Sábado, 23 de Maio de 2009

Sonhar [acordei cedo.muito.tanto]

 

Sonhei na quietude do meu sono. Acendi a luz, para o olhar nos olhos. Envolvê-lo nos meus braços desnudados. Ri. Tanto. Tanto. Muito. As gargalhadas rebolaram pelo chão do desfalecimento, redizendo estouros da insana ambição. Naquele instante, percebi que as minhas mãos desapareceram… e arrependi-me de ter acordado sem vontade de acordar. Só o queria ter… Abraçar os seus pés e caminhar neles.

 

Agora, apenas me recordo de metade. De quase pouco. Lembro-me de tudo. Tanto. Tanto. Muito. E no leito do meu rio, as ondas desarranjam-se em soluços remexidos. Aqui. Lá longe. Na claridade do Céu. Azul.

 

Que ave foi aquela... cúmplice, carinhosa, companheira, espontânea... que adoçado trinado motivou a cobiça dos ventos e afrontou os trovões? Que ave foi aquela que não ultimou, no seu sono, o sonho que esvoaçou? Aquela foi a ave que o meu sono acordou… e que em tempos discursou sobre a fragilidade das multidões.Tudo passa.Tudo passa. Tudo passa... Aquela foi a ave que o meu ombro serenou..

 

(fotografia de Paulo Santos)

 

 


Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

clarear

o negro da noite dissipou nuvens assustadas

 

Mesmo que o preto não seja uma cor. Mesmo que carregue cicatrizes imperecíveis. Mesmo que faça na minha noite desenhos a carvão, eu quero-o. 
 
Por isso, desfechei todas as janelas. Quebrei os ferrolhos, rasguei os cortinados, estilhacei os vidros martelados de aflições… E de tanto as escancarar, a minha casa já só tinha janelas…
 
E da janela, que é a minha casa, o preto foi a cor que lá estava. Esplendorosa na delicadeza das estrelas. Feminina no rendilhado das feições … Contornos soberbos… Com grandes curvas, bem definidas e numa bênção celestial, descobriu os seios tão definidos… agora nus de uma folgada blusa preta com florinhas deslumbrantes.
 
E pela janela, que é a minha casa, eu vi aquele negrume tão belo… e num gesto irreflectido entreguei-me na condição da inteira ausência da dor… na certeza que o preto é tão-somente uma cor. Ali, naquele mesmo instante, na alegria da noite, o preto tornou-se numa das cores mais claras que já vi...
 
(imagem da internet)
 

Domingo, 5 de Outubro de 2008

encaracolar

de Emanuel Couto, caracol trepador

 

Porque hoje é domingo, só me apetece parar. Pular, saltar e conjugar o verbo espreguiçar. Eu, tu, ele, ela, nós. De vós não quero saber. E deles nem pensar. Fazem muito barulho e não quero acordar. Ou não! Vou imitar o caracol. Ponho os corninhos ao Sol serenamente. Durmo velozmente. Como lentamente. Mexo-me calmamente. Não faço nada apressadamente. E aguardo paulatinamente que acorde amanhã. Tudo excessivamente devagar. Tudo vou adiar. Tranquilamente. E se me lembar, não dou corda ao relógio. Para que ele não se atreva a falar. Depois, subirei cada degrau, da minha escada, vagarosamente. Não os fizeram para eu descansar? Não? Então, vou subir muito devagar!

 

E a notícia é de última hora. O caracol, que tentou subir apressadamente a parede de sua casa, sofreu um acidente cardiovascular. Foi assistido no local e transportado de urgência para o hospital mais próximo. Chegou já sem vida, vítima de paragem cardíaca ocorrida durante o transporte, informaram pausadamente. O funeral do irrequieto gastrópode sairá daqui para a sua terra natal. Espera-se a presença de conhecidas figuras públicas.

 

Mais não explicaram. Nem é preciso.

        


Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

cantarolar

o azeite é  um hábito saudável

 

o cantar do galo

 

 

É uma banalidade apregoar o renascimento das tradições. Porque pilares culturais que urge manter de pé. O tempo escasseia e o melhor é nada pensar. É comum dizer-se que o presente é espaço de confluência de pretéritos perfeitos e imperfeitos. De condicionais também. É uma vulgaridade recorrer a tempos conjuntivos para que certifiquem admirações e desejos. Sentimentos emocionados. A dúvida, a espera, o desejo, a esperança que queremos presente e futura.  Anda-se com a cabeça no amanhã. Só que o corpo carrega as marcas de ontem. Caminham  de mão dada.  Ente ambos o hoje.

