Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

beijar [como o mar beija a areia]

Fez-me o sol a vontade de me levar até aquele dia. Exactamente aquele em que me enlaçaste na fome da luz. Na cobiça do vento. Depois, lembras-te? Os teus olhos nublaram-se. Eu vi… Nuvens escarlate aqueceram-nos as bocas num beijo que brotou ali. Floresceu no sabor a frutos de delírio que estendias na areia. Recusaste a toalha… e estendeste os nossos corpos no areal, não foi?
 

O beijo ficou por lá... E foi um beijo tão sumarento que nos amámos sem fim. Ao fundo, num plano exaltado, a paixão desmoronou-se no mar. Deitou-se sobre a areia escaldante. Nua. Sua. E deixou-se levar. Enrolaram-se na boca faminta de um grande amor.

 

Hoje, meu amor, sentei-me naquele lugar… E foi lá que me pus a procurar. O mar estremeceu na areia e guardou os beijos que naquele dia fundeámos. Até os penhascos suaram nos resquícios do calor… E eu desejei ter ali um espelho… com medo do mar.

 

 


Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

insultar [na teimosa valentia de saber a verdade]

 

Ericeira, Paola

 

 

 

Num inusitado desacerto mundano, eles puseram-se a conversar. Um jurava que a Lua estava a brilhar. O outro, no mais benevolente insulto, logo detectou o erro. Garantiu que o Sol é que se notabilizava assim. Que uma coisa era o luar e outra a luz solar. Tão desiguais, como o dia era da noite. E que não percebia o equívoco. Ele ouviu a admoestação. Que não estavam a ver o mesmo. Aí estava o engano. Era a noite que ele via. Nem entendia os fundamentos para importunar a noite. Se o outro o dia sentia, problema o dele. Enrolaram-se pela parede esquinada para disfarçar o embaraço. Na esquina do dia, procuravam a resposta. E discutiam, discutiam. Tanto, que se reencontraram no outro lado da rua. À esquina. A enviesada conversa continuou na afabilidade do desacordo, desatando a discorrer qual seria. Qual seria. Não se entenderam, os rapazes, na tamanha desarmonia. Nenhum prescindiu da sua razão, esgotados os argumentos.

 

Ele desceu a ladeira, porque tinha a certeza que aquele era o seu caminho. E desceu. No umbral da porta, virou-se para baixo e viu o Sol. Chorou. Soube naquele instante que o seu fulgor intenso lesões graves.

 

Ele subiu a loutra adeira, porque estava certo que aquela casa era a sua. E subiu. Na ombreira da porta, olhou para o alto e viu a Lua. Sorriu. Sabia, agora, o que é um erro de perspectiva.

 

 

 


Terça-feira, 26 de Maio de 2009

arder [entre a verdade, a mentira e o impedimento]

 
 

Acordei destapada pelo Sol que entrara afoitamente pela janela. Que descuido, o meu! Assim, como se eu fora raios que ele desbaratara em criança… Não era! Nem sou!

 

O meu corpo desejou chuva. Ao menos, ela chorava a meu lado. Molhávamos as mágoas. Emergíamos das dores. Do alto. No aprumo de ser.

 

Subitamente, lembrei-me que não posso apressá-la. Ela cai quando quer cair. E tombar. Na genialidade de acontecer. Escorregar. Alcoolizado desejo de molhar. Tantos rostos! Muitos! Copiosamente…

 

E eu cheguei a acreditar que ela apenas molhava o meu… Só que nunca aconteceu. Cheguei a pensar que estava apaixonada, mas descobri que era apenas desejo. É que eu sinto pela chuva a mesma coisa que sinto pelo Sol...

 

[fotografia de Ricardo Silva]

 

 

 


Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

acordar

de Jorge Soares

 

Gosto de dormir até acordar. Sem intervalo. Adormecer as horas cansadas.  E sonhar que não me vou levantar. É só um sonho. Não é crime, é? Às vezes, já na cama, adormeço com a noite. E ela conta-me histórias de embalar. São cumplicidades que embrulham sonos e sonhos. Ela fala-me de penumbras e escuridões. Eu garanto-lhe que há luz. Ela garante que o Sol é amarelo, mas nunca o viu. Leva as mãos à cabeça e chora.

 

O dia acordou depois de a noite ter adormecido. Bem cedo! Espreguiçou-se, bocejou e disse qualquer coisa que não compreendi. Palavras arrufadas de quem lava os pés na água que corre fria. Exclamações amarelas de quem acorda com o gorjear dos pardais. E com o alvoroço do galo na capoeira. E com os grilos que cantam o alvorecer: gri‑gri...eu não morri... eu não morri... Estava frio e o Sol despertou também. Tomou um duche rápido. Vestiu-se. Tomou o pequeno-almoço. Pôs-se à janela determinado na espera. A Lua haveria de chegar. E talvez, seranemente, sussurar sem a olhar:

 

- Desculpa! Vai-te deitar. Já é tarde.

