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ponto de admiração

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22
Jun08

a culpa de Baco

Paola

publicidade evitável

 

 

Ao sábado celebro o arroz-doce. Com canela. Café imediatamente a seguir. Depois, iniciam-se viagens. Fazemo-nos à estrada das compras. Das gargalhadas. Dos orgulhos das crianças que temos. Das partilhas que há muito fazemos. Das cumplicidades também. E, há que confessá-lo, de esconderijos coniventes de palavras, igualmente. Alimentamos o corpo e a alma. Assim, felizes e contentes. Com o tempo todo que o sábado tem. Nem sempre o gastamos por inteiro. Outras vezes não chega. Temos direito a não ter tempo composto numa campainha com voz de soprano. Por vezes sobressalta-se e passa de aguda a grave…

 

Galguei a estrada até ao local de encontro. Sempre pelo passeio, não fossem os carros não reparar. A inevitabilidade mostra-se nos placares exteriores de publicidade. Desabrocham nos passeios como cogumelos. A uns apetece-me comê-los. Outros laminá-los.

 

E lá estava ele. Encontrei-o uma ou duas vezes. Verde. Facto que é logo uma desvantagem. Não é. Nunca foi uma cor de eleição para mim. Gosto de alfaces. De brócolos. De nabiças. E muito de feijão-verde. De todos, apesar da cor. Nem resisto, quando a conjuntura é favorável, a um verde bem fresquinho.  O verde é cor que pinta as flores e as árvores. A erva e a relva. Apenas na natureza é que o verde é admirável.

 

Beber um copo não faz mal a ninguém. Há mesmo quem afirme que beber é uma arte. Essa é que eu não sei. Que beber vinho é um acto de cultura popular. O vinho até pode ser a defesa para a ruptura com a norma. Há sempre a desculpa misericordiosa do coitado, estava bêbado, não sabia o que fazia... Pois que seja.

 

Razões há muitas. É como os chapéus… Mesa. Produção. Transformação. Cultura. Distribuição. Comércio. E sei lá eu que mais. Só porque sim!

 

A publicidade, baseando-se no conhecimento da natureza humana, espreita-nos a alma. Quanto mais lhe descobre as necessidades, os desejos e os impulsos, mais fácil se torna a ofensiva. Sabe-se que a publicidade divulga produtos de vários tipos. Não se ignora a sua vontade de nos despertar o interesse. A vontade de nos fazer comprar. É tudo uma questão de técnica. Uma boa campanha publicitária é meio caminho andado para o sucesso. Entenda-se lucro.

 

Resisto-lhe com frequência. No entanto, tenho as minhas vulnerabilidades como qualquer mortal. Não crucifixo a publicidade. Desta que está no passeio não gostei. Provavelmente não entendi. Não compreendi o slogan. Não articulei a imagem. Foi isso, seguramente...

 

Jovens e saudáveis. Sorridentes e frescos. A idade garante-lhes o rótulo de “dentro do prazo”. Os modelos são perfeitos. A aparência magnífica. O texto e a imagem conjugam corpos jovens e frescos no presente do indicativo. Não é bom. É óbvia a relação. A metáfora apoia-se em rituais antigos. As propriedades do vinho mesclam-se com as da juventude.

 

Corpo jovem. Saudável. Fresco. Os rapazes publicitam o prazer de beber vinho. E a mensagem passa… Os rapazes, e raparigas, que o consumam ficam assim… Como se eu acreditasse que o meu corpo se remoçava com tal coisa. E eu gosto. Lá isso gosto. Discordo que se persista no uso de gente jovem a apelar ao consumo de álcool. Já não chega a cerveja? Nos bons e maus momentos? Com direito a hino e tudo? Não gosto…

 

Existe «uma associação entre os hábitos alcoólicos e outros comportamentos», como a violência. A afirmação foi feita por Carlos Farate, autor de um estudo sobre os «Jovens e o Álcool», apresentado, esta terça-feira, na Assembleia da República.

Os dados revelados indicam que os episódios de comportamentos exteriorizados, como a violência, decorrentes de hábitos alcoólicos exagerados, têm mais incidência nas raparigas do que nos rapazes, ao contrário do que se pensa, «devido a impasses significativos no processo de identidade» das raparigas, explica.

O estudo, apresentado pelo professor, revela que 47,2 por cento dos jovens começa a beber bebidas alcoólicas a partir dos 13 anos. Aos 18 anos a percentagem de consumo sobe para os 93,5 por cento.

 

A culpa disto tudo não pode ser só de Baco. Parece que foi ele quem primeiro plantou a vinha. Porém, a primeira e mais célebre carraspana foi Noé quem a apanhou.

 

Uma cerveja bem fresquinha sabe sempre bem. Culpar os outros é fácil. Falar no diabo é mau. Mostrá-lo ainda é pior. Quanto mais assim tão dissimulado.

  

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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