Quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

Declínio do sol [erros de agosto]

 

 Gostava de me empenhar e poder fazer o que agosto ainda não deixou. Andar para trás para calar o relógio. Atirá-lo ao chão e dizer-lhe que bastava de ladrões do tempo. Saborear o perfume da terra e lamber o mar. Colher um ramo rubro de papoilas e enviá-lo para o céu. Tourear um touro e cair na arena sobre o bruaá silencioso das bocas desconhecidas que poisavam nas bancadas. Calar o ruido dos ruídos de tantas vozes difusas.

 

Apetecia-me apanhar sol na proa da traineira e ver o sol a cair e não o poder ajudar. Saltar para o rio e molhar-me de muito. Chegar à meta sem querer dizer o lugar. E falar para no meio das palavras chorar o silêncio num eloquente e enorme discurso. Poder fechar aqueles livros. Com o mesmo desejo com que um dia os folheei. Erguer-me na proa da mesma traineira azul e morrer descansadamente. Na elegância do azulado do rio.

 

Queria, agora que agosto já não deixa, desviar-me. Sem que me molestassem. Ou quisessem ver-me muito longe de mim.

 

 

[fotografia de Pour les océans]

 


Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

rebuçado para a tosse [diálogo d'entrada]

- hum...
- pois…

- queres um rebuçado?

- porquê?

- tens tosse…

- ah!!

- é para a tosse… desembaraça… tira a cor baça…

- não é para mim…

- pois… é um modo de dizer…

- a tosse disse que não

- pois… e tu?

- eu não quero… não tem cor

- tem doce…

- cola-se… engasga...

- fazes mal…

- estou bem

- tens tosse

- cala-te

- fazia-te bem

- o quê?

- o rebuçado…

-deste-o à tosse…
- não dei
- ela não gosta

- parece que não

- não

- um rebuçado não faz mal

- nem bem… mas apoquenta… dá muitas voltas…

-
- não te vou morder

- podes melhorar

- estou tão bem

- não é morder… trincar é melhor

- pois…  trincar é quando o vidro quebra, mas não despedaça…

- parvoíce… a língua não se parte…

- não posso

- pois… podes roer as unhas…

- não tenho tosse
- palavras
- tanta água
- desculpa
- está bem…
- o rebuçado…
- se tivesse tosse, mas não tenho

- estás com cara de galão escuro

- estou tão bem
- não estás…
- não gosto

- do rebuçado?

- do leite… o café pode ficar…

- mete-o no bolso… o rebuçado…

- a bala... vou trabalhar…
 
 
 [imagem da internet - bala=rebuçado]
 

 


Sábado, 11 de Julho de 2009

ceifar [a vida daninha nas lavras do arroz]

de Isabel Alfarrobinha

 

 

Na monda do arroz, as mulheres vestiam chapéus de palha do tamanho do Sol. Por causa dele. As abas colossais do chapéu rejeitavam o Sol que alourava o arroz. A água regava os pés das mulheres. Que sorriam. Cantavam ondas de alegria. Ao vento.

Na monda, os chapéus abavam-se na ânsia de não querer o Sol. Que era do arroz. Que elas viam a crescer. Adivinhavam pérolas de alegria. Ali.

Nas abas do chapéu poisavam os pardais para espreitar os rostos corados às raparigas. Por vezes, roubavam-lhes um beijo. E elas queixavam-se das ervas daninhas. Sorriam. Os pardais voltavam... por causa dos bagos de Sol...

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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