Sábado, 16 de Maio de 2009

travar

[prefiro o silêncio à simulação do falar]

 

 

A avenida estendia-se na horizontal. Ondulava aqui e ali. Traições desnecessárias para quem anda sempre no passeio. No lado de cá.

 

Uma aceleração. Outro passado alargado à medida da pressa que não se via. Um grito de criança a reclamar o tempo. Horas que não lhe foram dadas para suicidar o sono que lhe atravancava a vontade. Travagens aflitas nas passadeiras movediças que conduziam para o lado de lá. Uma eufórica buzinadela cumprimentava caminheiros despreocupados. Acenos de fim-de-semana. Desejos expressos no empedrado. Uns subiam, outros desciam. Na ânsia de inventar um domingo que fosse outro dia. Talvez domingo.

 

Nos sacos, viajavam propícias pescarias. Restos de abates carniceiros. Pedaços de hortas e pomares despojados dos frutos. Raízes que tudo fariam para crescer no chão. Penduradas na terra. Trapos e farrapos roubados ao pregão. Carteiras gordas de tempo. E de mês. Bolorentas de esperança. Filas de alívios e dores. À porta da farmácia. A meio da avenida. Do lado de cá.

 

As bocas repetiam-se na mesma fome. Os corpos rezavam as mesmas pisadelas. As crianças brincavam, desinteressadas das nuvens que pressentiam a chuva que não acontecia. Ali, na avenida. Olhavam para cima, sempre que passava um avião. E ensaiavam a partida. Encetavam a fuga pelo ar. Na terra, a avenida prolongava-se no limite do interrogatório. Os carros chiavam travagens exaltadas. E as crianças insistiam em crescer na avenida. Tanto! O assunto da conversa não era outro. Aquele. De ontem a hoje.

 

No congestionamento da conversa, a dor alastrou. O corpo piorou. E o silêncio intentou a caminhada. De cá para lá. Pela avenida. Destravou!

 

 


Sábado, 29 de Novembro de 2008

subir

 da internet

 

 conversas na ladeira

 

 

O vento chicoteava o rosto como quem rouba um beijo. E as mãos como se estivesse a trabalhar. De quando em vez, agitava-se. Enrolava-se com prazer. Ofegava palavras vermelhas de paixão. Percebia-se no seu tocar. Depois, zangava-se. Afecto torvelinho num concerto perturbado. E divulgava-se na ladeira sem se importar com as pegadas que deixava no asfalto. Bradava que os caminhos eram feitos para caminhar e as ladeiras para ladear. Para baixo e para cima, sempre a rodopiar. E praguejava muito. Espumava gestos enfurecidos. No seu coração remoinhavam predadores que mordiam a solidão. E subia…
 
O Sol estendia-se ao comprido. Numa nesga da calçada. Sorria nas portas que encontrava. Esticava os dedos e empurrava o vento que não sossegava. Amornava a encosta de alcatrão, calçada de pedras cinzentas. Está frio! Gritava-se lá do alto. Pois está… ressoava do outro lado. E decidiram sentar-se a meio da ladeira. No exacto ponto onde o Sol se empoleirava e o vento não chegava. Vamos tricotar palavras. Vamos? A outra aceitou.
 