É uma tolice reclamar apreço pelo ontem quando os olhos estão no futuro. E os ouvidos nunca ouviram falar nele. São jovens e os adultos já se esqueceram. E quem tem culpa que Egas Moniz defendesse o valor da palavra com uma corda ao pescoço? Anacronias desajustadas. Os jovens não têm pressa e a memória mede-se em megas e gigas. Lá fora, há a rua. Só que  sem passado não se edifica um futuro sólido.

É despropositado repisar que a obesidade é um mal. As pizzas são deliciosas e os hambúrgueres também. As batatas fritas têm queijo. Presunto e mau colesterol. O tempo esconde-se. Escasseia. E as latas com abertura fácil respondem à pergunta o que há para o jantar. Simplicidades com efeitos perversos.

É, portanto, inútil reafirmar a importância de tradições alimentares. De nada serve a chamada dieta mediterrânea. Essa história da Ilha de Creta ter habitantes saudáveis e bem-dispostos é uma lenda. E as lendas não dão de comer a ninguém. Ainda por cima, parece que os tipos comiam muita fruta fresca e legumes. E peixe. Nada de fast-food. Tudo aromatizado com ervas e temperado com azeite. Arcaísmos gastronómicos sem sentido.  Não são. Antes paladares e aromas a actualizar.

 

Não faz sentido, mas eu insisto. Há tradições que merecem ser recuperadas. Com sabedoria. Há passados a ser presentificados. Pela nossa saúde!

 

O meu passado tem incursões no olival. E correrias com cabriolices de saltar e correr. E trepar. E brincadeiras com as oliveiras. E a apanha das azeitonas. Sacudiam-se os ramos com varas e as azeitonas, no chão, deixavam-se apanhar. Depois, cirandava-se para que o vento levasse as folhas. E as mulheres cantavam. Tradições! Esta é para esquecer. Dava muito trabalho e danificava as oliveiras. Hoje é tudo mais moderno. E havia o rabisco da azeitona. E naturalmente, o azeite. Que ainda há.

 

E é por causa do azeite, produto tipicamente mediterrânico e milenar, que a publicidade me agradou. Gosto da receita, dos ingredientes e do meu país. E da voz.  Com reduzida acidez. Porventura de proveniência  seleccionada. Decantação e assentamento  feito ao natural e com pouca luz. Amarela-esverdeada, com pepitas douradas, cheiro e aroma de frutos. Produzida em Portugal. Um país com tempo. Com tradições, hábitos e costumes. E quando o galo canta pela manhã é apenas para anunciar que é tempo de acordar.

 

Nota - Se música da playlist  incomadar, deligue no botão do rádio ...

 


Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

pescar

 

melhor vida para o coração

 

 

Pela boca morre o peixe. Pois morre e ainda bem. Gosto dele e não o comeria vivo. Agora que é uma chatice é. Não havia necessidade de um rifão popular para adubar a morte. Já basta saber que ela existe. E chega com eufemismos diletantes, por isso irritantes. Óbito, falecimento e término da vida não é tudo o mesmo? Ir para o céu é uma expressão danada. Então a gente morre e inicia uma viagem destas? É que o céu é longe. Se as agências funerárias já cobram uma quantia elevada só para o cemitério local, imagine-se para o céu. Bater a bota não gosto mesmo. Porque impossível, porque grotesca. Ninguém se lembra de comemorar a sua morte com uma batidinha de botas. A morte é tão lerda que não merece primores vocabulares. Tem o que merece. Cá para mim, até podia ser pior. Há que enxovalhá-la para que tenha vergonha naquela fuça hedionda.

 

O peixe até pode esticar o pernil que é como quem diz a barbatana. Ninguém o manda ser guloso e engolir o anzol. Coitado! Foi assim que o compuseram. Só acata as disposições da natureza. Por isso é peixe e não outro bicho qualquer. A morte também, só que mais horrenda. Prefiro a boca do peixe. Grande ou pequena tanto faz, desde que peixe. Não se pense que a humana boca não é dada a devorar ardis alimentares.

 

Terrível, a boca da gente. E é por estas e por outras que ando para aqui preocupada com a minha. Só porque não quero morrer com ela aberta. Não questiono se vou para o Céu ou para o Inferno. A minha metafísica é tão terrena! Quem cá ficar que decida para onde me quer enviar. E é por causa da minha boca que tenho a cabeça, pelos vistos o corpo, cheio de triglicerídeos. Uma palavra cuidada para nomear a destrambelhada da gordura que me circula no sangue.

 

De boca bem fechada, pasmo-me com a coisa. Saturadas e insaturadas. Mono e poli. Ómega 3 e ómega 6. Origem vegetal e origem animal. Enfim, uma parafernália de prefixos e sufixos. Gorduras boas e gorduras más. E eu sei escolher de palavras difíceis e conceitos tumultuosos e nocivos para o meu coração? Por isso, vou aboli-los do meu dicionário. Não as quero, não.

