Terça-feira, 20 de Agosto de 2013

gosto de ouvir música na rádio...

 

Gosto de ouvir rádio. Andar por lá, adormecer no bulício das vozes, enrolar-me na cadência da música e desadormecer ao colo da canção seguinte. E dou por mim a pensar naquela canção que ouvia sem me atrever a contar as vezes. Que não ousava contar a ninguém, com medo que me furtassem o instante. O tempo passou e agora não escuto as mesmas canções. Mergulho nas vozes, gosto das músicas e enrolo-me exatamente com a mesma desordem com que antes me embalava.

Passa uma canção que escutava com o volume incendiado… quase não a reconheço. Desejo que acabe… E dou por mim a pensar a razão do meu sentir. A canção permanece inalterável…

Não fui eu que mudei… mas é impossível ouvir a mesma canção sem lhe mudar o sabor. Como o beijo que trocámos à tardinha… Como a cor deste mar de ritmos cadenciados… Como o bater inquieto das nossas bocas que numa tarde se calaram com uma vontade doida de chorar.




Terça-feira, 14 de Agosto de 2012

No mar [à bolina sobre os rochedos]

 


fui até lá só para escutar o mar. e andar. foi uma viagem pequena pela margem dos abraços ao colo da maresia. havia uma delicada neblina que me aguentava de pé. olhos nos olhos com o vento que chegara antes de mim. as pessoas contavam vidas que eu não entendia. às vezes gritavam e eu não as ouvia. duas palavras roladas na areia. uma estava a mais. calámo-nos encharcados de azul. e lá do fundo vinha um canto doce. uma cantiga morna. tão quente.

 

fui até lá só para sentir o perfume que sobrou da pele daquela tarde. e vi que houve um tempo em que me escondia nos teus dedos não fosse a areia querer.

 

fui até lá para ver o mar. o barco já não estava à minha espera. apenas o mar atirava satisfeitos sorrisos indiferente a quem chegava. ou partia. e as ondas navegavam sozinhas.

 

fui até lá para me lembrar que roubavas o mar só para mim. no verão.

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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Outra vez [na maré do pescador]

 


a traineira desbotada. o mar satisfeito na desigualdade do azul. o sabor da maresia. um abraço consistente. a dureza da sorte das marés. as mãos amansadas pelas cicatrizes. um mergulho danado. o suor que rega a agilidade do corpo. as lágrimas despejadas na areia. o colo do refúgio. um porto ancorado. o grito da gaivota. a noite escondida. a lua clandestina que cuida do espaço. o mar sem idade. o sol que nasce na barra. o cais da saudade. o retorno ao leme de uma imensidade amainada. a alcofa de peixe no chão. a riqueza na mesa. o medo quebrado. uma concha de pão com sabor a espuma que acaba na areia. o prazer do sal na boca do pescador. um emaranhado de malhas remendadas pela paciência dos dedos. na mesa a traineira corta a espuma da maré. a gargalhada imperial. e na minha língua a sardinha faz-se lenda. numa ancoragem de emoções.



Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012

supremo encanto



agora mais nada. o verão caiu no chão. com o sol na barriga. neste instante, lambe o doce suco  que lhe ornamenta as mãos. e agradece o esquecimento dos deuses. que pernoitem longe. que pernoitem.


 


Terça-feira, 31 de Julho de 2012

no colo das marés

[Santa Cruz, Torres Vedras]

Que faço eu quando o azul é tanto? Que sei eu já se ainda não me mostraste todas as cores que tens nas mãos? Que percebo eu quando não me dizes o que eu vejo? Que caminho percorro se o cantar da minha respiração não se diz com palavras?


Eu vou! Para me agasalhar neste manto de azul. Um manto sublime. De ouro e prata. Com rendas trançadas com fiapos de luz.


Eu vou! Para escrever um poema com os silêncios das palavras que não sei dizer. Mas que escrevo com a tinta das marés. Guardo-o no coração. Como quem guarda a doçura de um segredo. Depois, vou enxugar o meu corpo molhado.


E adormecer no doce colo das estrelas.

 

 


Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

beijar [como o mar beija a areia]

Fez-me o sol a vontade de me levar até aquele dia. Exactamente aquele em que me enlaçaste na fome da luz. Na cobiça do vento. Depois, lembras-te? Os teus olhos nublaram-se. Eu vi… Nuvens escarlate aqueceram-nos as bocas num beijo que brotou ali. Floresceu no sabor a frutos de delírio que estendias na areia. Recusaste a toalha… e estendeste os nossos corpos no areal, não foi?
 