E tanto que ladearam as palavras. Esgotaram-nas antes do vento. Durante o Sol. Ela afiançava que sim. Que tinha a certeza. Mas a outra duvidava. Que nunca tinha ouvido falar. Que não deveria ser assim. Verdade! Afiançava na certeza de quem lho tinha dito. E a outra acreditava. Que bem se estava ao sol. Lamentava que o vento dificultasse o tricotar. Perguntava uma se tinha visto. Ela vira e até chorara. Garantia-lhe a beleza da emoção. Nem tinha podido. Essa era a sua intenção. Apenas não foi capaz. Adormecera estoirada, logo que se sentara no sofá. Queixava-se. Que gostava tanto, que nunca perdia um. Que aborrecimento! Não se preocupasse que ela contava. Não perdera pitada. E a narrativa era interrompida por desabafos frios. Que o vento é que estragava tudo. É claro que o vento ouvia e não gostava. Informava que tinha de ir, ao mesmo tempo que exigia companhia. Ela respondia-lhe que não. Que já era tarde. Que tinha coisas para acabar. E o marido até planeava jantar. Credo! Antes de almoço a confeccionar o jantar. Que assim se cansava e que a culpa não era da ladeira. E travaram-se de razões. Uma porque era cedo, a outra assegurava o atraso. Que a vida era um enfado. Logo retomaram o assunto. Que assim não podia ser. Pois não! Mas nada podiam mudar. Não, não tinha ouvido nada. Foi uma desgraça. Em pleno dia. À hora do Sol. Se não lho tivessem afiançado, nem acreditava. Bandidos. Não fazem nada! E a outra, conhecedora do assunto, aprontou-se a explicar que a culpa era deles. Davam cabo disto tudo. Que nunca se vira coisa assim. Excediam-se nas palavras e multiplicavam os gestos. Que ninguém fazia nada, repetia. Por isso, dava sempre razão ao marido. Desenvolvia ele que o mal vinha de fora. De muito longe, embora não soubesse fielmente o lugar. E que com aquelas conversas, ela adormecia. Ele lia, nesse caso sabia. Tornava ao jantar. Que ia cozinhar isto, talvez aquilo. Não se importava. Ele que comesse o que ela fizesse. Que uma mulher não tem tempo para tudo. A lida da casa dava trabalho! Pior do que subir a ladeira.
 
O homem deve ter jantado. Sentaram-se no sofá descansos do trabalho. Ela dormiu vagarosamente e ele dialogou consigo. Ela ressonava palavras crochetadas ao Sol. Ele afligia-se com a escuridão do silêncio. A outra, à varanda, fumava um loquaz cigarro. Queixava-se de ter pouco saldo no telemóvel. Que a bateria estava a desaparecer. Que tinha estado na ladeira. Que trocara umas palavritas sobre aquilo. Mas sem interesse. Perguntava se já sabia. Se tinha visto até ao fim. E ria.
 
Eu, que não subo a ladeira, desci. Não olhei para trás e fugi dali. E só pararei junto dela. Resguardadas do vento e do Sol, esticaremos as palavras e tricotaremos tanto, mas tanto, que  os dedos permanecerão entorpecidos o dia inteiro. Faremos volutear malmequeres e papoilas. Pétalas e folhas de rosas-do-deserto. As joaninhas voarão envergonhadas por não saber falar. Os gafanhotos pularão excitados pela incapacidade de correr. E as rãs chapinharão no charco, desconjuntando os juncos. Só depois é que subiremos a ladeira...
 
 

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

divinizar

da Internet

 

Há culturas abundantemente abençoadas. Talvez uma opção genética, quem sabe cultural. Ou simplesmente porque sim. E não me digam que se deve um a desenvolvimento psíquico muito incipiente, apenas suportado pela  percepção da realidade física circundante! A verdade é que há quem se dê ao luxo de ter um deus para cada oração. Já os romanos e os gregos haviam feito o mesmo, por isso não estranho. Facto que atesta o seu enorme bom senso. Da particularização de cada deus só podem resultar benefícios, mercês e graças muito celestiais. Verdade que dá garantia de apoio personalizado e individualizado. Os deuses, masculinos, femininos ou de género indefinido, cumpriam bem a sua função. Apesar das hierarquias. Apesar da glória. Por vezes, erravam e davam-se a promiscuidades divinais. Até fatais e muito disputadas. À margem da lei. Por isso, eram castigadas.

 

- Ícaro! Ícaro! Ícaroooo!, chamou o pai muito alvoroçado.

 

Não obteve resposta. E lá ao fundo, no mar, os seus olhos estupefactos encontraram as penas que flutuavam nas ondas. Nos desencontros da maré. Não lhe foi difícil descobrir onde Ícaro caíra.  Morto! O rapaz morrera afogado na sua desarvorada ganância. Santa ingenuidade! Não percebeu, o garoto, que as suas asas eram de cera. E que o Sol não se alcança. Nem se olha de perto. E que voar, sem ter asas para o fazer, exige protecção sobrenatural. Descuido incipiente!

 

Os enganos dos deuses aumentavam sempre que dos humanos se aproximavam. Indigência inexplicável e sem qualquer ganho imediato. Até lhes retirava importância. Não careciam de tanta dependência. Nem tão-pouco de submissão. Se não abandonassem Olimpo nada disto teria acontecido. Olimpo era o monte onde viviam as divindades. Um espaço etéreo, porém nada que se assemelhasse a um luxuoso monte alentejano. Dos mercantilizados nos jornais. Com uma área de muitos hectares, entre sobreiros e montados e com muitas propriedades empoleiradas no cimo das colinas. O luxo e a sofisticação ofuscam Olimpo. Só assim se aceita a escapadela. Coisas de deuses, já que o Olimpo é na Lua.

