Domingo, 17 de Fevereiro de 2013

Eu moro aqui [onde as pessoas sobem as escadas a correr]

Os meus vizinhos gostam de estar encarreirados nas gavetas. É de lá que percorrem um caminho encadeado e sem palmeiras nas bermas. E admitem a noite iluminada pela lua que se banha no rio. Às vezes, a lua cheia entra pela janela e cobre o quarto de luz. Deve ser por isso que eles acordam e fazem expedições pela casa. Garanto que tudo se assemelha ao envio de tropas para uma dessas imprudentes guerras que vagabundeiam por aí. E com um fim bem determinado.

Não sei o nome do indivíduo que mora no rés-do-chão direito. Nem da irmã que passa os dias a gemer. Desafortunada. Mas só grita quando ele vai tomar café. Eu sei que ele não está em casa porque ela gasta-se em altas lamúrias. Só por isso. Não trabalham. Se trabalhassem não estavam sempre à janela. Que ainda se espanta com a angústia da sirene das ambulâncias que correm na rua. E dizem bom dia a toda a gente que chega. Ela gosta de espreitar pela gaveta da sala. Garante que assim tem a sensação de ver a rua. A janela está guardada por uns cortinados de cores bastante vivas. O floreado dá vida à sala que se vira para o asfalto. O padrão concorda muito bem com o alarido que ela constrói todas as manhãs. É notável como as pessoas conseguem escolher tecidos com motivos e cores como se estivessem a adornar o coração. Gente simples. Desconheço as opções dos outros inquilinos. Nem sei se têm cortinas nas janelas.

Disse-me a tia Amélia, uma senhora que faz renda à tardinha, que no lado direito mora um casal que sai sempre cedo. E chega tarde. De vez enquanto, ela entra pela porta da frente. Parece que isso só acontece quando vai buscar o filho mais cedo à escola. Coisa rara porque não tem vida para isso. É a avó que aconchega o rapaz. Não duvido da tia Amélia que entrelaça desenhos com linhas coloridas. E toma café pela manhã. Ainda ontem lhe disse para ter cuidado. A idade não perdoa e os olhos gastam-se com o tempo. As mãos também. Se ela trocar as fiadas, como posso identificar as gavetas de cada um? A tia Amélia sorri e continua o naperon com que quer decorar o balcão da cozinha.

Os meus vizinhos são seres inventados que apenas partilham comigo a mesma escada e a porta de entrada. Os do rés-do-chão só a porta. Não sei quem são… Por vezes dizemos bom dia ou boa tarde. O que nos dias de hoje já é extraordinário. Fico a pensar que devem sonhar com uma casa amarela com piscina e um jardim pintado de verde que viram numa revista enrugada que fora largada sobre a mesa do café. Se olhassem para a data, teriam compreendido a disparidade temporal. Estou certa que continuariam a virar a página da mesma forma como viram os sonhos. Sem tempo nem espaço.

Não sei como gostaria que os meus vizinhos fossem. Penso nos atributos dos argumentos esgrimidos no patamar da entrada. Na rapidez de reação aos desencontros verbais. Nas campanhas de solidariedade cada vez mais acauteladas. Depois medito na perfeição da estruturação das ideias, no humor e na inteligência. E não me resolvo. Porque é certo prosseguir as conversas na sala e não sei se me apetece ter gente estranha em casa. Fico-me na irreverência do percurso. Pela audácia das palavras. Gosto de despir as palavras. Saboreá-las e não as entender. Olhá-las e ouvir o  som da independência que ressoa pelas escadas.

Gosto de ouvir o bater da porta e sentir as voltas da lingueta da fechadura. É assim que que sei que estou a sair. Porque é na rua que quero voltar para casa. É de lá que contemplo os habitantes do meu prédio. Já sei o nome de dois.