 

Prefiro a prelecção clara da médica que escreveu e escreveu numa folha de papel com muitas linhas e depois disse e disse. Também explicou. E murchou a minha vontade. Tudo aceitável. Tudo exequível. Mas limitar a minha gula queijeira ao despretensioso queijinho fresco é que não lhe perdoo. E os amanteigados, meu Deus?

 

Porque pela boca morre o peixe, até vou cumprir a deliberação. Contrariada. Mas vou. Pelo menos vou tentar. Pelo coração. Gosto de me admirar e de me desiludir.  De amar e de sentir. De chorar e de rir. Gargalhar com lágrimas. Preciso do coração, não é?

 


Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

pelos médicos

m  Ouvi na RFM...

 

Hoje é dia nacional do médico. Dia consagrado a uma profissão admirável. Num calendário já sem tempo para lembretes, surge mais este. Acho mal que haja necessidade de lhes dedicar um dia. É mau sinal!  Não por eles, que os admiro. Antes pela nossa rica saúde.

 

Fico torturada. Não sou consumidora compulsiva de médicos. Desprezo medicamentos. Basta um mero analgésico colorido para me dominar. Abençoados, mas medonhos. Alguns provocam tomas incontroláveis. Abomino hospitais. As portas estão fechadas. As janelas não olham o mar. Mas o que eu odeio mesmo é estar doente. É tão enfadonho! Tão nostálgico. Deprimente. Humilhante, mesmo. Doença é privação. Doença é padecimento. É dor e dor dói. Logo é ruim.

 

Fico sem espírito. Mesmo que os achaques sejam na carne. Isto de perder a alma é mesmo uma grande maçada. É que a palavra espírito significa "respiração"! E quem é que consegue viver sem respirar? Eu não! Mesmo que esteja em causa o conjunto total das faculdades intelectuais. É o mesmo. Posso lá viver sem elas. Mesmo que acanhadas. São as minhas! E a minha alma é lusa. Acorda sempre  de manhã. E comove-me. Às vezes chora.

 

Fico sensível. Os sentimentos atropelam-se. Agudizam-se. Revelam-se. Claro que isso me agasta. Desculpa, estou doente… Passo o tempo todo nisto. Assim, como se o estar doente fosse da minha responsabilidade. O que me salva é o facto de perceber que os outros não têm culpa. Presumivelmente também se acham doentes. Só que não dizem. Disfarçam as dores. Calam os gemidos. E isso também dói!

 

Fico preguiçosa. E lá vem a história do bicho. Um mamífero estupendo, contudo preguiçoso. Bicho-preguiça… convenhamos que é um epíteto a raiar o impropério. Tudo por causa do metabolismo muito lento que lhe peia os movimentos. E qual é a sua responsabilidade na coisa? Nenhuma! Mas da fama ninguém o livra. Isso é certo. Deve ser por ciúme. É que o animal vive na copa de árvores de florestas tropicais e não vai ao médico queixar-se de stress, nem de “bullying”, nem de depressões no final de cada período lectivo. Porque nas árvores não há escolas públicas tremidas por tornados assimétricos e insanos e obsessivos. E têm sempre os genéricos! As árvores têm remédio para tudo. Natural e gratuitamente. Sem prescrições e instruções registadas em decretos-lei. São preguiçosos, mas felizes. Magnífica vida. Dormem catorze horas por dia. Não têm médico de família, bem-feita. Morrem e pronto. Nós também.

 

Fico doente. Uma dor aqui, outra acolá. Uma gripe. O pior mesmo é quando chegam as “ias” e os “omas”. São agressões à nossa própria natureza. Ocasionam graves distúrbios no nosso mundo interior. Afastam-nos de uma existência ajustada à realidade. Roem-nos o corpo e o espírito. Minam-nos as vontades. Desgastam-nos os sonhos. Complicam o futuro. Apagam as esperanças. Não gosto da bata. Sabe a escola, mas tolero o estetoscópio.

 

Fico transtornada. Estar doente não dá jeito nenhum. Qual é o artigo que escrevo para testemunhar a minha enfermidade? Telefono antes ou depois? Vou ou não vou? Sou capaz ou não sou? Volto ou não volto? Vou acabar na Biblioteca ou não vou? Chega! Isto de alimentar o corpo e a alma em simultâneo sai caro.

 

E querem que eu vá ao médico? Vou fazer como a Preguiça. Morro e pronto.

 

Nota - Antes do meu funeral, deixo aqui o meu agradecimento aos médicos que já me cuidaram. E aos que sorriram para mim. Mesmo quando o fim estava ali. Eu gosto deles, não vou é visitá-los.

 

 

(Fotografia da Internet)

Estou: admirada

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...