 

Os romanos andaram por cá. E eu não entendo, por que razão não lhes pilhámos os deuses. Tantos que eles tinham, meu Deus! Só por cortesia e muita parcimónia. Até a pedir somos pobres. Valha-me Deus! No entanto, há muitos humanos, descontentes com a opção monoteísta, que se crêem divindades. Se algum vier ter comigo, oferecer-lhe-ei um par de asas de cerume. Multicores para que não subsistam dúvidas. E dir-lhes-ei que neste país não há lugar para o politeísmo.

 

E eu, para que se cumpra o culto de sábado, suplico a Ceres que ampare as searas. Rogo-lhe protecção divina para o arroz-doce da Dona Perpétua. Divinal com canela.

 


Sábado, 11 de Outubro de 2008

contar

   d Nivaldo Menezes

 

Transversalidade dos afectos ou promiscuidade familiar

 

Nos Contos Populares multiplicam-se as personagens de encantos e desencantos. Todas com engenho e arte. Com ensinamentos também, ou não fosse a sabedoria popular um recurso admirável do conhecimento. Na memória colectiva da gente, estende-se um património afectivo admirável. E a generosidade é tão grande, que os fazem correr de mão em mão. Intrigas simples, mas nem por isso menos corrosivas e acutilantes. Cada história sabia a viagens maravilhosas ao mundo da fantasia, de mão dada com os avós. E que bem que elas faziam! Alongavam abraços. Partilhavam afectos. Excitavam as gargalhadas a rir, sempre que se cumpria o arrojo de lhes acrescentar um ponto. Era a imaginação a espreguiçar-se e a criatividade a encostar-se no devaneio.

 

A terra dos contos é órfã de autoria. No entanto, não consta que alguém tivesse apresentado queixa por ter sido plagiado. E como são tantos, os contos, cada um de nós tem o seu. Eu tenho vários. Uns são maravilhosos de encantar. Outros muito mais divertidos. Gosto daqueles que têm animais. E até dos religiosos e morais. E a delícia dos que tanto se esforçam para justificar o lugar! E há sempre os que dão ares de superioridade, com um exemplo na ponta da língua.

 

Trouxeram bruxas e fadas. Príncipes e sapos. Princesas e madrastas. Gatos com botas e cães descalços. Gatas domésticas e meninas friorentas. Capuchos coloridos e padres comilões. Heróis cavaleiros, vítimas inocentes, vilões e fanfarrões. Cobardias e mentiras. Logros e lealdades. Narizes empolados e rostos torcidos. Contributos notáveis de cada personagem para a que a história se perpetue. Pequenina, que a memória já não é grande coisa.

 

A madrasta da pobre Gata Borralheira é uma das personagens mais odiadas dos contos de encantar. A sua crueldade vornou-a famosa. E eu dou por mim a pensar que  as madrastas não são tão malvadas assim , as mães é que são extraordinárias. Contudo, não me lembro de contos com padrastos ruins. Nem bonzinhos. Os contos são invenção masculina, sem dúvida.

 

À saída da escola, o conto não é ficção. E o rapaz muito indignado exclama:

 

- Mãe, o João disse-me que tinha um padrasto!

- É porque tem, João.

- Mãe, eu também tenho um, não tenho?

- Sim… o pai que a mãe te arranjou…

- Ó mãe, esse não é o meu pai! É só padrasto.

- E o teu pai, sabes dele?

 

Mais não ouvi. Fiquei sem saber se era dos bons ou dos outros. Se o padastro é pai ou se o pai é que é padrasto. Nem se as personagens dos contos populares vão ter outro enquadramento.

 

Vou com pressa. Ao sábado é dia de comer arroz-doce. Ora se D. Sebastião faz parte do imaginário português, por que razão o arroz-doce não pode fazer do meu? Arrogo-me o direito de compensar a míngua semanal de afectos açucarados. Reconheço-o pelo cheiro.