[pintura de Isabel Maia]



Domingo, 26 de Julho de 2009

fechar [na gaiola da vida]

 

de Coucelo

 

 

A porta encerrou-se na intransigência da fechadura. Na simetria do recolhimento, a passagem imobilizou-se no pensar… no anseio de voar. De ser saída para passos de arestas arredondadas. Sem receio do frio que estava na rua…

 

Na ombreira deste sonhar, a porta depressa entendeu que os pardais não têm a chave do telhado… sendo pássaro na gaiola da casa

 

 

 

 


Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

bendizer

silêncios em caracol

 

 
 
- Bom dia!!!
- Vai chover.
- Uma saudação…
- Pois.
- Não retribuis?
- O quê?
- O cumprimento…
- Ah!
- Então?
- Não percebi.
- Bom dia!!
- O quê?
 
Desci as escadas a correr no silêncio dos meus passos… apenas os degraus roncavam espasmos de dor provocados pela corrosão do tempo e pela distracção derrotada… pelo aguçar dos sentidos a cada fenda vibrada… Estreitos para os meus pés, chiavam espantos como clarins ao alvorecer da batalha, para anunciar a manhã. As passadas desmaiavam pelas tábuas enegrecidas… sem corrimão. E era noite, mais quarenta e dois degraus… um salto e um vazio.
 
Desci as escadas sem vivalma para bendizer… Persuadida de que já não havia ninguém com quem pudesse falar… nas escadas comuns... como converso comigo própria
 
[imagem da internet]
 

 


Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

resmonear

da Internet
 
 
Ao mesmo tempo que o frio rasga a pele, a chuva lambe-me as feridas e a dor cala-se num grito que dói. Com paladar a beijos indiferentes ao ar enregelado que sopra com rudeza. São afectos do longe, lá de cima… Bátegas de sustento que chegam à raiz. Aguaceiros de pão abeiram-se das folhas decadentes que se cumprem ao ritmo do vento. Gotículas de subsistência entranham-se no sôfrego tronco e o arco-íris denuncia o roubo das cores com um sorriso complacente.
 
A chuva chega ao rio. O rio começa a correr e eu persigo a água na expectativa de semear frutos que me abalaram do ventre. Sento-me, devoluta, e espero. Espero tanto que o vento amansa e, mesmo ali, pinta um retrato que aprimora para mim. Quando olho para a água, são os olhos deles que refulgem na escuridão. Então, vou ficar à espera que eles desabrochem, continuadamente.
 
Já vai longo o dia. Chove normalmente. Amanhã, não sei se volta ao normal. Nem sequer percebo nada de normalidade. Amanhã é o dia que não se tem… é condicional, mas vou continuar a esperar como se fosse futuro.
 
Não vou resmonear contra a chuva que não tive... Hoje, sinto-a a bater obliquamente no meu rosto. Escorrega pelo casaco e os seus dedos fluidos suspendem-se na bainha encharcada. Dali, pulam para o chão… Não vou resmonear contra a generosidade do Inverno… Apenas o injurio... porque afoga a chuva no rio.
 

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

desassossegar

solidão com palavras
 
 
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavras. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem.
 
E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
 
Livro do Dessassossego, Fernando Pessoa(Bernardo Soares )
 
E as palavras bruxuleiam desassossegos em mim, tu sabes. Não o vejo, mas sinto-o... Pressinto-o na correria desenfreada das palavras que fogem daqui. Adivinho-o nas vozes que ouço nos corpos que eu queria aqui. Perscruto-o nas pegadas abandonadas por passos que não sei. Vislumbro-o nas mesas vazias de café.
 
O café sabe-me sempre a desassossego. É a cafeína que conversa comigo até de madrugada sem sono de dormir. Se não converso com ela, entorna arrufos desagradados. Por isso, desço as escadas. Um café, por favor. Pensei, na inabilidade de pronunciar palavra. E uma chávena branca poisa comigo. Provocadoramente fumegante. Insinua-se em aromas libidinosos… e eu dou-me a uma tranquila paixão. E ali, reparto circunstâncias. Desassossegos da rua. Tudo à mesa do café… Ali, onde nunca estamos sós, porque fruímos o ruído dos outros.
 
Subi as escadas com o mesmo desassossego com que desci. Pressinto-o na correria desenfreada das palavras que fogem de mim...
 

