Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

quebrar

no vento desenho a fuga 

 

 


O vento fresco da manhã atravessou desavergonhadamente a janela… guarneceu o meu incauto e desnudado corpo com nítidas asas brancas. Matizou-as com delicados fiozinhos dourados roubados ao Sol… Libertou-me o cabelo das nuvens… A viagem aconteceu moderadamente. Num abraço de brisa fresca, percorremos as ondas do éter no manso fascínio da correria.

 

O vento, na mais límpida desatenção, largou-me num sopro perpendicular ao céu, numa verticalidade violeta. E o vento rodopiou por cima de toda a gente que encontrou. Rodopiaram as folhas e as nuvens. O Sol e as flores. Pedaços de mar e rios de amantes...

 

Mesmo que eu pudesse consertar a minha asa despedaçada, não saberia… o meu grito poisaria na sua ponta dorida e as penas vogariam na correnteza do rio…

 

O vento poisou. Serenou. Lambeu as feridas do meu olhar e pôs-se à janela...

 

 

[imagem da internet]

 

 


Terça-feira, 17 de Março de 2009

atempar

O vento rodopia rápidas reprimendas. Por aqui e por ali. Mais além, acolá também. Divulga-se, voa, galga mares e escala montanhas na mais completa ânsia de transposição de espaços. Dispersa-se nas línguas e nas gentes. Sabe segredos que partilha a cada esquina. O ancião carrega uma mão cheia de sentidos. E pelos dedos, conta um a um… concluindo, invariavelmente, que lhe falta outro. Que a conta está errada!

 

O tempo inveja-lhe o ofício. Quer ser vento, de manhã, à tarde, até de noite. Por isso, põe-se a acontecer, implacavelmente. O vento graceja da incapacidade. Lembra-lhe a ausência de mãos e acrescenta que não tem sentido o que teima em fazer. Que guarde as asas! Quebradas não chegam ao céu… alerta.

 

Percebi a dignidade do vento. Se não desperta todos os dias com a mesma intensidade, a erro é do tempo. Ao relógio, extingo a corda… vou deixá-lo a abolorecer. Sempre que o meu relógio não tem tempo, a minha liberdade solta-se com o vento. 

 

[imagem da internet]

 


Sábado, 18 de Outubro de 2008

combalir

  da Internet

 

No mundo há seres humanos. Um mundo colorido com as cores todas que o mundo tem. Com cantos e recantos. Tantos que nem sei quais. Eu tenho o meu cantinho. Às vezes, perco-me nele. Calcorreio caminhos. Trilhos e avenidas. Veredas e rotinas. No entanto, o que mais gosto é de subir ao monte. Fico mais próxima do céu. Conto as estrelas e afago a lua. Ao sol não faço nada. Ele tolda-me a visão. Ao rei presto vassalagem. O meu olhar vira-se para baixo e vislumbro o mar. Tão largo que banha o mundo inteiro. No monte eu posso reaprender a ouvir o canto dos pássaros. E redescobrir flores a desabrochar. Aceitar a dávida e lamentar a efemeridade da beleza. Da vida. Também, quem sabe, adivinhar o sorriso doce da criança que cresce como a flor. Sentir a força da amizade e o prazer da cumplicidade. Sentir o vento e gargalhar, antes que me congele o coração. Ou me emudeça a voz. É um sopro que desce da colina. Corre pela encosta e arrebata o ar em movimento. Desafia o frio e alguns calafrios. No monte, gozo de abrigo e digo que outros ventos virão. Que ao amanhecer, brisas suaves chegarão com contentamentos na mão. Ou não!

 

Na minha cidade o vento tem temores e faz o meu cabelo dançar. Agitação fria que não deixa ouvir os gemidos. São corpos enfermos que gritam dores silenciosas. Erros ortográficos que o vento gerou. Males vindos de longe ou daqui. Fragilidades copiadas dali. Promiscuidades terrenas. Cópias arrebatadoras. Progresso tirânico que não ouve o vento! E vulgariza as dores ao ignorar humanidades.

 

Na minha rua as pessoas têm rosto. Aqui o vento não desce pela colina. Trepa-a e fala crueldades. Geladas. São os ventos de hoje que semeiam fraquezas humanas. Combale e deprime. Porque o Mundo não goza de boa saúde. Está debilitado. E muito angustiado.

 

Na minha rua os riscos amarelos são amarelo-desbotado. E todos os dias há mais um… Eu detesto que risquem a minha rua deste modo. Fico muito combalida. E tenho para mim que a culpa não é do vento. Ele só assiste ao temporal. E Deus? Ele sabe que as crianças não desenham assim. São os adultos, Senhor!

