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ponto de admiração

ponto de admiração

01
Set12

Nascer em setembro [e a noite retomou o dia]

Paola

Foi há seis anos que nasceu um setembro tranquilo. Chegou com um contentamento azul nos braços. Um choro ténue, uma lágrima alegre e na noite abriu-se uma excecional clareira de luz.


Hoje, que setembro torna, há um recomeço que se diz em poucas palavras. Frases simples que contam histórias sobre o tempo. E o desentendimento por tantos relógios.


Agora diz que já é tempo de ir para a escola. Jura acordar cedo e não fazer asneiras. Vestir-se sozinho. Só não sabe se volta com as calças limpas. Tem que brincar com a namorada. Jogar à bola e marcar um golo. Procurar a dúvida no chão.

 

Eu disse-lhe para se apressar não fosse a escola acabar. Ou deixar de gostar.

 


01
Set09

rebuçado para a tosse [diálogo d'entrada]

Paola

- hum...
- pois…

- queres um rebuçado?

- porquê?

- tens tosse…

- ah!!

- é para a tosse… desembaraça… tira a cor baça…

- não é para mim…

- pois… é um modo de dizer…

- a tosse disse que não

- pois… e tu?

- eu não quero… não tem cor

- tem doce…

- cola-se… engasga...

- fazes mal…

- estou bem

- tens tosse

- cala-te

- fazia-te bem

- o quê?

- o rebuçado…

-deste-o à tosse…
- não dei
- ela não gosta

- parece que não

- não

- um rebuçado não faz mal

- nem bem… mas apoquenta… dá muitas voltas…

-
- não te vou morder

- podes melhorar

- estou tão bem

- não é morder… trincar é melhor

- pois…  trincar é quando o vidro quebra, mas não despedaça…

- parvoíce… a língua não se parte…

- não posso

- pois… podes roer as unhas…

- não tenho tosse
- palavras
- tanta água
- desculpa
- está bem…
- o rebuçado…
- se tivesse tosse, mas não tenho

- estás com cara de galão escuro

- estou tão bem
- não estás…
- não gosto

- do rebuçado?

- do leite… o café pode ficar…

- mete-o no bolso… o rebuçado…

- a bala... vou trabalhar…
 
 
 [imagem da internet - bala=rebuçado]
 

 

30
Ago08

adormecer

Paola

  regresso à escola ou

 

 vidas, pecados e saltos mortais

 

É sábado, eu sei. Amarelo e estreito. E depois? Um dia a seguir ao outro. E o outro é sexta-feira. E depois? Se a contagem é decrescente. E o ano tem nome. Não é Juliano, não. Nem sequer Gregoriano. Tem nome que não digo. Há muito que a maravilha é a Lua. Também o Sol. Ainda mais o encadeado dos dias e das noites. E a Lua tem fases. E a minha não é boa. Mirra-lhe o brilho que já teve. Definharam as vontades. Adormeceram as intenções. O tempo é insuficiente para recitar o ciclo das estações. E agora é Inverno. Neva no beco sem ali. O Sol desfez as lendas, abriu fendas. Está frio. Tenho frio!

É sábado. A semana tem sete dias. E o sete é um número de mistérios. Significados e simbologias. E sete são os dias da semana. E depois? Se o sétimo dia é sábado. E sete são os pecados mortais. Inveja, Gula, Soberba, Vaidade… perece o último sábado de Agosto. Eu sei. É sábado. E depois?

O sete é símbolo da perfeição. E que importa se é uma ilusão? Se o mês acaba aqui. Amanhã é Setembro e eu já nem me lembro de um dia assim. Desconsolado e pardacento. E como o gato tem sete vidas, quando só de uma necessita, duas serão para mim. Fico com três. Exactamente a conta que Deus fez. Para morrer e ressuscitar a seguir e voltar a morrer quando calhar a minha vez. É sábado, eu sei. E depois? Se é o último e as inquietações chegarão mais do que sete. Por isso, não comi, como de costume, o admirável arroz-doce da dona Perpétua. Porque segunda-feira não é dia gulodices. E a gula é um dos sete pecados mortais. 

Segunda-feira é a introdução. O ponto de partida da história e a apresentação das personagens. O desenvolvimento vem a seguir. A intriga e muitas peripécias. E o clímax chega de mansinho. A conclusão? Só quando tudo estiver bem resolvido. O desenlace? Narrativa aberta. Com algumas fendas. Prometo não invocar o santo nome de Deus em vão. Sempre que possível e se o engenho e a arte me coadjuvarem. E santificarei os domingos, certamente. Os sábados  que os antecedem. E todas feriados e dias santos. Todos!

Porém, não me obriguem a guardar castidade nos pensamentos e desejos. Desacordos e insatisfações. Não posso! Nem serei capaz. Mas vou pedir que me contem uma história de pensar. Com os Sete Anões. A Branca de  Neve mais o Príncipe. E o beijo. Mas sem a madrasta rainha. Para não ter que fugir a sete pés. Não posso. E a minha intimidade como os laboriosos pequenotes conta-se no livro que recebi num Natal, em Dezembro.

 

 

[imagem da Internet]

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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