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

espantalhar

 

A solidão surge agarrada ao espanta-pardais numa seara de trigo, no Verão, com feições de gente... Paralisado num aborrecimento de pau, ele demora-se na chegada do vento. Exige-lhe desvelos e crónicas de outras eras. E movimenta-se em ritmos perdidos no seu olhar. Serpenteia o coração e ouve o que ele lhe diz. E duas lágrimas desbotadas percorrem os trapos que vestem o espantalho. Para baixo, para orvalhar a raiz. O tempo ignora-o. Não o tem tratado bem. Dias sombrios, com noites de luz.
 
Eu desenterro silêncios ruidosos. Melodia de máscaras. Solilóquio de mim. Procuro-me… e sou ele numa mistura desenfreada de ecos e retalhos. Sou um espantalho dispensável e os pássaros fazem o ninho nas abas do meu chapéu. Sou um espantalho sem perigo, apenas o abrigo de pardais famélicos e sequiosos. Eu não quero a função de espantalhar. Se eu fosse um espantalho chamar-te-ia para junto de mim. Não assustava os corvos, nem os pardais, nem queria a cidade que se avista no fim. Escutava árias de amor com doçura na voz e gritava contra o silêncio. Desmentia os vultos que fogem de mim.
 
 
Larguei o destino. Ninguém vê  que o tempo é que espantalha assim, que quebra e derrota. Apetece-me fugir dali, porém vou ficar aqui enquanto os piscos cantam no medronhal...

 

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

avelhar

de Paola (Guincho, Cascais)

 

palavras com rugas e artrite reumatóide

 

A televisão está ligada desde cedo. As notícias divulgam-se ao ritmo das teclas do comando. A publicidade seduz pelo brilho e pela cor. As músicas são tão bonitas, comenta frequentemente. Não sabe nenhuma. Nem sequer é capaz de dar conta das novidades do país. Muito menos do estrangeiro. Não lhe interessam. Só quer a televisão ligada. Por causa do programa das receitas. Todos os dias uma. Que imaginação! Mas ela há muito que não cozinhava. As senhoras do Lar cuidavam do assunto. Por causa da companhia. E o aparelho cumpria a sua função. Falava. Cantava. Dançava. Representava. E até batia palmas. Só que ela não via. Bastava-lhe ouvir… Por vezes, adormecia no sofá. Todas as tardes dormita um pouco. No intervalo do sono que não chega de uma vez só.

 

Sentados no sofá falam palavras que não se olham nos olhos. Frases a granel. Vocábulos cansados por tantas vezes repetidos. Com pertinência. Sem nexo. Também sem necessidade. Sobretudo sem vontade. Nem sempre entendidos. E que interessava isso, se o importante é falar? Ambos desejam aquela sala povoada por vozes que falem palavras. Mesmo que as não percebem. Preferem o televisor. Porque fala e não os aborrece. Não têm que lhe responder. E não entendem que esteja sempre a falar de idosos deprimidos. Eles sabem que o envelhecimento corresponde aos danos da passagem do tempo. No entanto, recusam depressões caladas. Pelo menos, enquanto se amparam um ao outro. E é naquele canto da sala, em frente do ecrã, que emitem palavras ocas e vãs. Uma espécie de feira falante sobre temas mundanos. Com rifas que nenhum compra, não vá sair-lhe um termo que não quer ouvir. Não se queixam da solidão. Porém, gostam de se ouvir, apesar de já não se entenderem. Dos 55 anos de vida em comum, sobra-lhes a condescendência. A partilha do mesmo espaço. Há muito que não se agastam com disputas estéreis. Nem com outras. Decidiram não se cansar e amealhar o tempo que lhes resta. E as palavras. Proferem as indispensáveis. Silenciam desejos escondidos. Intenções ocultas. Amansam decisões que as senhoras do Lar não validam. Nem a neta que não está para os aturar. A Ritinha é uma menina. Eternamente menina. A deles. É neta, é para ser cuidada, amada e saboreada. E para estragar com mimos. Terreno arável onde semeiam amor, afecto, meiguice. Apenas coisas boas.

 

- Avóóóóóóóóó?

- Entra, querida!

- ya!

- Conta lá, como foi o teu dia na escola?

- Fixe! Tasse bem. Tenho muitos amigos. E conversamos muito. Assim tipo falar mesmo, sabes?

- Ai, filha!?

- Prontos, tão bem? A gente estamos. A cota deu-me uns trocos. Vou morfar cuns amigos.

