Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

contar [no resto das sombras]

 
 
- Somos nós três. Na rota do Sol…
- Dois. Eu não conto…
- Eu vejo três. Um… dois… três!
- Não vês!! Mas crês?
- Sim! Um… dois… três…

- Conta outra vez. Apenas o que vês.

- Já o fiz. A conta está certa. Três!

- Amigos, a sombra não conta…
- Sou eu!      
- Não! Não! Descortês!
- Amigo, a sombra não amedronta…
- A do medo sim…
- Vocês?
- Da periferia do mundo.
- Da ausência da luz.

- Eu estou aqui. Dentro de mim. O exterior não conta!


 
 

 


Terça-feira, 2 de Junho de 2009

navegar [por mares de aflitas amarras]

 

fotografia de João Palmela

 

… porque a importância é importante, não a desminto. Antes, velejo por mares quebrados. E, ao longe, vejo a reconciliação de proficientes caravelas. Na proa, os marinheiros exauridos lambem o sal dos abalroados namoricos… e desamarram as amarras com as pontas dos dedos. Desatando frutos. Tecendo nós.

 


Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

aquecer

 

dia de coisa nenhuma

mês calado

 

Em Agosto o país está de férias. Abundâncias de Verão. O café da rua tem grades na janela. E procurar alternativas à rotina dá trabalho. A mercearia do Mário reabre mais tarde e encerra na última semana. E lá se vai o pão da manhã. Quente e estaladiço. A fruta também. A Elisabete da papelaria preferiu os Açores. A loja de informática não vende consumíveis porque os fornecedores estão de férias. O Centro de Saúde vai abrindo. Hoje o médico não veio. Está de férias. Mas veio outro. Para quê se a farmácia anuncia rotura de stock? A Maria não partilha conversas bisbilhoteiras na mesa do café, pela de manhã. Procurou a praia que não é aqui. A poluição sonora é um estorvo melhorado. Também os carros procuraram o ócio. E levaram ruídos e barulhos ensurdecedores. Motores alvoroçados desde a manhã. Buzinas nervosas a denunciar estacionamentos suprimidos. Ou acenos expansivos. O senhor Alfredo da padaria pegou na tenda e aferrolhou a porta. Levou o cão e disse que o melhor era fechar. Já escasseava o pão. Refilava exaltado que todos têm férias e que ele também é gente. E os autocarros circulam na rua com menos frenesim. E a São, que é cabeleireira, avermelha-se na República Dominicana. O matracar infernal das maquinarias na oficina das marquises e estores amansou. A rapaziada é jovem e está a adubar-se na praia. A Joana teve que ir à terra. Há que visitar a família. E Agosto dá-lhe tempo. É por tudo isto, que a minha rua se despiu do seu reboliço rotineiro. Um deserto sem oásis. As dunas são miragem e a areia está no outro lado. Do lado do Sol.

 

 

Agosto está de férias. Viajar é viajar. E ele aí vai. Descansar é descansar. E ele fica por aqui. Dormir é dormir. E ele acorda tarde. Aqui e ali. Agosto é preguiçoso. Mas não quer assumir que a preguiça faz bem. Não trabalha. Está de férias. Não pode. E não se lembra que só será gaiteiro, se for bonito o primeiro de Janeiro. Janeiro já lá vai. E estava um frio de estalar os ossos. Conversar é conversar. E ele não se cala ao café. O assunto é que escasseia. As palavras também.

 

Agosto só fala de férias. De praia com muito Sol. Por vezes, interrompe e traz para a conversa palavras campesinas. Conta viagens. Devolve saudações da família.

Finge-se jovem. E garante que o seu corpo é perfeito. Vangloria-se da sua pele dourada. E não conta a viagem que não fez. Confessa-se um viajante compulsivo. Percorre o mundo inteiro. Mas só escolhe locais com praia. E com sol. Depois regressa e lê no jornal que o endividamento das famílias aumentou. Que um novo recorde foi batido. E pergunta em que modalidade. Garante que tem estado atento aos Jogos Olímpicos e não deu por nada.

 

E debaixo do chapéu-de-sol da esplanada do café do senhor João, a Lena anunciava a sua sorte. Estava de férias. Por ser Agosto. Almoçava e jantava com os miúdos. E passeava com eles. E contava como eles se riram no Parque Infantil. Hoje, não faço nada. Juro! Reservei este dia para não fazer nada. E nada é nada. Durmo em casa e como no restaurante. Talvez nem coma! Os rapazes estão com a avó. Ele foi trabalhar. Que bom! Nada! Não farei nada. Só porque estou de férias e é Agosto. Vou jantar com uns amigos. Depois não tenho tempo.

 

E todas riram das palermices. Eu enunciei, em tom solene, que concordava em absoluto. As férias também servem para não fazer nada. Está iniciado o meu dia da mais buliçosa preguiça. Nada. E não faço nada. Não por ser Agosto. É mesmo porque não quero que Agosto mande em mim. Safa! Já basta Dezembro.

 

 fotografia de Paola


Sábado, 2 de Agosto de 2008

sonhar

o direito de sonhar é universal

 

Admiráveis, os sonhos. Sonhar é bom. Enche a cabeça de memórias e de vontades. Desejos que ficam no papel. Que dão volta ao mundo. E o Sol ilumina-os. Desvendam-nos por terras e mares. Entre o possível e o impossível, nasce o entusiasmo. E concluimos que somos capazes de fazer um desenho... E a vida é melhor. É que, às vezes, quando sonhamos muito as coisas acontecem... e somos crianças no baloiço a baloiçar. E temos o colo da mãe para dormitar. E do pai para embalar. Depois, chega a preguiça, pegamos nas asas e voamos. E voltamos sempre ali.

 

E voltei como sempre. E comi arroz-doce com canela e conversei muito. Agosto está de férias. Mas, mesmo num dia soalheiro e espirituoso sabe sempre bem misturar conversas. Assim, há tempo para todas. E isto e aquilo. E mais o outro e a outra. Hoje e ontem. Agrados e desagrados. E gargalhadas de chorar a rir. Sempre!

 

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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