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ponto de admiração

ponto de admiração

29
Mar16

A outra margem [restauro mentalmente um barquinho de papel]

Paola

cegonha.JPG(Foto de João Mendes)

 

   Havia a outra margem. Era o lado de lá que se desfazia em acenos. Satisfação. Água. Contentamento. E muita areia. Depois regressavam as cegonhas. E os ninhos. Tanto voo para alimentar as crias. Equilibrismos. Asas ao vento na mira dos pastos. A minha mãe explicava-me que era assim. Que as mães tinham que alimentar os filhos. Que dava trabalho, mas que os cansaços sabiam bem.

Em baixo, o canal bordejado de verde. O colo de uma água tranquila. Segura no cumprimento da sua missão. Alimentar as lavras do arroz. Corria lentamente. E os rapazes atiravam-se a ela em mergulhos destemidos. Em despique. Ela ignorava-os. O arroz bebia-a até à última gota. Uma ponte. Cansada. Rouca de tanto alertar os miúdos. A seguir, sempre em frente, era a totalidade de tudo o que existia. O meu tudo. O rio, sempre o rio. Azul. Sossegado. Seguro. Apenas quando chovia se mostrava desinquieto. Havia o bote e os remos. E eu ia. Por vezes, e foram tantas, saltava um peixe. Eu sorria. Ficava a olhar, calada no silêncio líquido da maré cheia. Eu sabia que chegaria a vazante. Que não podia sair dali. O meu pai tinha-me ensinado os rostos do rio. Houve dias em que me esqueci. A solução era deixar o bote. Saltar para a água e caminhar pela lama atá à areia. Foi assim que comecei a saber o rio por dentro.

No meio do rio, não pensava em nada. Não havia hora marcada para a doçura do marulho. Pressentia-lhe os desejos. Ouvia-lhe as vontades. Conheci-lhe a voz. A dança e o ritmo. Os sonhos. Via-os azuis. Com sopros de tranquilidade. Eram sorrisos com sabor a sal. Eu lambia os dedos. E quando tinha fome, mergulhava. O meu corpo jurava que a água estava fria e ele ria-se com pequenas ondas de cristas alvacentas.

Há pessoas que nunca provaram um rio. Não o mastigaram num silêncio perfeito. Ignoraram a espuma. Que nunca correram atrás de um caranguejo. Nem engenho para segurar os lingueirões que se encovavam na areia. O meu pai sempre lhes chamou canivetes e é assim que me lembro desses linguarudos moluscos. A verdade é que a concha retangular, adelgaçada e longa cortava mesmo. Os distraídos e desajeitados. Os que nunca tinham saboreado o rio. Os outros não, que sabiam como pegá-los.

Lembro-me dos homens indignados. Com o vento e com a forte ondulação. Com o nevoeiro. Afirmavam as âncoras e a ausência das redes. As mulheres ignoravam os queixumes. Criticavam as invetivas desmesuradas. Asseguravam a inutilidade dos ditos mordazes, ofensivos, provocatórios. Que o rio era assim. Que era uma questão de liberdade. De autonomia.

E eu, que era obrigada a ficar em terra, fundeava no meu porto de abrigo. Era um quarto pequeno. Com uma enorme janela para o rio. Ali, eu construía botes de papel. Navegava. Fugia. E voava ao ritmo da maré. Só voltava quando a minha mãe anunciava a hora do almoço.

27
Mar16

Oportunidade

Paola

DSCN2900.JPG

passam as horas

esgotadas no relógio

passam os filmes

amarelados no ecrã

passam os pés

impacientes na calçada

passam as vozes

indolentes pelo rio

passam os dias

esfarrapados pelo tempo

passam as tempestades

insubmissas pelo céu

 

e eu fico

sentada na expetativa de mim

ou de ti

 

que passaste.

31
Ago15

O rio

Paola

Poisadas - rio.JPG

 

Queria tanto ser o dia. A noite e o mar. Enfiar o Sol na algibeira e escorregar pelo momento. Pisar o verde. Beber o perfume das flores. Desenhar ramos de papoilas. Trepar aos frutos e comer os figos. Para deixar as árvores agarradas à raiz.

Queria muito acordar abraçada à voz do meu passado. Beijar a manhã contar uma história de encantar. Com duendes pequeninos. E fadas. E o pipilar dos pardais. Parar no crepúsculo que paira na nitidez do quadro que jaz solitário na parede do quarto.

Queria fruir o mar que tem o rio. Demasiadamente…

 

22
Ago15

Sardinheiras

Paola

O roxo alastra-se pela alegria do vinho num copo descansado no alabastro do dia. O jornal cai pelo chão amarrotado pelo deserto das notícias repisadas e os teus olhos perdem-se na contemplação do tempo que escorrega pela ladeira ornada de sardinheiras vermelhas. São flores sentadas nos postigos das velhas que se benzem e cantam rezas muito restritas e pendentes nos retratos alinhados em cima das cómodas. São memórias de sombras vagas que lhes definem confortos do luto dos vinhos.
E tu seguras as paredes nuas do quarto. Sentes a ausência das lágrimas. Pensas que a pele é insuficiente para absorver o líquido que escorre do copo. E sais. Lá fora estugas o passo. Enquanto eu arrumo os copos já esquecidos do momento. Apenas as sardinheiras exultam o esmero da cor.