- Ai, filha!?

- Xelente! Tão tão giros! Tão fixes! Tou tão contente. Vó, tou mesmo super, mega fixe.

- Ai, filha!

- Prontos! Só vim dar um kiss. Agora vou bazar.

- Ai, filha!

- Tchau. Jinhos. Amanhã volto.

 

Olham um para o outro, com a cumplicidade que os olhos contêm. Ele pergunta o que a neta tinha dito. Quando voltaria. E quis saber se a rapariga estava bem. Ela não respondeu. Não sabia. Mas que estava muito feliz com a visita. Afinal, a moça sempre tinha falado e aquela casa necessitava de palavras. E, outra vez, tal e qual como nas outras vezes, o silêncio interpõe-se entre ambos. Porque as palavras estão gastas. Raladas pela vida. Olham para a televisão. Mas não vêem que está a passar o programa das receitas.

 

Ele pensa. E ela percebe. Que as palavras têm vida. Que fazem um percurso e têm um curso como as pessoas. Que nascem e morrem. Que imitam e são imitadas. Que crescem. E até ressuscitam. E o vocabulário deles é muito parco. Sem neologismos. Nem tão pouco estrangeirismos. Nem percebem nada de registos de língua. Mas já tinham ouvido falar… na televisão. E a avó acaricia a neta. Que é nova. Que agora fala-se assim. O avô assume-se velho e lamenta que as suas palavras tenham envelhecido com ele. Que tenham rugas e sofram de artrite reumatóide. Que algumas até morram. O homem levanta-se e informa que vai dormir. Que repousasse bem e não se inquietasse, deseja a esposa dedicada. É que todos os dias nascem palavras jovens. Para contrabalançar, acrescentou. Já ele tinha fechado a porta do quarto.

 


Sábado, 12 de Julho de 2008

cansar

 solidão não é abandono

 

 

E mais um sábado se cumpriu. Numa civilidade irritante. Ainda por cima pedante. Ao sábado nem sempre gosto dos sábados. Eu sei que toda a gente gosta e depois? Eu às vezes não gosto.

 

Ao sábado não se trabalha. É mentira. Não ir lá não é o mesmo que não trabalhar. E há sempre tanta coisa para fazer. Coisas que não cabem nos outros dias. Protelam-se sempre. Sobram sempre. E é por isso que os sábados são dias cansados. Provocadores. Mascaram-se de ócio e depois obrigam-nos a trabalhar o dia todo. Ao sábado não há direito à preguiça. Agressivos, também. Desencaminham-me os desejos. Abomino tomar decisões ao sábado! Sim? Não? Talvez? E uma quarta hipótese, não aparece? O sábado é um embuste. Caio invariavelmente no logro.

 

Ao sábado as famílias ficam em casa. Afadigam-se tanto! Afiançam que são capazes de concretizar as vontades acumuladas na semana num só dia. Mas não podem. E há circunstâncias em que há vazio de pessoas ao nosso lado. Há momentos em que ninguém olha para nós. Só para si. Ao sábado choro a ausência de pessoas que amo. Ao sábado abro as janelas e as pessoas andam na rua. Com pressa. Como se fosse o último. É danosa a solidão que sentimos com gente ao lado.

 

Até chego a pensar que o vento e a solidão me devolvem o entusiasmo. Só que às vezes não percebo o vento e a solidão projecta silhuetas  nas paredes da minha verdade. Gosto da minha companhia. No entanto, sei que não me basto e aborreço-me com a solidão.

 

Por isso, comi arroz-doce acompanhada. Partilhei-o com a cor do infinito, do distante, da utopia. Também do frio, da frescura da manhã. O meu sábado coloriu-se de azul. Teve baloiços e ecorregas.

 

E as palavras surgiram, como sempre, doces e amargas. Decepcionadas e impetuosas. Iam e vinham, apregoando a sua liberdade de existir. Não estavam presas, nem engarrafadas. Umas brotaram violentas, ciclones devastadores. Outras irromperam tão plácidas que souberam a água benta.

 

Quando as palavras são aferrolhadas formam atoleiros ilegíveis. Há que moderar verborreias escusadas. Quando libertadas, as palavras desmoronam-se em avalanche desnorteada. Por causa disso, falámos. Muito.


