas pontas das árvores. Ri à gargalhada. Por vezes, é tanto! Uivos de lobos famintos. Berros de telhados apavorados. Brados de árvores agitadas. Apenas as flores dançam ondas de contentamento num ritmo exagerado. Os seus corpos modelam-se na técnica de enxotar o medo. E rodopiam. E também elas riem à gargalhada. No vale. As nuvens fogem. Apavoradas. As gaivotas grasnam o mar que perderam, ao mesmo tempo que as andorinhas trinfam negras incertezas sobre a primavera. Sem perceber a razão do vento ofegar assim, num acalorado dia de verão. De longe, chega a onomatopeia diluída dos cães. Os gatos arrepiam-se ao colo dos donos. Na esquina do outro lado.

 

Hoje, havia verde. Excessivamente muito. Frondoso. Fumegante. Uma leve brisa desenrugava uma ou outra folha ensonada. Espreguiçava as flores que se aplaudiam na encosta da colina. Até ao vale. Subi a rampa e perdi-me no contemplar. Enxotada pelo zumbido de uma abelha com asas de mel, tropecei nos sabores da minha infância. E voei para lá, montada nas tílias do tempo. Para comer amoras silvestres. Das silvas. No baldio da minha saudade. Passadas largas chegaram da flor ao fruto. Do verde ao vermelho. Negras. Tão negras! A cada dentada, a minha vontade desfazia-se na língua da minha memória. Esqueci o vale. Ignorei o vento. Comi sabores de antigamente. E lembrei-me de tudo. De mais.

 

As amoras, que hoje merendei, tinham um esmagado travo a doçura… na míngua do gosto da minha meninice. Nem me recordo se tinham paladar… mas lembro-me do sabor da ausência das mãos… do aroma espalhado pelas amoras das silvas… Sepultei, no chão fértil do vale, pedaços de folhas verdes que o vento afastou… na palidez da minha fome.

 

 

 


Terça-feira, 5 de Maio de 2009

irrepetir

há instantes que são ventos na irrepetibilidade do sopro

 

 

 

 

 

Quando olho pela janela, vejo flores. E muitos  barcos... Às vezes, perco-me na imensidão do espaço, no comprimento do tempo... e penso. Penso nas paisagens que tive e sinto saudade. A minha cabeça enche-se de nostalgia...  porque são momentos irrepetíveis.  Com acordes melodiosos, a  minha memória  seduz esse olhar...

 

 

                                               [Caspar David Friedrich, Femme à  la fenêtre]

 


Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

calar

Salvador Dalí  A persistência da Memória

 

atropelos sem memória

 

Shiu! Da minha boca jorram descansos hesitantes. Usurpados e clandestinos. Dos meus lábios não escorrem palavras azedas e desconfiadas. Shiu! Oiço uivos de gente assustada. Melopeias atrapalhadas na toada dos caminhos. Andamentos vertiginosos. Shiu! E lá ao fundo, um pássaro executa primorosamente o adágio da manhã. Engulo a tentação de respirar. E do pátio regressam vozes aflautadas. Euforias guinchadas. Abraços perplexos. Bocas escancaradas vertem pedaços de mar e de sol. De ócios enérgicos. E olhos suspensos colam-se às janelas. Shiu! Escuto portas aferrolhadas que se desfecham.  Chaves que tilintam cuidados de última hora. Sorvo ânsias de falar. Segredo salvações, no intervalo, empoleiradas ao portão. Shiu! As vozes passeiam felinas no corredor. Atropelos cinzentos, mesclados de cores do Verão. Desenham-se escoltas no parapeito da janela. Shiuuuuuuu! Estou oculta. Ninguém sabe que estou acantonada, ali! Não quero ser tela surrealista. Representação irracional, longe do mundo real. Shiu! Vejo e escuto. Obsessões humanas donde escorre a passagem do tempo e da memória. Da memória que se esgota. Do tempo que tem olhos. Não sei se vê. Shiu! Estou refém de mim. Aqui! Com recordações. Sem elas, não há expectativas. Porém, o tempo desvirtua-se. E cala-se, também. Flacidamente. Como os relógios. Shiu! Estou sentada. Shiu!

 

Fotografia da Internet

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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