O beijo ficou por lá... E foi um beijo tão sumarento que nos amámos sem fim. Ao fundo, num plano exaltado, a paixão desmoronou-se no mar. Deitou-se sobre a areia escaldante. Nua. Sua. E deixou-se levar. Enrolaram-se na boca faminta de um grande amor.

 

Hoje, meu amor, sentei-me naquele lugar… E foi lá que me pus a procurar. O mar estremeceu na areia e guardou os beijos que naquele dia fundeámos. Até os penhascos suaram nos resquícios do calor… E eu desejei ter ali um espelho… com medo do mar.

 

 


Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

insultar [na teimosa valentia de saber a verdade]

 

Ericeira, Paola

 

 

 

Num inusitado desacerto mundano, eles puseram-se a conversar. Um jurava que a Lua estava a brilhar. O outro, no mais benevolente insulto, logo detectou o erro. Garantiu que o Sol é que se notabilizava assim. Que uma coisa era o luar e outra a luz solar. Tão desiguais, como o dia era da noite. E que não percebia o equívoco. Ele ouviu a admoestação. Que não estavam a ver o mesmo. Aí estava o engano. Era a noite que ele via. Nem entendia os fundamentos para importunar a noite. Se o outro o dia sentia, problema o dele. Enrolaram-se pela parede esquinada para disfarçar o embaraço. Na esquina do dia, procuravam a resposta. E discutiam, discutiam. Tanto, que se reencontraram no outro lado da rua. À esquina. A enviesada conversa continuou na afabilidade do desacordo, desatando a discorrer qual seria. Qual seria. Não se entenderam, os rapazes, na tamanha desarmonia. Nenhum prescindiu da sua razão, esgotados os argumentos.

 

Ele desceu a ladeira, porque tinha a certeza que aquele era o seu caminho. E desceu. No umbral da porta, virou-se para baixo e viu o Sol. Chorou. Soube naquele instante que o seu fulgor intenso lesões graves.

 

Ele subiu a loutra adeira, porque estava certo que aquela casa era a sua. E subiu. Na ombreira da porta, olhou para o alto e viu a Lua. Sorriu. Sabia, agora, o que é um erro de perspectiva.

 

 

 


Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

regressar

 

Monte Natal de areia

 

O Monte. Sempre foi assim que os meus pais me falavam daquela fila de casas brancas e azuis. Do alto do enorme monte de areia, espreitavam o rio, espraiavam-se ao sol, iam à pesca de robalos, xarrocos e chocos... Um acto de amor. Por vezes, já fartas e cansadas, ficavam pelo areal, deliciavam-se com os caranguejos, berbigões, canivetes e ostras. Era uma gente tranquila, com uma vida tranquila... Do outro lado, eram as moitas, os matos abastados em bicharada e em murtas. Mais abaixo a horta. Magnífica! A minha infância perde-se e delicia-se nas batatas-doces assadas no braseiro que crepitava junto à entrada da cozinha. Esplêndidas e generosas.
A fonte era um lugar sagrado. Pelo nome, Coração de Jesus, pela água pura e cristalina que saciou a minha sede e que alguém não preservou. Sagrada porque o meu avô acreditou que ela lhe retribuía as passadas com  bilhas de saúde. Todos os dias, pela calada da manhã lá ia ele. Bebia, lavava a cara e acreditava que tinha rejuvenescido. Também o meu avô foi fantástico. Gente simples e pacata... A poesia divulgava-se na cozinha, junto à chaminé. Adorava declamar os seus poemas! Quadras de rima pobre com sonoridades de ternura. A concertina dançava nos seus braços e os seus dedos percorriam-lhe o corpo como se fosse uma mulher. A música acompanhava os versos que a memória retinha e a festa constituía a sobremesa esperada.