Hoje é sábado. Eu quero a minha solidão. E poder dizer e falar sem nada pronunciar… Quero falar ao vento de todas as agonias sem os acanhamentos da minha ignorante humanidade. Quero a voz do silêncio e sentir a saudade.

 

Ao sábado tenho tempo…

 


Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

pelo alívio de tensões – as regras do jogo / parte III

  ou a velhice da vida


Eu sigo pelo passeio do lado direito. E o rapaz continua a pontapear a bola. Agride-a com carinho. Com os ténis cansados de tanto rematar. Goleia a equipa adversária. Ergue a taça. Ouve os aplausos e o bruaá da multidão que entoa cânticos de vitória. Marcou o golo do triunfo. Atira-se para o chão e chora. Lágrimas com gosto a êxito. Que é história. Que se faz narrativa ao serão. Ninguém o ouve, porque recolhem atestados de transportes. Desprovidos de tempo para o sono. Sem invenções para aprontar o jantar. Com desejo de dormir e, talvez, sonhar que o dia seguinte acordará domingo ou feriado.Tanto faz. Que bom que ao domingo não houvesse nada para fazer.

 

- O primeiro dia da semana, o domingo, é dia descanso…

- Descanso, não, pai! Irrompeu logo o rapaz. A Joana trabalha na loja no centro comercial. O fim-de-semana dela é a quarta e a quinta! Ela não tem domingo, pai!

- Pois…

 

Esperam uma semana que seja domingo. Vão à missa. Arquitectam um almoço com todos à mesa. Depois, escapam-se para tomar café no senhor António. E cavaqueiam até meio da tarde. Na memória guardam as novidades da rua. Segredinhos de vizinhança. Intensos e banais para que durem até ao domingo seguinte. É sempre assim aos domingos. Às vezes, ainda lhes sobra tempo para ir até ao centro comercial. O miúdo também vai. Só que contrariado. Preferia que lhe vissem o jeito para o futebol. Que o aplaudissem nas vitórias.

 

- Vais ver o meu jogo?

- Hoje é domingo. Vou descansar. Aliviar a fadiga.

- Vem!

- Vais jogar sozinho. Não tens equipa!

- Pois não…

 

Ao domingo de manhã costumam rir à gargalhada. Para enxotar os espíritos. O mau-olhado que a segunda-feira tem. À tarde, desenham projectos para concretizar na fila do autocarro. E não riem. Ainda estão estafados.

 

O garoto e a bola concretizam-se nas imagens repetidas na televisão. Com destaque a cada meia hora. Em horário nobre. Como se a nobreza se atormentasse com a publicidade. Têm jardins com plantas sempre verdes para guarnecer os jardins e espelhos de água. E palácios e palacetes ajoelhados na areia da praia com janelas a espreitar o mar. Os brasões não jogam à bola na praceta da rua de um bairro sem insígnias. Estranham o muro branco da casa das nespereiras. Apoiam-se no esqui completo (botas e bastões) e escorregam nos relvados cobertos com neve.

 

O Ti João tem uma bengala. Foi uma vizinha que lha deu. Há pessoas boas, comentava. Aquela tem mesmo ar de boa pessoa, indicava com o dedo e sorria. Quase que corava. Eu pressenti-lhe o rubor. E não se enganava. Corriam rumores que ele conseguia farejar gente boa à distância. Mesmo no lado de lá da rua. O homem amparava-se naquele pedaço de pau arqueado. Ainda se lhe percebia o brio de madeira nobre e as marcas de uma qualquer incrustação no punho. Provavelmente restos de uma espécie francesa. Com um cabo de prata. Sobras de êxodos clandestinos depois legalizados. Um generoso utensílio a fornecer apoio a quem precisa. Outras vezes artificiosas. Inúteis. Há homens que usam a bengala como sinal de distinção social. Uma bengala como sinal distintivo. Uma bengala que não transformava o Ti João num jovem moderno e airoso. Mas ele sonhava e imaginava que sim.

 

E jogam com as suas ilusões de criança. Um ainda é. O outro já foi.

