Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

à janela - por causa dos robalos / parte II

 r   O bote galgava metros de tranquila baixa-mar. O vento falava em voz baixa. Acariciava-nos os corpos. Não nos importávamos com a sua direcção, nem com a intenção, Aquele era bem intencionado. Somente uma brisa que voava por ali. Baixinho. No meio de tudo. No meio do nada. No silêncio do marulhar das ondas. Pequeninas. No meio do mundo pintado de azul. Com a maré baixa podiam-se ver os cabeços de areia e adivinhar os olhos de água. E ele explicava. Mostrava que conhecia o rio. Que o sabia de cor. Não lhe guardava rancor pelas traições experimentadas ao longo da vida. Ao sabor das marés.

 

- É acolá.

- Onde?

- Naquele banco de areia.

- Banco?

- Não sabes nada!

- Sei!

 

O rio estava adormecido. As águas tinham ido para o outro lado, talvez à procura de quem soubesse remar. O rio mostrava-se do avesso. Orgulhosamente despido de preconceitos. Pavimentos de areia. Chãos de lama. Poças de água. Lá dentro os peixes que, desatentos, não compreenderam o fluxo da maré. Permaneciam ali na expectativa que ela voltasse. Sabiam que voltaria. Ciclicamente. Um ciclo que dependia da Lua, do Sol e da Terra. Marés vivas e marés mortas. Eles sabiam. Preferiam as vivas. Tinham mais água para nadar.

 

- Despacha-te!

- Porquê?

- A maré vai encher…

- Eu sei!

 

Não sabia andar naquelas coisas. As sapatilhas tolhiam-me os movimentos. Usurpavam a minha autonomia de aprendiz de mareante. Ancoravam-me os pés. Ele corria de poça em poça. As suas mãos ágeis apanhavam peixes tramados pelo sobe e desce das águas. Um. E depois mais outro. As suas mãos sorriam de contentamento. As suas mãos arrastavam saber. E o prazer que ele tinha! Dei por mim a pensar que tinha sido intenção deliberada do rio. Deixar-se pescar por dentro. Por ele. Por isso, vazou.

 

- Mais um!

- Um quê?

- Um robalo!

- Eu sei!

 

As minhas pernas não o acompanhavam. Ele saltava de peixe em peixe. Transpunha todos os obstáculos gizados nas carapaças vazias dos berbigões e dos canivetes. Há quem lhe chame longueirão, mas ele não gostava. É, presumivelmente, o marisco que mais gosto a mar tem. Vive enterrado na vertical. Um aprumo de vidas sepultadas na areia. Costumávamos apanhá-los com sal, à mão. Depois, abriam-se, sobre uma chapa de metal, ao lume da rua. Comiam-se regados com sumo de limão. Dos limoeiros do quintal.E a cozinha cheirava e sabia a rio. E ele continuava a regozijar-se.

  

- Mais um!

- Um quê?

- Um xarroco!

- Eu sei!

  

E lá vinha a história do costume. Que o xarroco era um peixe feio. Predador medonho. Que apesar da "cara de poucos amigos" era fantástico. De todas as maneiras. Frito com arroz de tomate. De caldeirada também. Bicho danado, que se escondia na areia à espera que as presas passassem ao seu alcance. Comia-as num ápice. Também, com uma bocarra daquelas!

  

- Mais um!

- Um quê?

- Um choco!

- Eu sei!

 

Mais não! Antecipei-me. Pedi-lhe que explicasse tudo no dia seguinte. Já estava cansada de tanta cultura piscícola. E ele avançava como peixe na água…

 

 

 

 

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Estou: admirada

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

à janela - por causa dos robalos / parte IV

b  Contava e ria-se.  Uma história gasta no tempo e recontada quase sempre ao serão. Tinha sido o único que ousara entrar em territórios que não eram os seus. Perigosos. Um corpo de  serpente, negro, acinzentado. A boca de lábios grossos escondia fileiras de dentes esfomeados e insaciáveis. Um safio quase congro escondia-se na fenda rochosa que ele descobria. O medo cedia à adrenalina gerada pelo desafio. Os outros fugiram. E ria-se. Os seus olhos azuis sorriam, emanavam um brilho com gosto a vitória.  Enfiou o braço no buraco. Assim, às escuras. Apostava na coragem, na determinação. Na insensatez, também. Quando se é jovem o sangue corre com celeridade. O bicho estava lá e mordeu-lhe. Defendeu-se. Danado! Mas apanhei-o. Um congro! Enorme. Feroz. Garantia que não sabia como ainda tinha os dedos todos ou mesmo a mão. Quem sabe o braço. Mas tinha! A descrição hiperbolizava-se num tom quase épico. Nunca lhe percebi a dimensão. Nem me interessa. Um safio com vontade de ser congro ou um congro que um dia foi safio... Nem me interessa.

 

E remava. Num rio azul. Num céu azul. Com uns olhos azuis. Sorriu de novo quando avistou a praia. O bote entrou pela areia. Ele saltou para a água. Colocou o balde em terra. Uma terra segura que substituíra o mar. Depois deu-me a mão.

 

- Salta.

 

E eu saltei.

 

- Lava as feridas...

 

E eu lavei. Mergulhei na água azul de um rio azul. Com sabor a mar. Como se fosse uma grandiosa pia baptismal. De novo me baptizei. E renasci do alto, pela água purificadora do meu rio. Que não é Jordão, já que não havia arrependimento em mim. O sal roçava as feridas e roubava-lhes o sangue. Cicatrizava-as. O meu pai empurrou o bote para a água. Fixou-o com a fateixa e deixou-o ali. Ancorado! Agarrado a uma âncora. Para que não se desorientasse. Para que não fosse sozinho à pesca. E o bote permaneceu ali ao sabor das vontades do rio.

 

- Deve haver lume.

- Para quê?

- Para os robalos.

- Pois é!

 

E foi! Assados em lume ateado pela minha avó...

 

Hoje, na minha cabeça, há alguns brinquedos vencidos. Bonecas, poucas. Uma máquina de costura e um bote que ninguém salvou. Só porque não podiam, presumo. Nem sempre as âncoras são panaceia para males incuráveis.

 

Hoje, na minha cabeça, tenho um bote que cessou de navegar. Que naufragou. E um pai que foi com ele. Ambos sabiam a rio. Um rio que se enleou com o mar. E o cerúleo céu pintou-se com ébano. Um desenho sonoro embaciado. Uma fotografia com sabor a naufrágio.

 

E no céu azul repetiu-se um brado carregado de profunda mágoa.

 

- Salvem-me!

- Não posso...

 

E ninguém os salvou... não sabiam.

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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