 

E o Sol deitar-se-á com um enorme sorriso nos lábios. Sem lhe tocar. Adivinha-lhe o rosto. Define-lhe o gesto. Chorosa, a Lua, confessa que assim não é feliz.

 

E eu, que não interfiro em guerras conjugais, espreguiço-me e grito ao vento que Gosto tanto de acordar todas as manhãs!

 

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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

adornar

o bem das laranjas

adorno urbano

 

 

Ia eu pela rua abaixo, enrolada nas prioridades da vida, quando reparei numa laranjeira. É que os passeios estão adornados por estas admiráveis árvores. Normalmente, desvio-me delas. Uma laranjeira redondinha. Médio porte. Frondosa e verde. Num dos seus braços suportava, com dificuldade, uma filharada imensa. Todas meninas, porque o limoeiro não andava por ali. Bem nutridas, percebe-se pelo esplendor da sua pele. Com vestidinhos alaranjados. Com um laçarote na cabeça. O Sol, que já aquece a manhã, consolida-lhes a cor. Amadurecem e atiram-se para o chão furiosas com o menosprezo que recebem dos caminhantes.

 

Uma laranja diz que se lembra das alegres narrativas que se faziam numa laranjeira já adulta. Uma citrus sinensis alta e de folha imortal. Admirada pela força que ainda tinha. Pelo carinho com que ciclicamente se cobria de flores. E como vivia esta fantástica fase da sua vida. Bonita e cheirosa, esperava pacientemente que os frutos atingissem o tamanho de uma bolinha de chumbo. Depois, ria envaidecida por vê-los crescer. A forma, a cor e sabor. Ela conhecia-os melhor que ninguém. Eram sempre doces.

 

E diz que ouviu falar de uma rapariga. Uma jovem que colhia as laranjas pela manhã. Enfiava-as numa cesta e ia embora. Todos dias eram assim. A moça das laranjas estendia-as às pessoas que passavam. E mais do que uma vendedora de fruta, era a vida que ali estava. Uma pintura dourada pelo Sol e iluminada pela ternura que resplandecia do laranjal. A jovem, insiste a laranja, sustentava a fome ao portão. E vendia-as todas. Até acabar e comunicava que voltava no dia seguinte.

 

E contava que ouviu ameaças, gritos e correrias. E muito trambolhão de cima do muro. Eram os rapazes. Visitantes clandestinos que tinham como alvo as maravilhosas laranjas que ali existiam. Aquela muralha de tijolos sarapintados de branco era o limite que ousavam desafiar. Afinal, eles conheciam bem aquela doce perdição. Uns preferiam ficar debaixo da laranjeira, eu preferia subir para poder admirar aquela admirável árvore. As laranjas do alto eram mais doces e estavam mais pegadas ao Sol. E as folhas mais verdes renovavam-se por dentro e permitiam que os sonhos ganhassem asas. E saltitassem de ramo em ramo. Às vezes abeiravam-se da raiz. E ali, eu aprendi o cheiro e o sabor da laranja. Da laranjeira que as gerava com bem-querer.

 

A laranjeira que eu vi não tem histórias para contar. É só uma laranjeira espetada na calçada. Com laranjas avinagradas. Empalidecidas. Que apodrecem ali. Ninguém as vê. Nem têm muro que as guarde. Nem é preciso. Os rapazes enjeitam-nas e vão ao supermercado. Mas, em caso de dúvida, podem voltar. Aprender que a laranja nasce assim. Ainda bem que há laranjeiras na minha rua. Não vão eles pensar que já nascem ensacadas. Todas lustradas e do mesmo tamanho. Por um mecanismo especialmente projectado para o efeito. Automatismos que se ganham, outros que se perdem. E como era bom comer laranjas no laranjal...

 


Sábado, 2 de Agosto de 2008

sonhar

o direito de sonhar é universal

 

Admiráveis, os sonhos. Sonhar é bom. Enche a cabeça de memórias e de vontades. Desejos que ficam no papel. Que dão volta ao mundo. E o Sol ilumina-os. Desvendam-nos por terras e mares. Entre o possível e o impossível, nasce o entusiasmo. E concluimos que somos capazes de fazer um desenho... E a vida é melhor. É que, às vezes, quando sonhamos muito as coisas acontecem... e somos crianças no baloiço a baloiçar. E temos o colo da mãe para dormitar. E do pai para embalar. Depois, chega a preguiça, pegamos nas asas e voamos. E voltamos sempre ali.

 

E voltei como sempre. E comi arroz-doce com canela e conversei muito. Agosto está de férias. Mas, mesmo num dia soalheiro e espirituoso sabe sempre bem misturar conversas. Assim, há tempo para todas. E isto e aquilo. E mais o outro e a outra. Hoje e ontem. Agrados e desagrados. E gargalhadas de chorar a rir. Sempre!

 

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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