 

O monte, vamos ao Monte passar o Natal, diziam-me os meus pais. E eu estremecia perante o percurso a trilhar para lá chegar. Um caminho feito horas pela berma do canal, por veredas ladeadas por pinheiros e eucaliptos com os fetos abraçados aos troncos. E o verde confundia-se, aqui e além, com o azul o Rio. Sim, o meu Rio era azul. Uma jornada difícil! Não havia alternativa. O Monte ainda não se tinha rendido à civilização. Orgulhava-se de olhar magnificamente para o Sado e altaneiro para a cidade que, na outra margem, se insinua vitoriosa. O fim do mundo, alcunha que detestava, estava mesmo ali, no estuário do Sado. No entanto, a lembrança do rio, dos golfinhos, dos caranguejos, da batata-doce, do berbigão e do pão faziam-me transpor os obstáculos com alguma agilidade. Grandioso aquele pão! Uma fatia barrada com água-mel faria qualquer citadino crer na verdade do néctar celestial. O Monte ... bravo no apelido da família, bravo na escassez de riqueza, bravo nos acessos, bravo nas piteiras fartas em figos, bravo por se afirmar na diferença de outro qualquer lugar, bravo pela dureza que impunha aos que lá viviam, bravo porque único. Um nome próprio como a gramática nos ensina. Único, próprio e admiravelmente singular. Na minha cabeça o Monte ainda existe ... com tudo o que ele tinha. Os meus avós,  a fonte, a horta, a praia e os caranguejos ... a minha cabeça não quer creditar que sobre a areia, a praia... que tudo já se cumpriu. O Monte morreu à medida que as pessoas morreram também. 

 

E eu deixei de ter local para passar o Natal. O meu avô não toca concertina, a minha avó não vai comprar o pão… e os meus pais já não me dizem “Vamos ao Monte, neste Natal!” . O Monte morreu... e é com palavras que eu ressuscito aquela paisagem. O rio ainda existe e ainda é azul. Só que mais pardacento...

 

Escrevi este texto há quase um ano, quando me iniciei nesta "coisa" dos Blogues. Porque é Natal, ressuscitei-o.

 

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

caminhar

 pegadas de amizade

 

 oito alegres pés

 

 

 

Afeiçoados na vontade de caminhar, num dia de morno de Agosto, seis pés rumam ao Sul. Levam a vontade de abraçar o mês que vai acabar. E querem beijar o mar. E todos seis correm para o Sol. E andam, andam até lá chegar. Envolvem-se no amarelo e admiram-se com o azul. Surpreendem-se com o verde. E comentam que arrulhar rima com marulhar. E o mar espreguiça-se. E lá ao fundo, a cadência é marcada pela vastidão azul-mar. E correm atraídos pelos cânticos sem olhar para trás. Ouves? É o mar a desenhar poemas na areia. Pois é. O mar é um poeta, disseram dois. Um escultor, opinam os outros dois, olhando as obras cinzeladas ao longo de tempos de Inverno. E comentam que ali habita Orfeu. O mais prodigioso músico que já existiu. Poeta também. Por isso, as gaivotas poisam para o escutar.

 

Oito contentes pés foram espreitar o mar. Mais dois se juntaram. E todos os oito pés na areia dançaram. E Orfeu males sana cantando e tocando a sua lira de ouro. Músicas de espuma. Canções de areia. Ritmos do mar. E dois dos oito pés vão continuar a cantar. Porque nesta sinfonia da vida, oito são mais do que dois.

 

 [fotografia de Paola]

 


Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

pintar

lágrimas de Agosto

 

 

Agosto despede-se. E chora. Faz birra e esconde o Sol. E as nuvens desenham no céu sonhos coloridos de crianças. Descansos e cansaços saudáveis. Preguiças e bocejos admiráveis.

O mar pinta-se de azul-marinho. Ali escuro. Acolá transparente. Claro. Admirável e barulhento. Picado, afirmavam. Ponteado de cristas brancas. Agitadas e nervosas. Agosto também. Para a semana é Setembro. A praia está só. O mar indómito.A areia penteada. Restos de chapéus de sol olham para o mar e carpem a desgraça. Há muito que Agosto não tinha um dia assim. Os corpos ávidos de sol são fustigados. E escondem-se em panos alugados. O deserto começava a estar ali. O vento guincha fúrias contidas. Hipocrisias caladas. Afectos traídos. Vaidades assumidas. Tão forte e tão frio. E o vento cospe nos rostos a areia que já não quer. E desliza num mar de queixumes, na certeza que as forças da natureza são incontroláveis.

 

E o vento bate à porta do meu sossego. Vai-te daqui, ordenou descontrolado. Não entendi a razão. Insurgi-me com os modos. Não grites comigo, disse com autoridade. E o vento lastimava que assim tivesse acontecido. E sussurrou-me sem alarido que não estava a gritar. Foi só um guincho. De uma mão cheia de areia.

 

 

 [fotografia de Paola]

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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