Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

rezar ilusões [tanto no céu como no mar]

 

No céu, as nuvens acontecem debruadas com orlas de azul… e recolhem, no ninho do seu afecto, sonhos atirados para o ar. No mar, as mulheres espalham rezas avivadas com marés de esperança … e serenam, no colo da sua fé, vendavais da sua pele molhada…

Em terra, eu adormeço na amálgama do mar e do céu … e choro por não lhes conseguir tocar… na perplexidade de tanto marear.

 

 

 


Sábado, 31 de Janeiro de 2009

emudecer

 silêncio dos sonhos

 

 

 

De dia nem sempre me apetecem palavras. Apenas quero ver silêncios aparatosos que me acordem. A noite aperfeiçoa os esboços que desenho. Transfigura-os com luzes e brilhos... De  noite não desejo o dia.  Nem o Sol. De noite, é a linguagem do silêncio que repara aquilo que o dia estragou.

 
Quando todos se calam, aconteço nos braços de Morfeu. Somos corpos abraçados ao nada num desvario afrodisíaco, até de madrugada.  Alheios a Hipnos que adormece tragado pelo ciúme num palácio onde o Sol nunca entrou. Com Baco ébrio de deslumbramento a espreitar a paixão.
 
Mas sempre que não me apetecem palavras, os sonhos extinguem-se no impedimento de falar.
 
 
Setúbal
Fotografia de Jorge Soares
tags: ,

Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009

utopiar

três desejos de ano novo
 
 
 
 
 
Era uma vez um menino muito pobre que vivia numa aldeia tão pobre quanto ele. Até o riacho, onde chapinhava no Verão, morria à sede com água pelo tornozelo. E ambos agonizavam nas tormentas que calavam. E choravam a sorte, empoleirados numa pedra cinzenta.
 
O menino tiritava de frio, ao mesmo tempo que arremessava pedrinhas na esperança de ouvir onomatopeias cantantes. Foram gestos vãos. Esforços falhados para amornar as mãos. E de repente, uma pedrita muito afável interpelou o rapaz:
 
- Três desejos, apenas três… Queres?
- Tu? Disfarçada de génio? E o Aladino?
- Se não queres, não queiras! Depois, não grites…
- Concedes-me três desejos, é?
- Irra! Não disse já que sim?
- Uma casa! Tens?
- Certo, meu petiz.
- Dinheiro? Preciso de algum…
- É normal… E qual é o teu último desejo?
 
Fez-se um silêncio tão grande que nem as rãs se atreviam a coaxar…
 
- Uma família! Não precisa de ser muito numerosa… apenas que chegue para o ano inteiro. Mas tem que ter um irmão!
 
- Bem pensado, sim senhor! Tenho que me ir embora… Gostei do tempinho que estive contigo, rapaz.
 
E desapareceu num silêncio tão excessivo que se ouviu a pedra a rolar. E o menino pensou que tinha sido engano… que nem acreditava em milagres... mas que podia desejar. 
 
A utopia é inatingível, se fosse certeza não era utopia! Mas não deixa de ser o princípio da esperança... 
 
 
 
 
O verbo foi sugestão do Perfume, a história foi escrita pelo D.Q. , um menino também...  Só a aproveitei!
 

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

segredar

de João Palmela (Arrábida, Setúbal)

 

Se eu pudesse, descobria um caminho só para mim. Um trilho para a ilha deserta que há ali. A ninguém diria o caminho. Depois, construiria um castelo para ouvir o mar. Era um segredo que de todos calaria, porque o silêncio é escasso por aqui. Apenas para mim e muito belo.

À sua volta estariam plantas, flores e árvores com ninhos de alegria. A ninguém diria. Acessos sinuosos, ruas labirínticas, carreiros muito estreitos, silêncios canoros bastantes para os amantes. E nós faríamos amor todas as manhãs. Como o mar e a areia. E o Sol. Vendava-te os olhos, enrolava-te na minha paixão, dava-te a mão... O caminho? Não to diria, não!

E os outros, se assim entendessem,  apregoariam a minha morte. O meu naufrágio. E eu, ávida e esfomeada, viveria a êxtase da  beleza. De uma terra que é minha. De uma serra que é mãe.

 


Sábado, 2 de Agosto de 2008

sonhar

o direito de sonhar é universal

 

Admiráveis, os sonhos. Sonhar é bom. Enche a cabeça de memórias e de vontades. Desejos que ficam no papel. Que dão volta ao mundo. E o Sol ilumina-os. Desvendam-nos por terras e mares. Entre o possível e o impossível, nasce o entusiasmo. E concluimos que somos capazes de fazer um desenho... E a vida é melhor. É que, às vezes, quando sonhamos muito as coisas acontecem... e somos crianças no baloiço a baloiçar. E temos o colo da mãe para dormitar. E do pai para embalar. Depois, chega a preguiça, pegamos nas asas e voamos. E voltamos sempre ali.

 

E voltei como sempre. E comi arroz-doce com canela e conversei muito. Agosto está de férias. Mas, mesmo num dia soalheiro e espirituoso sabe sempre bem misturar conversas. Assim, há tempo para todas. E isto e aquilo. E mais o outro e a outra. Hoje e ontem. Agrados e desagrados. E gargalhadas de chorar a rir. Sempre!

 

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

pontos recentes

rezar ilusões [tanto no c...

emudecer

utopiar

segredar

sonhar

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...