 

O rapaz remata sozinho. Para um guarda-redes transparente. O Ti João confiava que teria consulta no dia seguinte. Desde que fosse cedo. Próximo da madrugada.

 

Os dois estão desacompanhados. E fantasiam. Inspiram audácias. Que se cumpririam no segundo dia da semana. Para alívio das suas tenções.

Estou:

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

envelhecer

jpelo alívio das tensões

as regras do jogo - parte II

 

Eu

sigo pelo passeio do lado direito. O Ti João continua amparado ao muro branco da casa das nespereiras. Ainda não entendeu a história dos genéricos. Pede que alguém lha conte outra vez. Não percebe nada de publicidade. Amanhã é sábado, dia de compras. Um, dois, três… acção! Já comprou. É assim que eles abanam o Ti João. Inventam-lhe ansiedades. Ele está velho, cansado, já pouco resiste. Afirma que também é gente. Afiança que não vai desaparecer deste mundo sem provar, nem que seja uma vez. E compra. E come. Uns exagerados! É tudo mentira! Confessa que se não fosse a publicidade não tinha conhecimento de nada. Que a televisão lhe destapa o que a vida encobre. Comprou duas embalagens. Uma comeu-a de imediato A outra colocou-a no frigorífico. O papel amarrotado continua agarrado à porta. Nunca se esquece de tomar os comprimidos a horas.

 

Uma promoção, disseram-lhe. Leve duas e oferecemos-lhe uma bola. Escolha. Aquela branca e vermelha. Escasseava-lhe o corpo para pensar em usá-la. Colocá-la-ia na cozinha. Num cantinho junto à mesa onde estende a sua consciência depois da sesta. Confidente de mágoas inconfessáveis. Por causa da toalha prostrada na mesa da cozinha. Junto à cesta das laranjas, o saco dos medicamentos ostenta alívios de oito em oito horas. Para não se esquecer. Tem que poupar passos e pernas e memória. Uma prenda. E sorria. Já se tinha esquecido da última que recebera. Nem tinha a certeza de ter recebido muitas. Talvez nenhuma. Não valorizava obséquios mercantilizados. Com data condenada. Não exercia presentes marcados no calendário. Gosta da bola porque é vermelha. Linda de ver, concluía sempre que a apreciava.

 

Nunca tive a certeza se o Ti João se referia à bola. Intimidades secretas na vida do homem.

 

O moço insiste num jogo a solo. Num conjunto de envergonhadas técnicas e tácticas que expõem a competência do seu executante. É premente avaliar o rendimento do atleta. Ignoro o resultado. Não lhe pergunto. Ao intervalo vou lá saber. E indago também o nome da equipa com quem está a jogar. Porventura de um escalão secundário. Nunca ouvi falar deles. Não me atrevo a interromper um jogo colectivo imitado na solidão da rua. Deserta de jogadores improvisados no relvado verde-alcatroado-fantasia.

 

O resto da equipa tem falta de comparência. Presumivelmente estão em casa. No quarto ou na sala. De olhos cativos e com mãos amarradas. Feitiço de botões coloridos. De publicidades em hora nobre. Porventura a jogar um jogo de equipa simulado. Programado. Desenhado num ecrã verde-relvado-estádio. Com bruaá ao vivo. Rumores confusos de muitas vozes mescladas com emoções plurais. Com agitações fingidas. Ali, os meninos não despelam os joelhos. Não espatifam as calças de ganga rasgada. Estão sentados. Calados. Sossegados.

 

O futebol do Ti João nunca foi a fingir. Entregou-se de verdade. Ele e os seus parceiros ao domingo de manhã. Confessa que não percebe nada de videojogos. Prefere a rua. A eira.

 

O Ti João está moído. Entra e senta-se. Olha para ela, para a sua bola-prémio. Toca-lhe com a bengala. Um remate de meia distância. Forte. Seco. A culminar uma fantástica jogada individual. A vida é um jogo de solidão. Sem intervalo.

 

E lá conclui que golo marcado com botão de consola não tem cheiro. Nem voz. Nem abraços. É golo e pronto. Não é golooooooooooooooooooooooooooo! Não tem sabor. Não tem não!

 

  

[Fotografia Pedro Jorge Matos]


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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