 

 


Sábado, 20 de Setembro de 2008

sabadar

da Internet

 

 

Eu amo silêncio. Um lugar onde me construo. Confluência das minhas memórias. Um espaço que tem ruídos, barulhos e sons. Do mar e da terra. De mim. E muitas palavras que não digo. Mas que falo. Certa que não é por muito falar que digo sentidos. Ou que narro histórias de encantar...

 

E hoje, já que é sábado, cumpro o ritual do arroz-doce. Com muita canela e silêncios interrompidos por palavras. E gargalhadas. Até agora, andei a sabadar. E quero que tudo o mais vá para o Inferno...

 


Sábado, 23 de Agosto de 2008

sabores de sábado

  à moda antiga

Admirável gulodice. De aroma e sabor. Flexível na forma de cozinhar. Prepara-se na tolerância dos usos e costumes da gente. Sempre com uma boa dose de prazer.

 
1 Chávena de chá de gargalhadas

1 Pitada de coscuvilhice

1 Vagem de lágrimas

2 Litros de benéfica amizade

1 Chávena de chá de idoneidade

1 Pauzinho de desatino


No café da Dona Perpétua, sentar na mesa mais afastada do balcão. Por causa dos atropelos matinais. Há quem vá para ali tomar o pequeno-almoço. Juntar um pouco de coscuvilhice, apenas a cobrir o tampo e aguçar o engenho da oratória, e uma pitada de lágrimas de rir. Levar a conversa moderada, mas mexendo sempre. Com as duas mãos. Energicamente. Sempre que necessário, com os dedos também. Para contar. Para indicar.


Juntar a amizade, sem lavar, e levar ao fogo das palavras, mexendo sempre, sem deixar secar completamente a boa disposição. Enquanto mexe, não deixe de cumprimentar quem chega à mesa. Ou quem passa.


Entretanto, convém ir pondo os projectos a aquecer. É conveniente mudar local. De preferência mais arejado. Sempre de acordo com o que vai fazer a seguir.


Quando o assunto começar a secar, juntar outro bem quente e aos poucos, gargalhando sempre. Acrescente uma pitada de bisbilhotice e um pouco de vida pessoal.


A prosa deve ir sempre fervendo em lume brando. À medida que vai secando, junta-se mais, em pequenas quantidades, sem deixar de mexer. Sempre a conversar.


Quando terminar de juntar as palavras, acrescente as compras e os desatinos. Mexer e deixar ferver. No final, passar tudo por planos futuros. Há que preparar a semana com antecedência.

 

O processo de cozedura demora cerca de 5 horas, às vezes 6. Ou 7. Até pode durar o dia todo. Tudo depende da qualidade dos ingredientes. E da vontade de comer.

 

Aproveite para almoçar. De preferência grelhados. E muita salada. Verdes de tonalidades várias. Combinam com a cor da canela. Aproveite para apurar a conversa e cimentar a amizade.

 

É preciso paciência, mas vale a pena! Serve-se frio, morno ou quente. Depende dos gostos. E do apetite. Em taças, pires ou travessas. Depende de quem come. E sempre, mas sempre muito bem adornado com risos, gargalhadas e cumplicidades com cheiro a canela.

 

Se se esquecer de algum dos ingredientes, não desespere. Recorra ao telefone. Acrescente o que estiver em falta. E continue a mexer...

 

 

foto da internet


Sábado, 9 de Agosto de 2008

esquecer

vou a correr ver o pocoyo

 

sábado morno de Agosto

 

Sem surpresas e igual a si próprio, o sábado é um dia admirável. Porque ao sábado não acontece quase nada. Cumprem-se rotinas. Uma visita à família. Aos amigos. Banhos de sol e de mar numa praia atulhada de toalhas e pernas estendidas na areia. Compras em grandes superfícies comerciais. Têm quase tudo. E mais à mão que o tempo ao sábado não rende. Carregam-se sacos de plástico com asas para a cozinha. Limpa-se aqui, para sujar mais ali. E as crianças agitam-se porque vão visitar a avó. O relógio corre sempre ao sábado. Convencido que vai participar nos 100 metros barreiras. Os obstáculos aparecem constantemente. Nem sempre se consegue saltar. Mas um sábado em Agosto ainda é mais admirável. Emproado porque não vai trabalhar e ilude-se com o esplendor sol. E dá voltas e voltas ao mesmo sítio. E não vê o mar. E tão convencional!