 

(Fotografia da Internet)

16
Jun15

Água do rio

Paola

Fred Fichet.jpg

Hoje, vou revelar-te um segredo. Não pretendo que cantes. Que rias ou que me digas que sabes onde fica o desejo. Porque não sabes! Tu nunca ouviste o rio a cantar. Nem te atreveste a socorrer a gaivota deitada na areia. No rio havia um bote. E no bote, umas mãos que me abrigavam dos ventos e das marés. Sobravam as gargalhadas que trepavam pela duna. Um sorriso que me vestia quando pulava para terra. Não sabias. Agora, não quero que o vulgarizes. Ninguém compreenderá que o rio corre ao contrário e que se derruba na foz como a mesma voracidade com que o tempo me rouba os momentos. Porque desconheces que eu sou água e ignoras o que é partir e ficar. A olhar o rio…

 

Escultura de Fred Fichet

14
Jun15

Pelo caminho [as cegonhas são uma etapa]

Paola

cego.JPG

Quando era menina, chegar aqui assinalava o início da caminhada. Depois dali, os passos marcavam a cadência e a melancia amenizava a sede. Os fetos exultavam no estardalhaço do verde e enovelavam-se nos pinheiros. A cegonha ficava. Ao ritmo das crias. Na segurança do lugar. E a minha mãe dizia “Chegámos” com a boca cheia de satisfação. Sem que eu percebesse a razão. Porque faltava tanto.
Agora entendo que as cegonhas pertencem a um só lugar. Como ela. Estejam onde estiverem. Porque o céu é azul… Sempre lá no alto.

 

(Fotografia de Júlia Pacheco)

12
Jul13

Caminhar [numa doce extensão da minha casa]

Paola

 

 

 

 

Está aberta a época dos caminhos. E eu não sei as cores duras das pedras. Mas oiço as acetinadas e ternas palavras que se calam num silêncio obstinado. Os percursos que segredam ao fim da tarde num tom de chão coberto de cheiros com texturas que redimensionam o azul do rio. Se as pedras não falassem não havia atalhos. E eu não saberia por onde ir. Às vezes, pernoitam nas bermas e estendem pavimentos desenhados na poeira da terra. Ficam-se na admiração das margens, sossegam na frescura do verde. Depois abraçam-se aos fetos que estão abraçados aos pinheiros que se beijam na loucura do verde. É daí que espreitam o rio. Entram no barco e vão até ao areal. Depois, ficam a olhar. Riem à gargalhada e comem ruborizadas melancias.



08
Jun13

Da janela não se via o rio...

Paola

 

 

A minha janela não se abria para o mar. Nem para o rio. Era uma janela pequena, com duas metades envidraçadas. Agarravam-se à parede com dois ruidosos ferrolhos. Pela manhã abria-a. E de imediato entrava o canto dos pardais. E o areal que se alongava até à fonte. Para o lado esquerdo, os pinheiros. As murtas e a carqueja abraçavam-se no branco das bagas. No amarelo das flores. O baloiço rangia as cordas empurrado pelo vento. Por vezes, subia até às carumas e caía. Para recomeçar outra vez. Um pinheiro manso e suave. A copa densa e ampla arredondava-se em forma de chapéu-de-sol onde eu cabia inteira.

Não me importava que a janela não se virasse para o mar. Porque o rio entrava pela porta. Dava a volta à casa e estendia-se no areal. Brando como a sombra do pinheiro. O rio não cabia na janela.

Já não existe a janela. Nem a porta. É por isso que o rio também desapareceu. Agora, apenas corre livre pelo meu corpo. Recuperado da minha infância.




(Foto de Meninas para sempre)


25
Abr13

memórias[quando as ervas rasgavam o chão]

Paola

 

 

 

Nada vos direi sobre o voo dos pássaros à volta dos figos. Dos pardais e dos piscos empoleirados na figueira na disputa dos frutos. Calarei a correria na direção das cerejeiras que perfumavam o vale. Não, nada. Não se fala de um rio que corre em espontâneas e contentes marés de azul. Em abraços hesitantes, calados, preservados nos ninhos das garças. Nem dos gritos das gaivotas e muito menos das cegonhas. Nem afirmarei que vi os ninhos cuidadosamente erguidos na torre da igreja. Vou calar a melodia que os sinos tocavam à tardinha. Nada direi das papoilas que rasgavam o chão na louca exuberância do vermelho. Do beijo que caiu.Não pronunciarei uma palavra sobre as mãos dela. Não vos mostrarei o sorriso que plantava nos vasos.Nem vos mostrarei as rendas que decoram as toalhas de rosto. Não vos maçarei com passados que escorregam ao meu lado, nem do alecrim que chora nos meus olhos.  Numa doce e amena brisa que me beija a pele. Nada vos direi. Nada. Porque não vos posso dizer que acordei com uma inexplicável vontade de ver. Estender os olhos pelo chão. Ir para lá e entoar versos coloridos e cintilantes. Até às raízes. Apanhar os cacos. Agarrar o corpo e saborear a alma. Ignorar a forma e pintá-los de azul. Na organização das marés. Na certeza que as minhas memórias não são de ninguém. Sou eu que lhes concedo a cadência do uso. Nada direi. Na desordem do tempo.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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