 

Ao sábado não riscam a minha rua. Por isso, vou comer arroz-doce. Antes que a tracejem para mim.

 

 


Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

pintar

lágrimas de Agosto

 

 

Agosto despede-se. E chora. Faz birra e esconde o Sol. E as nuvens desenham no céu sonhos coloridos de crianças. Descansos e cansaços saudáveis. Preguiças e bocejos admiráveis.

O mar pinta-se de azul-marinho. Ali escuro. Acolá transparente. Claro. Admirável e barulhento. Picado, afirmavam. Ponteado de cristas brancas. Agitadas e nervosas. Agosto também. Para a semana é Setembro. A praia está só. O mar indómito.A areia penteada. Restos de chapéus de sol olham para o mar e carpem a desgraça. Há muito que Agosto não tinha um dia assim. Os corpos ávidos de sol são fustigados. E escondem-se em panos alugados. O deserto começava a estar ali. O vento guincha fúrias contidas. Hipocrisias caladas. Afectos traídos. Vaidades assumidas. Tão forte e tão frio. E o vento cospe nos rostos a areia que já não quer. E desliza num mar de queixumes, na certeza que as forças da natureza são incontroláveis.

 

E o vento bate à porta do meu sossego. Vai-te daqui, ordenou descontrolado. Não entendi a razão. Insurgi-me com os modos. Não grites comigo, disse com autoridade. E o vento lastimava que assim tivesse acontecido. E sussurrou-me sem alarido que não estava a gritar. Foi só um guincho. De uma mão cheia de areia.

 

 

 [fotografia de Paola]

 


Domingo, 3 de Agosto de 2008

fingir

fingimento das nuvens

 

ou as ilusões da vida

 

 

É Agosto. O sol anda quente e o tempo seco. Não chove por razões que o coração conhece. A chuva encharca os corpos. Forma-se nas nuvens que saracoteiam alegremente. Metamorfoses condensadas às voltas no ar por causa do vento. Penhascos negros. Desenhos fingidos. E o rapazote grita que vê um peixe no céu. E a mãe não vê nada. Não acredita Mas pergunta-lhe onde. E ele ri. O seu dedinho afoito aponta a direcção certa. E está ali. Um peixe e mais à frente um avião e uma ovelha. E muita gente também. E pergunta, apatetado com a falta de visão da mãe, se ela não está ver. Ela finge que sim. Tudo corresponde ao que ele diz, garante. No entanto, não consegue descortinar desenhos infantis. Muito menos no mar. Mas diz que sim. E riem-se culpados. Um viu o outro não. E o céu está azul, o mar é que não. E indica os olhos, o nariz a boca e o cão. Olha o rabo dele, mãe. Só que o cão morde, alerta a mãe. O petiz sabe, ela é que não. Na sua cabeça já não entram ilusões. Tudo é excessivamente real. E uma dor ganha forma definida. Dói com sabor a desilusão. Com aroma a desencanto.

 

E bem lá no alto, mais para a esquerda, vislumbra uma teia e uma aranha. Enredam-se os fios. São fortes e resistentes à chuva. Por isso, capturam as suas presas. Ela não compreende, porém vê. Assusta-se. E as nuvens seguem por atalhos vagabundeando pelo céu. Para locais que ela conhece, ele ainda não. Para um sítio longínquo chamado passado. Outro lá para a terra das recordações. E naquele instante deseja apenas o futuro. E chora. As mãos têm gotículas de água nos dedos. Os cabelos encaracolam-se com a humidade. O chapéu é um acessório, logo dispensável. O garoto pede-lhe que feche o guarda-chuva. Que não chove. Que ela está a imaginar chuva em Agosto. Mas em Agosto também chove. Chuva que não molha, porém arranha.

 

Em Agosto, a mãe escreve palavras que falam de afectos, ao mesmo tempo que dos seus olhos tombam prantos decepcionados. E no papel nasce um desenho manchado. O menino olha e anuncia satisfeito que a mãe rascunhou uma nuvem. E que ela parece uma rena a dançar. E pede-lhe que desenhe só para ele. Aponta para o Pai-Natal, mais além. Vês, mãe?

 

Faz mais! Assim, pode guardar os desenhos na gaveta. Ou encerrá-los no seu peito para mais tarde os redesenhar, mesmo contra o vento. Ou apagá-los com uma borracha branca. Ou riscá-los como os aviões fazem ao céu. E conclui que a vida é  feita de enganos e desenganos. De ilusões e realidades. De lágrimas de rir e de chorar.

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...