 

Porque um sábado de Agosto é um dia esfarrapado de pessoas e de portas, não comi arroz-doce. Nem o aroma inebriante da canela. Apesar de gulodice fútil, eu gosto. Apesar dos triglicéridos eu como. Só ao sábado. O melhor mesmo é esquecer, por hoje.

 

Vou ver o filme do Pocoyo que comprei na feira. É divertido. E as borboletas sempre têm asas... mas falado em português!

 



Sábado, 26 de Julho de 2008

poder

 não coma mais colesterol

 

 

 

Um sábado gostoso. Passado como quem saboreia os acepipes que, na mesa, alimentam a fome que se senta à espera de mais. Um menu de colesterol para quem come. E comemos todos. Esta história das refeições terem preços acessíveis e depois colocarem à frente dos nossos olhos ou da boca, o que é bem pior, aquelas coisas fantásticas não dá. Desde as azeitonas e manteiga ao queijo, do presunto à linguiça assada, morcela e outros que tais, torresmos ou gambas à la qualquer coisa, de preferência em francês que é para dar um tom distinto ao repasto, alheira de caça, presunto com melão e tudo o mais que nos passar pela cabeça, vale tudo neste jogo de sedução alimentar. E mais o vinho daqui e dali e também do estrangeiro. E depois? Encomenda-se o quê, quando já se comeu o que havia em cima da mesa? Nem valia a pena perguntar. Mas lá vem o empregado muito solícito, simpático e, na maioria das vezes, barrigudo e com bigode enrodilhado nas pontas. A encomenda faz-se no meio de estou cheio, já não posso mais e coisas assim. Todavia pode-se. E come-se e bebe-se e come-se. Muito bem. Tão bem que se volta na primeira oportunidade que surja. E recomenda-se. E eles também vão e comem. E recomendam. E voltam.

 

Portugal é um país onde se come bem. Sem dúvida. Portugal é um país onde a obesidade é um dos principais agentes de risco para o aumento de outras doenças que lesam a saúde. Hipertensão, diabetes, colesterol alto e acidentes vasculares cerebrais sucedem-se. A estatísca confirma a enfermidade. Portugal é culpado de estar doente. E continua a servir admiráveis iguarias à mesa da gente. É verdade que estes hábitos vêm de outros tempos. Logo com o nosso primeiro. D. Afonso Henriques era muito forte e alto, caso pouco comum na época. Obviamente devido a uma excelente alimentação. Só pode. Não é por acaso que as desavenças com a mãe deram no que deram. E o Capuchinho Vermelho? E a boca enorme do lobo que queria comer a menina? E os pitéus que a mãe colocara na cesta para a avó? Enfim, não há mesmo cura para esta gula colectiva. Este gostinho transmite-se por direito de sucessão. Nunca mais nos livramos do maldito do colesterol.

 

Por causa do colesterol, e porque gosto, prescindi das entradas. Comi muita salada, fruta e peixe. E bebi água, claro. Não vá o diabo tecê-las. Não me consta que o dito tenha morrido de ataque cardíaco.

 

E antes e depois e durante, passeámos palavras ao sabor do vento e do sol. E da fome. E deambulámos à beira-rio. Sentimos a brisa. O fresco. Espreitámos o horizonte. Entre nós e o Sol e as nuvens existia o ar! E rimos até as gargalhadas  atrapalharem as lágrimas. É que pela manhã não renunciámos à tigelinha de arroz-doce. Com canela. É só ao sábado…

 

 

(fotografia de Olhares, Fotografia Online)


Sábado, 19 de Julho de 2008

intrujar

 

afingimentos desnecessários

arroz genuíno

 

Ao sábado como arroz-doce. Na dona Perpétua, como sempre. Uma gulodice ao fim-de-semana. Banal. Corriqueira. Gostosa. Admirável. Prefiro as coisas simples e verdadeiras. Sem intrujices com sabor a canela. Sem astúcias com cheiro a limão. Gosto que os meus sentidos estejam despertos para a verdade açucarada de uns bagos desfeitos em leite fervente. Não os quero atiçados por estranhezas cozinhadas ao intervalo. Quero comer arroz-doce que me saiba a arroz-doce. Odiá-lo-ia se não fosse assim. Se um dia me souber a embustice não vou ter com ele aos sábados. Nem noutro dia qualquer. Mas ficarei decepcionada e muito amofinada.

