Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013

Eu moro aqui [na cave do tempo de pantufas]

Eu moro aqui. Num segundo andar com gavetas para a rua. Dois vasos. E a salsa e os coentros agonizam num verde amedrontado. Deve ser por causa da velocidade do dia. Do nevoeiro… talvez da luz.O prédio ao lado também tem gavetas. É lá dentro que as pessoas se arrumam, contaram-me no café em frente enquanto bebia um café muito escuro. Ou desarrumam-se, titubeei. Umas dobram-se sobre os dias. E saem à rua com vincos no rosto. Não sei quem são. Não se mostram nos estendais. Um estendal é um acessório que garante que as roupas não fiquem amarrotadas e que se mantenham em perfeitas condições. Mas as pessoas esquecem-se do vento e o sol. É preciso que a chuva chegue e que escorra pelos telhados em grossas gotas de água. Elas abrem as janelas, curvam-se e atiram-se às molas coloridas. A chuva não lhes pertence. Depois fecham as janelas. Por vezes apagam as luzes. Dormem. Devem dormir, não sei.

Outras vivem agarradas aos dedais cor-de-rosa que libertam perfumes baratos. Assumem ares desconfortados e esquecem-se de dizer bom dia. Eu não as ouço. É por isso que concluo que não falam pela manhã. Talvez não queiram ser vistas. Nem elas e muito menos a galinha. Ignoro a cor do galináceo da minha vizinha. Duvido que tenha um. Mas deveria ter para que o provérbio se cumprisse. O problema são as penas.

E há as outras. As que dizem tudo. Falam de mais porque falam. Cumprimentam e murmuram mazelas. Raramente as próprias. Afiançam que as suas não têm serventia. Tomam o café e desenham planos para o jantar. É que os maridos são rigorosos na hora do comer e não consentem negligências domésticas. Às vezes lá confessam que os homens se excederam. Que avançaram sem pensar. Que disseram palavras sem ponderar. Que não foi por mal. Estavam cansados, coitados. Mal as vejo. Desconfio que não estão à janela. Mas sei que existem. Numa gaveta e muito desalinhadas.

Na cave, uma espécie de cómoda baixa sem gavetas e com dois puxadores. É aí que mora o João, um professor reformado. Tem um cão e muitos vasos no terraço. E uma bicicleta que enferruja encostada ao muro. Ele acredita que os dias são muito grandes. Lembra-se da escola, dos alunos e do caminho que já não faz. E sorri. Depois vai-se embora. Só volta de vez em quando. Rega as flores apanha a roupa e lembra-se que gostava de não estar reformado. Arrepende-se logo a seguir e afasta-se. Vai porque eu oiço a porta a bater. Sai a correr como se fosse para o baile. O João volta sempre, para se ausentar com a mesma pressa. Confessa que tem, agora, menos tempo.

No outro lado, não sei quem está. Às vezes, oiço os passos de um homem cansado. Doente, pela certa. Magro e silencioso. Tem um casaco de fazenda com uns quadrados enormes. Não gosto do casaco. Porque abafa dores desbotadas. Desânimos que não consegue abandonar no hospital. Devia. Entra em casa sempre com pressa. Estende a roupa para depois a apanhar. Come peixe cozido sem sal e bebe muita água. Isso vê-se na cor da pele, no corpo franzino e na fragilidade das mãos. Tem visitas que eu bem as oiço. A ele é que não. Um senhora já de meia-idade que fala em excesso. Gorda, com uma pele desalumiada muito cansada. E um homem ainda jovem. Apanham roupa. Falam. Alinhavam os dias seguintes e vão-se embora. O homem da cave fica sozinho. É por isso que se deita cedo. Para se levantar e sair. Garanto que ele mora na cave. A porta bate sempre ligeiramente. É um bater adoentado, com robe e pantufas.

Hoje, vi o inquilino da cave. Eu entrei no prédio e ele saiu. Foi-se embora. Nunca me disse como se chamava.

Nem disse bom dia. Apenas impediu que a porta batesse. Mas eu cumprimentei.

Não faz mal, ele ia com pressa. Foi pena! A gaveta Fechou-se no mesmo instante em que se abriu. Nos prédios as gavetas andam assim. Ou não andam.

 

 



Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Gritos [quando o silêncio se alimenta na água]

 

Hoje, não me apetece escrever. Tenho a boca alagada por palavras e as mãos desenrodilham meadas de falas melindradas. É por isso que não quero escrever. Porque a diferença está entre o que vi o que não vi. Também o sol regressa todos os dias e anda pelas ruas em silêncio para eu ouvir a chuva que cai nos beirais.Não sei pensar quando as palavras não estão quietas.




Domingo, 10 de Maio de 2009

Assomar [Ai, quem me dera estar lá. E ficar!]

 

 

Em tempos, havia lá...

 
 
 
 

Ai, quem me dera correr para lá. E chegar! Depois, rebolava e ria à gargalhada. Calava-me. Para ouvir os piscos a voar. E invejar-lhes a beleza da cor. A magia da voz. A afinação dos trinados na frescura da tarde. Tão tarde! O domínio apenas existe no nevoeiro da minha visão. Sobram vulcões de urbanidade de alicerces construídos. Os piscos aborrecem-se com os rumores das betoneiras.

 

Ai, quem me dera estar lá. E ficar! Saltitava de flor em flor. Escolhia-as pela cor. Sentava-me. Por estranhar efemeridade. E  abençoar-lhes a fragrância. O apego do caule. A verdade do viço na quietude da manhã. Tão cedo! Agora, as pétalas de cetim perduram pobremente no tacto dos meus dedos. Permanecem chãos de papoilas que eu matizo, se me importuno. Eu aborreço-me com os alvoroços dos jardins.

 

E agora que não estou. Eu sei! Sempre que chovia, eram as papoilas que me abrigavam. Na fragilidade das varetas. No agasalho do pano que olhava para a chuva. Para lhe descobrir o destino. A água esquecia-me e dirigia-se abundantemente para a raiz. Sustento. Eu apenas a honrava. Hoje enalteço-a.  Nua no desassossego quente do Sol. Está escuro e eu olho para lá. E percebo porque tanto gosto da chuva… e de guarda-chuvas vermelhos.

 

[imagem da internet]

 

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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