 

Que eu minta, menos mal. Se as estatísticas dizem que eu o faço a cada cinco minutos, que seja. Afinal, toda a gente mente com quantos dentes tem. O arroz não, que é genuíno.

 

Verdejantes plantações. Terraços de verde que eu via da janela e que ainda persistem na minha memória. Lá estavam eles muito quietinhos, com os pezinhos na água. Quando o vento chegava ficavam desinquietos. E as ondas de verde propagavam-se no horizonte. Na monda do arroz, elas cantavam e cobiçavam os rapazes com sorrisos e olhares. Os braços rebaixavam-se na água a desenraizar as ervas daninhas. A sua vida era fazer essas coisas e molhar-se no solo alagado. E cantar com as mãos enrugadas e calejadas. A voz era límpida e sorria sempre que via crescer as espiguetas do arroz. E rezavam para que a colheita fosse boa.

 

O arroz não disfarça. É assim e pronto. As pessoas é que não. Movem-se por interesses que extravasam as valas dos arrozais. O arroz rodopia ao sabor do vento e dança com ele. As pessoas não ouvem o que ele lhes diz. Com doçura. Olham para o Sol e querem a luz só para si, mesmo que o mundo fique às escuras.

 

Enquanto for capaz, não deixarei de comer arroz-doce. Só por ser autêntico. Como os olhos celestiais com quem o partilhei. E tudo foi tão gostoso!

 

 

(Fotografia da Internet)

 


Sábado, 12 de Julho de 2008

cansar

 solidão não é abandono

 

 

E mais um sábado se cumpriu. Numa civilidade irritante. Ainda por cima pedante. Ao sábado nem sempre gosto dos sábados. Eu sei que toda a gente gosta e depois? Eu às vezes não gosto.

 

Ao sábado não se trabalha. É mentira. Não ir lá não é o mesmo que não trabalhar. E há sempre tanta coisa para fazer. Coisas que não cabem nos outros dias. Protelam-se sempre. Sobram sempre. E é por isso que os sábados são dias cansados. Provocadores. Mascaram-se de ócio e depois obrigam-nos a trabalhar o dia todo. Ao sábado não há direito à preguiça. Agressivos, também. Desencaminham-me os desejos. Abomino tomar decisões ao sábado! Sim? Não? Talvez? E uma quarta hipótese, não aparece? O sábado é um embuste. Caio invariavelmente no logro.

 

Ao sábado as famílias ficam em casa. Afadigam-se tanto! Afiançam que são capazes de concretizar as vontades acumuladas na semana num só dia. Mas não podem. E há circunstâncias em que há vazio de pessoas ao nosso lado. Há momentos em que ninguém olha para nós. Só para si. Ao sábado choro a ausência de pessoas que amo. Ao sábado abro as janelas e as pessoas andam na rua. Com pressa. Como se fosse o último. É danosa a solidão que sentimos com gente ao lado.

 

Até chego a pensar que o vento e a solidão me devolvem o entusiasmo. Só que às vezes não percebo o vento e a solidão projecta silhuetas  nas paredes da minha verdade. Gosto da minha companhia. No entanto, sei que não me basto e aborreço-me com a solidão.

 

Por isso, comi arroz-doce acompanhada. Partilhei-o com a cor do infinito, do distante, da utopia. Também do frio, da frescura da manhã. O meu sábado coloriu-se de azul. Teve baloiços e ecorregas.

 

E as palavras surgiram, como sempre, doces e amargas. Decepcionadas e impetuosas. Iam e vinham, apregoando a sua liberdade de existir. Não estavam presas, nem engarrafadas. Umas brotaram violentas, ciclones devastadores. Outras irromperam tão plácidas que souberam a água benta.

 

Quando as palavras são aferrolhadas formam atoleiros ilegíveis. Há que moderar verborreias escusadas. Quando libertadas, as palavras desmoronam-se em avalanche desnorteada. Por causa disso, falámos. Muito.


Hoje é sábado. Eu quero a minha solidão. E poder dizer e falar sem nada pronunciar… Quero falar ao vento de todas as agonias sem os acanhamentos da minha ignorante humanidade. Quero a voz do silêncio e sentir a saudade.

 

Ao sábado tenho tempo…

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...